Por Carla Liane N. dos Santos

Sempre é tempo de questionar as desigualdades sociais, lutar por direitos e reivindicar pela democracia conquistada à duras penas. A opressão e a subalternidade dos moradores de rua que afetam o direito a moradia do Brasil, a rede de prostituição e exploração sexual contra mulheres e contra crianças que se multiplica cotidianamente, a precarização das condições de vida e de trabalho dos vendedores ambulantes historicamente revelou a face perversa do capital afetando não somente o direito ao emprego, mas, por consequência à própria dignidade humana. As práticas racistas que assistimos entranhadas nas relações sociais nos informam o quanto ainda precisamos de civilidade e respeito às diferenças.

A perversão do capital não surge com a copa do mundo. Isso é superficialismo e artificialismo.  A violação de direitos e a ameaça ao ESTADO democrático batem a nossa porta todos os dias de inúmeras formas.O episódio da copa, assim como tantos outros eventos mundiais, são ocasiões que revelam a selvageria do capital e trazem a luz com lentes agigantadas tais desigualdades. 

O movimento anti-copa traz no seu bojo o risco da temporalidade das reivindicações, o esvaziamento de um debate politico acerca de um projeto de desenvolvimento para o país, assim como projeta consequências autofágicas para o sentimento e consciência coletiva de nação.

Não sejamos hipócritas!  Apesar de todas as assimetrias, sempre torcermos pelo Brasil em todas as copas do mundo, sempre vestimos a camisa verde e amarela e nos destacamos por nossa alegria, garra e por nossa avassaladora paixão pelo futebol.  Majoritariamente nos sentimos representados como uma das melhores seleções de futebol do mundo, se não a melhor, formadas por negros que levavam para o palco mundial a representação das verdadeiras cores do nosso país.

É certo que isso por si só não basta, queremos ter acesso aos estádios, acessibilidade, ter direito à cidade, queremos ser melhores em inclusão, em politicas reparatórias, em educação, em equidade e reconhecimento social. Essa é uma luta dos diversos movimentos sociais nos doze meses do ano, uma luta histórica que se reproduz por décadas e décadas. Por isso, não podemos cair na armadilha e no jogo da autodesclassificação temporária. Não precisamos dos megaeventos esportivos para mostrar o nosso potencial reinvidicativo.

Por que desde 2007 quando o Brasil foi escolhido como país-sede da Copa do Mundo- não hasteamos incessantemente as bandeiras da justiça e contestamos mundialmente a representação capitalista e imperialista da FIFA e por tabela de outros organismos mundiais a serviço da exploração e da desigualdades dos povos? Será que é isso mesmo que está em questão?

Vamos nos perguntar: a quem interessa um ataque ao patrimônio cultural, a autoestima e a imagem do nosso país? De forma tão contextualizada e pontual?

Temos uma herança de colonização do pensamento e subestimação da nossa capacidade crítica. Mais uma vez iremos nos permitir as manipulações politicas mediadas pela tecnologia interativa tendenciosa?

Não vamos negar o nosso país, torcer pelo seu fracasso, queremos construir a imagem de que lutamos pelo Brasil, vestindo a camisa dele e não a queimando, vamos às ruas de verde e amarelo, deixar o coração acelerar, torcer pela nossa seleção, pelo hexacampeonato, torcer pelo nosso BRASIL, torcer pela nossa vitória, como sempre fizemos, antes e também depois da copa!

Carla Liane N. dos Santos  - Drª em Ciências Sociais-UFBA, Profª Adjunta da Universidade do Estado da Bahia, Vice-Reitora da UNEB.


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