Luiz Ferreira

No período da escravatura os negros que conseguiam fugir das fazendas, reuniam-se em lugares afastados nas florestas em agrupamentos ou comunidades chamadas quilombos. No Brasil desta época podemos citar alguns quilombos importantes, como: quilombos dos macacos, dos palmares, quilombo do Rio Vermelho, quilombo do Urubu, quilombo de Maragogipe, quilombo do Cabula dentre tantos outros. Nestes quilombos, por força da cultura trazida do continente Africano, nossos irmãos depois da libertação reuniam-se em comunidades nas cidades que passaram a chamar de candomblé. Candomblé é o nome genérico que se dá para todas as casas de candomblé independente da nação. A palavra candomblé a princípio era usada para designar qualquer festa dos africanos, de origem das línguas “bantu”.

Nas religiões afro-brasileiras, vários termos são usados para designar a iniciação, podemos comparar este feito ao batismo, como é chamado em outras religiões. Nos cultos afros são: A feitura, feitura de santo, raspar santo, são mais usados nos terreiros de candomblé, Candomblé de Caboclo, Cabula, Omoloko, Tambor de Mina, Xangô do Nordeste, Xambá, no Batuque usa-se o termo fazer a cabeça ou feitura. No Culto de Ifá e no Culto aos Egungun usam o termo iniciação, porém os preceitos são diferentes das outras religiões.

Nestas cerimônias, tem que haver o desprendimento total, na iniciação deve-se morrer para renascer com outro nome para uma nova vida, no candomblé Ketu o Orunkó do Orixá (só dito em público no dia do nome), no Candomblé bantu além do nome do Nkisi (jamais revelado), tem a dijína pelo qual será chamado o iniciado pelo resto da vida. Quando uma pessoa iniciada morre é feito o desligamento do Egum, Nvumbe na cerimônia fúnebre e no Axexê, conhecido pelos nomes de sirrum e zerim.

Nas experiências ricas das religiões afro-brasileiras podemos ver que existem as árvores sagradas que são as mesmas das religiões tradicionais africanas onde Orixás são cultuados pela comunidade como é o caso de Iroko, Apaoká, Akoko, e também os Orixás individuais de cada pessoa que é uma parte do Orixá em si e são a ligação da pessoa, iniciada com o Orixá divinizado.

Esta breve explanação sobre as religiões afro-brasileiras é no sentido de demonstrar a grandeza e a riqueza da cultura de um povo.  Acredito que só a ignorância e a prepotência de alguns é que pode subjugar todo este conhecimento, dando lugar ao preconceito e a descriminação.

Com relação à decisão do Juiz Eugenio Rosa de Araújo, da 17ª da Vara Federal no Rio, a respeito de ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal que pedia a retirada, do portal da internet Youtube, de vídeos considerados ofensivos à umbanda e ao candomblé. Na sua fundamentação o magistrado diz que: “As crenças afro-brasileiras não contêm os traços necessários de uma religião”, e conclui dizendo: “As características essenciais a uma religião seriam a existência de um texto base (como a Bíblia ou Alcorão), de uma estrutura hierárquica e de um Deus a ser venerado”.

No momento em que um magistrado assume a temeridade de demonstrar um juízo particular (de foro íntimo), sobre sua decisão acerca de um tema, corre o risco de também ser julgado. Neste caso em particular, na afirmativa do magistrado de que: “As crenças afro-brasileiras não contêm os traços necessários de uma religião”, deveria ele, salvo outro juízo, buscar junto às leituras sobre a matéria, um melhor embasamento, pois assim se o fizesse, certamente não iria concluir que “as características essenciais a uma religião seriam a existência de um texto base (como a Bíblia ou Alcorão), de uma estrutura hierárquica e de um Deus a ser venerado” (sic).

Confunde-se o magistrado no diserto do que é religião. Pressuponho que o nobre causídico referiu-se a ciência, e não a religião, já que a primeira precisa de um objeto de estudo para ser comprovada, e quanto as religiões, nos cultos africanos na essência da sua maior plenitude, além de possuir a crença em Deus, podemos dizer que democraticamente é respeitado, e porque não dizer, cultuado também os Orixás.

Ao se falar em culto, religião, crença, ou qualquer outro termo, sabemos que é um assunto polêmico e diverso, que só a verdadeira fé em Deus remete o indivíduo a comungar realmente como se todos fossemos irmãos, sem preconceitos, sem dogmas, sem precisar de Bíblia ou Alcorão para dar a razão aos seus individuais sentimentos. Disse Jesus: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”.

Finalizando, transcrevo (Mateus, VII: 1-2): “Não julgueis, pois, para não serdes julgados; porque com o juízo que julgardes os outros, sereis julgados; e com a medida com que medirdes, vos medirão também a vós.   

Luiz Ferreira Bacharel em Direito, Pós Graduado em Política e Estratégia.E-mail:    Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.Skype - lcfs_ferreirauniaoejustica.webnode.com.br 



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