Sempre ouvi comentários sobre o esquecimento de personagens que marcaram época, gente do povo, artistas ou governantes que fizeram parte da cena cotidiana, na Bahia.


E pensava, por exemplo, na misteriosa Mulher de Roxo, a “dona da rua Chile”, cuja história povoava minha mente de criança: para onde ela ia, porque se vestia daquela maneira... 
A nossa terra teve tantas personalidades : quem, da minha geração, não lembra do Guarda Pelé, com seu gestual - quase uma dança - que atraía tanta gente para o cruzamento onde orientava o trânsito... do barraqueiro Juvenal, do major Cosme de Farias e de tantos locais como a boate Anjo Azul, o Pá da Baleia, a sorveteria Primavera com suas kombis amarelas...


São pessoas, coisas e lugares que se foram no turbilhão do crescimento da cidade que perdeu referências históricas, deslocando seu centro comercial para modernos edifícios e shoppings, onde as janelas envidraçadas refletem um movimento urbano crescente, preocupante. 
Quando assumi a presidência da Assembleia Legislativa, e aí se vão sete anos, entendi que, além de mediar os conflitos e o debate ideológico, além de ouvir os representantes do povo, aquela casa poderia fazer mais e se fortalecer institucionalmente, fomentando a cultura e contribuindo para a preservação da nossa memória.


Era preciso fazer alguma coisa para resgatar a nossa história mais recente, esquecida neste tempo de informação instantânea, quando celebridades midiáticas surgem a cada momento, enquanto baianos que contribuíram para a formação da nossa cultura eram lembranças cada vez mais remotas. Decidi incrementar a produção literária da Assembleia, ampliando seus horizontes através da criação de um novo selo voltado exclusivamente para a preservação da história de cidadãos identificados com a chamada baianidade, todos merecedores do respeito e da lembrança do nosso povo.


Com a coleção Gente da Bahia, 23 livros, assinados por autores diversos, com textos leves e biográficos, fazem justiça a personagens que marcaram a história, eu diria, contemporânea, do nosso estado. Gente como o artista plástico Carybé, o maestro Carlos Lacerda, o médico Aristides Maltez, o abade D. Timóteo... e a própria Mulher de Roxo. Lançamos há pouco tempo o volume sobre a trajetória de Chico Pinto, um dos mais carismáticos políticos que tivemos.


Já se vai muito tempo desde que eu, ainda estudante do Colégio Central, comia o pastel da Good Day Chinesa, na rua Carlos Gomes, ou o bolinho da Cubana, no Elevador Lacerda. Foram tempos bons, de uma cidade mais culta, sem violência, sem o corre-corre atual. Mas não adianta só lembrar, acho que o mais importante é registrar, na memória da atual e das futuras gerações, um pouco das coisas e das pessoas que fizeram história em nosso estado. 
 
* Marcelo Nilo   é presidente da Assembleia Legislativa da Bahia


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