Jolivaldo Freitas

Péssimo negócio fez o publicitário Nizan Guanaes, quando precisando de um adjutório (deu numa coluna que estaria com síndrome de ansiedade), teria ouvido da sua, do seu analista paulistana(o) a sugestão de que voltasse às origens. Ele interpretou que seria realizar back in Bahia, lugar de onde saiu há dezenas de anos para fazer a burra e que mudou muito e ele longe não percebeu. Quem está aqui dentro na maioria das vezes não vê que a Bahia não é mais a mesma, imagine quem se escafedeu divisa fora.

Pois, a Bahia de agora, deviam ter dito a Nizan os seus amigos e parentes baianos, com suas feridas cada vez mais abertas, vem a ser um péssimo palco para sua criatividade. Foi o que se viu quando gestou a ideia ou aprovou em braisntorm a infeliz ideia de ter como tema no aniversário de 50 anos da sua querida mulher Donata Meirelles, uma lúdica e infeliz abordagem negreira, imperial, de engenho. Talvez por achar bonito as gravuras de Debret e não ter informação suficiente sobre a questão histórica escravagista, o uso de duas negras paramentadas como escravas em festa, gerou o mal-estar que a comunidade negra empoderada ou rêmoras de Salvador vivenciou.

Não adiantou dizer que a foto em que Donata estava sentada numa cadeira de rainha, uma cadeira indiana usada pelas ialorixás nos terreiros como símbolo de status e liderança espiritual, com as duas “mucamas” ao lado tinha outro sentido, pois as “modelos” negras estavam com vestido de festa. Nizan e Donata demonstraram no mínimo ignorância pois escravas cheias de ouro eram o orgulho e a vaidade dos senhores e das sinhás. Era, naqueles velhos tempos, uma forma de mostrar riqueza.

 Na Bahia de hoje, particularmente politicamente correta, por mais chato e capenga que isso venha a representar, é preciso cuidado com o que se faz e principalmente com o que se mostra, pois, a patrulha não dorme. Hoje está difícil até chamar alguém de minha neguinha, por mais carinhoso que seja dito. Está difícil chamar o amigo de meu preto. Teve até uma discussão num grupo de Whatsapp porque foi dito que astrônomos americanos haviam descoberto um novo buraco negro no fim da galáxia.

A Donata perdeu seu emprego na revista Vogue Brasil que dirigia e seus neo-desafetos destacaram que negras eram raras na publicação. Ela pediu para sair e Nizan Guanaes não se meteu, enfiou a cabeça na areia do Porto da Barra e tentou passar incólume como um tatuí.

Com certeza que a moça não vai jamais esquecer seus 50 anos completados na Bahia, numa escorregadela que quanto mais se justifica mais complica. Escrevo a respeito só para dizer que é preciso tomar cuidado com o que se faz na Bahia de hoje, ainda mais com o julgamento feroz via internet, em que a maioria se acha preparada e com ideias definitivas e “justas”. Na Bahia de hoje, em se tratando do tema que envolve a comunidade negra tem de saber pisar, tocar, pois a sensibilidade é maior. A divisão racial bem mais ainda. No caso de Nizan/Donatella foi uma questão do criativo querer ser criativo sem braisntorm e se perder na criatividade. De tropeçar na inteligência. De não saber mais onde estava pisando. De não ter a humildade de perguntar se iria ferir susceptibilidades. E feriu. Interessante é que o nome Donatella em sua origem significa “dada de presente”. Acho que ela tão cedo não volta à Bahia. E Nizan vai ter de conversar mais com sua (seu) analista sobre a Bahia e o tempo.

Escritor e jornalista: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

       O Brasil esta padecendo, morrendo aos poucos.

     Não foi apenas um jornalista que abruptamente partiu, foi uma voz lúcida, franca, fluente, autêntica e honesta que se calou, um eco desfeito no tempo, num tempo de escassez de bom senso.

     Tenho a sensação de que o povo brasileiro está sendo punido por um pungente e fatídico destino. Muitos barcos têm partido transportando para o alto as boas almas, deixando os portos apinhados de medíocres e canalhas.

     A Band está partida ao meio.

     Sem ele, o jornalismo brasileiro fica empobrecido. É como se, a partir de hoje, o noticiário, o pobre noticiário político do Brasil, estivesse perdendo a sua referência e um tanto da sua isenção e credibilidade. Ele exercia o jornalismo honesto, racional, cujas opiniões se caracterizavam pelo desprovimento de sensacionalismo tendencioso e emocional; amparava-se tão somente na verdade factual. Portanto, isenta de paixões ideológicas e partidárias.

     Mas, de fato, não acredito que ele tenha partido. Um profissional do seu quilate é imortal. Por isso, não ficaremos saudosos de ti, caríssimo e admirável jornalista. Fique sabendo que procuraremos preencher o vazio com a sua imagem e com a sua voz gravadas na lembrança. Na lembrança de toda a gente que ama, que cultiva o valor da verdade e torce pelo bem da nação brasileira.

     Foi-se quem não reproduzia a opinião dos donos das emissoras comprometidas com os interesses mercadológicos, políticos e eleitoreiros, mas com a voz independente da sua própria consciência. Um ser humano possuidor de um senso crítico opinativo de valor inigualável e cuja competência e caráter invisibilizavam os eventuais equívocos profissionais.

    Partiu sem despedidas, da mesma maneira com que exercia a sua profissão, ou seja, com a mesma liberdade e independência; foi-se. Partiu sem aviso prévio, de forma inesperada e silenciosa, como partiram as vítimas de Brumadinho e os promissores garotos do seu clube de coração.

   Talvez não soubesse ele que ainda tinha tanto por fazer na sua nobre missão de comunicar e viver.

    Seria tão bom se existisse uma linha direta com o céu, para que pudéssemos, pelo menos vez por outra, ouvi-lo no rádio do automóvel nas nossas manhãs mal iluminadas, antes de enfrentarmos o trabalho ou, quem sabe, na telinha da TV para que as nossas noites não ficassem tão vazias de coerência e verdade.

     Fato é que as manhãs nascerão mais silenciosas, as piadas do Macaco Simão serão menos engraçadas, as noites menos iluminadas nas imagens das telinhas e as páginas dos jornais estamparão o branco luto da sua última crônica.

 

    Jair Araújo - escritor

     Membro Correspondente da ALACIB - Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil, Mariana/MG.

     Membro efetivo da SBPA - Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas. 

Lá fora um grupo de crianças sujas corre por entre escorregadores, hastes e balanços do parquinho da escola em frente ao quintal da minha casa. Digo, sujas e felizes, no intervalo entre os toques das sirenes que anunciam recreio e aula. Não parecem pensar em nada, nada além de serem os próximos a descerem a rampa escorregando, ou cantarem o refrão da vitória no próximo game. Não está na pauta a matemática nem a geografia, menos ainda os problemas sociais do momento e os desdobramentos destes para o futuro. Apenas uma solene e eficaz alienação benfazeja. A vida está ali à minha frente, a poucos metros; viceja, reluz e floresce, como o recorte irônico de uma realidade ideal e utópica. A grama verde, salpicada de jasmins, o vento fresco e o bailar dos ramos pendentes das faias que dão sombra ao jardim parecem acenar em vão aos que transitam ao redor de tudo, indiferentes e apressados. Ao meu ver, mundos particulares, ilhas sociais. Do lado de cá da cerca, o meu. Plantas mortas, folhas murchas, galhos secos pelo chão. Uma cadeira antiga de forro roto à sombra da antessala testemunha e analisa a vida alheia. Silêncio e cheiro de mofo transbordam daquele lugar lúgubre. Tédio. A solidão conspira contra a alegria. Posso ouvir o sopro lento e continuado de minhas ventas, e incomoda. Estou vivo, posso ver, mas não muito, devo crer. As lembranças me matam amiúde, me remetem a outros tempos, a outras vidas, me atormentam miudinho. Olho para fora e não estou lá; estou dentro de mim, preso lá nos quartos do fundo, sozinho, fraco, culpado, sem perdão. Quem eu era ou quem fui se dilui dia a dia, se esvai em imagens etéreas imprecisas, uma morte cruel sem um corpo para enterrar. Os amigos, eram muitos, como bolhas vencidas, espocaram, pois não eram. As medalhas, muitos méritos, como palha, igual valor. O futuro, página aberta, como um filme, ilusão. Os sons, o movimento e as luzes lá de fora contrastam com o meu silêncio interior, o marasmo e os tons de cinza que mancham a tela da minha alma perdida. É teimosia viver, grande e contumaz, sobretudo quando esta se resume a um instante, sem caminhos para depois. Vejo agora as crianças saindo correndo, mochilas nas costas, um mundo à frente...  Vão, filhos, ganhem o mundo, vivam a vida; até amanhã...

Itamar Bezerra.

Teólogo, escritor e poeta

       O Brasil esta padecendo, morrendo aos poucos.

     Não foi apenas um jornalista que abruptamente partiu, foi uma voz lúcida, franca, fluente, autêntica e honesta que se calou, um eco desfeito no tempo, num tempo de escassez de bom senso.

     Tenho a sensação de que o povo brasileiro está sendo punido por um pungente e fatídico destino. Muitos barcos têm partido transportando para o alto as boas almas, deixando os portos apinhados de medíocres e canalhas.

     A Band está partida ao meio.

     Sem ele, o jornalismo brasileiro fica empobrecido. É como se, a partir de hoje, o noticiário, o pobre noticiário político do Brasil, estivesse perdendo a sua referência e um tanto da sua isenção e credibilidade. Ele exercia o jornalismo honesto, racional, cujas opiniões se caracterizavam pelo desprovimento de sensacionalismo tendencioso e emocional; amparava-se tão somente na verdade factual. Portanto, isenta de paixões ideológicas e partidárias.

     Mas, de fato, não acredito que ele tenha partido. Um profissional do seu quilate é imortal. Por isso, não ficaremos saudosos de ti, caríssimo e admirável jornalista. Fique sabendo que procuraremos preencher o vazio com a sua imagem e com a sua voz gravadas na lembrança. Na lembrança de toda a gente que ama, que cultiva o valor da verdade e torce pelo bem da nação brasileira.

     Foi-se quem não reproduzia a opinião dos donos das emissoras comprometidas com os interesses mercadológicos, políticos e eleitoreiros, mas com a voz independente da sua própria consciência. Um ser humano possuidor de um senso crítico opinativo de valor inigualável e cuja competência e caráter invisibilizavam os eventuais equívocos profissionais.

    Partiu sem despedidas, da mesma maneira com que exercia a sua profissão, ou seja, com a mesma liberdade e independência; foi-se. Partiu sem aviso prévio, de forma inesperada e silenciosa, como partiram as vítimas de Brumadinho e os promissores garotos do seu clube de coração.

   Talvez não soubesse ele que ainda tinha tanto por fazer na sua nobre missão de comunicar e viver.

    Seria tão bom se existisse uma linha direta com o céu, para que pudéssemos, pelo menos vez por outra, ouvi-lo no rádio do automóvel nas nossas manhãs mal iluminadas, antes de enfrentarmos o trabalho ou, quem sabe, na telinha da TV para que as nossas noites não ficassem tão vazias de coerência e verdade.

     Fato é que as manhãs nascerão mais silenciosas, as piadas do Macaco Simão serão menos engraçadas, as noites menos iluminadas nas imagens das telinhas e as páginas dos jornais estamparão o branco luto da sua última crônica.

 

    Jair Araújo - escritor

     Membro Correspondente da ALACIB - Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil, Mariana/MG.

     Membro efetivo da SBPA - Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas. 

Jolivaldo Freitas

Já parou para imaginar se durante o ano que passou, com tanta conflagração política, com os coxinhas e mortadelas se pegando nas ruas do país, com a esquerda e a direita se mordendo, com Lulistas e bolsonaristas se atracando, irmãos xingando irmão, pais cortando a palavra com os filhos e filhos com os pais, compadres e comadres se estranhando, velhas amizades se rompendo e amores eternos acabando em segundos, os brasileiros estivessem com seus direitos de uso de armas assegurados?

Pois, o decreto que facilita a posse de armas de fogo foi assinado. Cumpriu-se uma promessa de campanha feita para agradar a uma pequena parcela dos brasileiros e para amimar basicamente a chamada “Bancada da Bala” e dar um novo alento às duas únicas fábricas de armas do Brasil.

Mas, será que é bom mesmo para um país recheado de violência colocar arma na mão do povo? Sequer foi acatada a sugestões do ministro da Defesa e Segurança Sérgio Moro de criar maiores limites para a concessão do porte. Tem quem ache que flexibilizar também foi um intento do ministro Ônix Lorenzoni que sempre foi apoiado em sua carreira política pela indústria de armamentos.

Não se deu à mínima para os levantamentos que demonstram ter ocorrido em 2018 quase 64 mil assassinatos. Levantamento feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Foi muito tiro dado e o governo a quem cabe garantir a segurança do brasileiro não pode fazer nada e, com certeza, o novo administrador do país está colocado nas mãos do cidadão a tarefa de se proteger como for capaz. Mas é o estado que deveria fazer isso. Não está na Bíblia, nem no Shastra, Torá ou Alcorão, mas está em nossa Constituição.

De nada vale restrições como o cidadão ter no mínimo, vinte e cinco anos, idoneidade, não constar de inquérito policial ou processo criminal, ter residência certa e comprovar capacidade técnica para o manuseio da arma de fogo, sem falar nos psicotestes onde tem maluco que passa numa boa. A bandidagem não é burra. O ser humano se adapta, se adequa e sendo inventivo acha um jeito de ludibriar leis, cânones e regras. Vai ser mais fácil ter armas no meio da sociedade e estas irão cair nas mãos dos bandidos. Nem precisam mais vir do Paraguai. Há cerca de 20 anos meu irmão que era da Polícia Militar foi assassinado numa emboscada, não por ser PM nem em operação, mas porque os bandidos precisavam de uma arma para cometer assalto. Agora, sabendo a casa onde tem arma, será somente invadir, fazer reféns e pegar; e quem sabe matando seu proprietário.

Quem pensa que o lobby para colocar armas em mãos de todos os brasileiros é interno está enganado. Há quase duas décadas o Nation Rifle Association – NRA dos Estados Unidos vem defendendo seus associados e pressionando o Brasil para não impor limites, pois isso pode refletir em toda a América do Sul e acabar com o lucro dos apaniguados. Já as ações das empresas brasileiras de armas subiram mais de 400 por cento em um ano.

Fale verdade: se arma fosse algo bom para a defesa pessoal, o presidente Bolsonaro que foi capitão do Exército teria sido assaltado e os bandidos levado sua pistola? Imagine eu e você que já esquecemos até como se atira de badogue, estilingue, funda, atiradeira...

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