Por Marcos Mendes*

O processo de expulsão  do homem do campo, proporcionado pelo modelo industrial de produção e pelo estímulo à produção agrícola em larga escala, promoveu um inchaço dos grandes centros urbanos e a dispersão de comunidades inteiras outrora unidas por laços de parentesco e de amizade. Assim se formou a massa trabalhadora das metrópoles e os problemas decorrentes dessa expansão.

Nas metrópoles assim surgidas ninguém tinha raízes ou tradições, todos vinham de diferentes partes. Uma das formas mais fortes de busca de novos traços de identidade e de solidariedade coletiva, de novas bases emocionais de coesão que representasse o traço de união antes observado nas comunidades que cada pessoa deixou ao emigrar, foi o futebol. Assim, o futebol se prestou a consolidar vínculos de identidade plenos de carga afetiva, por ser um esporte de equipe, exigindo talentos diversos, mas que só funcionam se houver harmonia.

A prática não exige necessariamente um destaque físico, mas sim habilidade e uso malicioso dos movimentos, o que favorece a identificação com o torcedor. Além do mais não requer material esportivo específico, tudo podendo ser improvisado, do campo à bola, com um mínimo de custos e um máximo de emoção e divertimento. Assim, em cada bairro das grandes cidades podemos observar ao menos um campo de futebol improvisado.

Entretanto, foi no decorrer dos anos 80 que a lógica do “futebol-empresa” foi iniciada e fez aumentar a mercantilização dos principais campeonatos europeus, que passaram a se estruturar em virtude da demanda por transmissões televisionadas e pelo surgimento de novas opções de marketing esportivo. A globalização da economia, aliada a um ambiente político favorável para a transposição das fronteiras nacionais, conduziu o futebol a uma lógica de valorização do capital.

Ao se tornar uma lucrativa e promissora indústria de entretenimento passivo para multidões, o futebol passou a aglutinar poderosos interesses comerciais que logo lhe atribuíram sentidos muito distintos daqueles até então vigentes.

É justamente neste contexto que presenciamos a ascensão do futebol brasileiro. A partir dos anos 30 aos 50, de fato, a popularização do futebol acelerou-se de modo notável, efeito da profissionalização, mas, sobretudo, pela atuação de setores da intelectualidade e da imprensa, que o impulsionaram a se constituir num espetáculo de massa e num elemento da cultura popular.

Assim, apesar de recente pesquisa do DataFolha mostrar que maior que a torcida do Flamengo são as pessoas que dizem não ter time de coração: 25%, (o Flamengo tem 17% e o Corinthians 14%) podemos entender que há uma boa parte de brasileiros que gostam de futebol e torcem muito pelo Brasil! O grande problema, mais uma vez, são os denominados cartolas que, em nome de interesses individuais,  transforma o que se pode chamar de sonho coletivo em forma de obter lucro.

Para traçar um panorama do futebol brasileiro atual, podemos iniciar com a eleição de um brasileiro, João Havelange, para dirigir a FIFA (Federação Internacional de Futebol) em 1974. Essa eleição ocorreu antes mesmo da Copa da Alemanha, logo após a primeira Copa do Mundo transmitida para o mundo inteiro pela televisão, em 1970, no México, a qual o Brasil foi campeão pela terceira vez e um brasileiro, Pelé, foi considerado o maior gênio do futebol e o único jogador do planeta tricampeão mundial.

Quando Havelange assumiu se deu conta que o futebol já era um evento globalizado e, incorporando a visão do capitalismo selvagem, montou um pequeno grupo com empresas como Adidas e Coca-Cola, transformando a federação no império que é hoje. Para 2014, além da Adidas e Coca-Cola serão incluídas a Emirates, Hyundai, Sony e Visa. Não é à toa que Andrew Jennings denunciou, na imprensa francesa em 2006, que Horst Dassler, então presidente da Adidas França, apoiando Havelange, fez grande articulação distribuindo folhetos aos delegados indecisos e com capacidades de influenciar outros, fator fundamental na vitória de Havelange sobre o seu predecessor, o britânico Stanley.

Denunciou também que Dassler também persuadiu a Coca-Cola a financiar os projetos de campanha de Havelange. Em contrapartida o grupo norte-americano obteve o direito de exibir seu logotipo na Copa do Mundo. A partir daí diversas outras entidades de mesmo porte procurou participar. Paul Dietschy, historiador de Futebol, resumiu essa articulação como “um pacto faustiano com as multinacionais”. Pelo seu ato visionário de pressentir o formidável potencial econômico da televisão, o executivo da Adidas criou a empresa de marketing e gestão de direitos, International Sport and Leisure (ISL), em 1983, tornando-se o associado número um da FIFA, que lhe garantiu uma renda confortável.

Fundada em 1904, a FIFA obteve um rendimento de 147 milhões de Euros em 2009, aumentando o seu patrimônio para 795 milhões de Euros. Só em 2009 Joseph Blatter recebeu das mãos de seu sobrinho 487 milhões de euros a título de direitos de difusão, sendo 469 milhões de euros para Copa de 2010, ou seja, 60% do rendimento da FIFA (Relatório Financeiro da FIFA 2009). De Havelange para cá a FIFA tem se envolvido em várias denúncias de corrupção, saindo ilesa porque o futebol tem um insuperável poder de sedução, é a maior das indústrias de entretenimento, e o esporte em si é uma das instituições mais favoráveis à lavagem de dinheiro devido a sua subjetividade. De acordo com a divulgação em 2007, de Jérome Jessel e Patrick Mendelevitch, especula-se que o presidente atual, Joseph Blatter, ganha em torno de 4 milhões de dólares por ano.

É importante salientar que esse modelo montado pela FIFA é reproduzido com muita propriedade pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) através do seu eterno presidente, Ricardo Teixeira, indiciado em vários processos por corrupção. Com o fim de investigar esses indícios, já se tentou realizar diversas CPI’s – Comissão Parlamentar de Inquérito. O fato é que quando alguém consegue, como se fez no ano de 2000, o lobby dos deputados beneficiados impede dizendo que a CBF é uma entidade privada. O mais intrigante é que quando a seleção entra em campo é o hino do Brasil ou o da CBF que toca? E as cores do padrão coincidentemente também não são as cores da nossa bandeira? Ou seja, quando interessa a CBF é patrimônio do país, mas quando não interessa é considerada entidade privada!

O império da FIFA e da CBF é tão poderoso que já está havendo uma discussão no Brasil sobre cedermos a nossa soberania para elas. Para se ter uma idéia do poderio da FIFA, podemos citar o exemplo da Copa da Alemanha em 2006. Na terra da cerveja a FIFA impôs que somente a cerveja americana Budweiser poderia ser vendida nos estádios. Parece brincadeira, mas foi o que aconteceu, para desespero dos alemães.

Para nos dar suporte podemos analisar dois exemplos clássicos: a Espanha, país que privilegiou o planejamento, depois da Copa, em 2002, e da olimpíada, em 2012, se transformou num país moderno e não mais a porta dos fundos da Europa, demonstrando a importância do planejamento. Por outro lado, o que se fez com a Grécia, nas olimpíadas de Atenas, em 2004, tem relações diretas com a crise econômica atual. O legado deixado para o povo após a Copa na África do Sul, apesar das tentativas cosméticas de esconder a realidade, foi um país com obras inacabadas, verdadeiros elefantes brancos , taxa de desemprego altíssima, com o fim dos empregos temporários, e um endividamento gigantesco do país para os próximos 40 anos.

No Brasil de 2014, com as carências que temos, precisamos nos preocupar com investimento em saúde pública, educação pública, esporte, cultura, lazer, habitação popular, reforma agrária, preservação do meio ambiente, transportes coletivos públicos de massa a base de energia limpa, ciclovias, entre outros. Porém, pelas medidas iniciais, as projeções futuras apontam para previsões bem desanimadoras.

Analisando o caso da Vila Olímpica da Bahia, conhecida como Fonte Nova, e o Ginásio Poliesportivo Antonio Balbino, conhecido como Balbininho, palcos de indescritíveis emoções vividas por todos nós, percebemos que a fúria dos interesses privados das construtoras do mercado imobiliário alinhada aos desvios éticos dos nossos gestores municipal e estadual, serão responsáveis por crimes socioambientais e contra o patrimônio histórico irrecuperáveis no município de Salvador, uma das capitais que irá sediar a Copa 2014.

Recentemente foi encaminhada, pelo Governo do Estado, a Proposta de Manifestação de Interesse (PMI) com o enfoque na sustentabilidade econômica, ambiental e legal. Desde já, podemos notar que o enfoque social foi esquecido. A opção imposta foi a da Parceria Público-Privada (PPP). A FIFA encaminhou, então, empresas internacionais que lhes prestam serviços de auditoria e consultoria empresarial e que, estranhamente, participaram da PMI. Um exemplo foi a Ernestian, que participou da Copa da Alemanha em 2006, e a outra é a KPMG que está no Brasil e participou da PMI de Salvador.

O que está por trás disso é a imposição do modelo de estádio, ou seja, uma Arena exclusiva de futebol. E por que isso? A intenção é aproximar mais as arquibancadas do campo para favorecer as filmagens e, consequentemente, as transmissões televisivas. E para que? Para beneficiar os empresários e cartolas ligados a FIFA. E como é que se faz? Um bom exemplo é a empresa de Marketing do empresário da Adidas Dassler, a ISL: ela compra os direitos de transmissão diretamente na FIFA e vende a preço de ouro às cadeias de televisão. Um acordo que traz ganhos somente para os acionistas da Adidas e para um grupo seleto da federação, simples assim. Para se ter uma idéia de valor, a FIFA ganha em torno de 4 a 6 bilhões de dólares numa Copa.

Todo o esquema já vem traçado e aí é que se deveria considerar a soberania do país e do estado. É nesse momento que os Gestores do País e do estado deveriam demonstrar de que lado estão. No caso da Bahia o Governo, da mesma forma como se posicionou em seus três anos e sete meses de gestão pública, optou pelos empresários em detrimento da população e mais uma vez o Consórcio OAS/ODEBRECHT foi beneficiado. Será mera coincidência eles serem os principais financiadores do governo passado e do atual governo?

Mais uma vez, no caso da Fonte Nova podemos identificar três graves problemas:

  •   o primeiro diz respeito ao patrimônio imaterial, ou tombamento. Sabe-se que em 1959 o Dique do Tororó acompanhado de todo arcabouço arquitetônico do entorno foram transformados em patrimônio imaterial do estado da Bahia. Como a Fonte Nova foi construída em 1951 e o Balbininho em 1959, antes do tombamento, ambos também estão tombados. Essa é a avaliação da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), seção Bahia e da DOCOMOMO que é uma organização não-governamental, sem fins lucrativos, fundada em 1988 na Holanda, com representação em mais de quarenta países, cujos objetivos são a documentação e a preservação das criações do Movimento Moderno na arquitetura, urbanismo e manifestações afins. O IPHAN, seção Bahia, omitiu-se e não se manifestou até o momento, com  parecer a respeito, permitindo assim o avanço da irregularidade;
  •   o segundo é que o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público Estadual (MPE) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE) apontaram 11 irregularidades no contrato de PPP – Parceria Público-Privada. Uma delas é que de acordo com a Lei de PPP o concessionário veda que o governo tome empréstimo e repasse para as empresas antes do término das obras. O fato é que o governo solicitou  empréstimo ao BNDES no valor de R$ 400 milhões oferecendo como garantia o Fundo de Participação do Estado (FPE) e R$ 50 milhões ao Desenbahia. Como o valor orçado da obra é de R$ 591 milhões, o Consórcio OAS/ODEBRECHT desembolsaria só R$ 151 milhões. Além disso, de acordo com o contrato, o governo baiano, após a construção, terá de arcar com o valor de R$ 107 milhões anuais por 15 anos, num total de R$ 1,6 bilhões, quase 3 vezes o valor orçado.

Além disso, o Consórcio ganha o direito de explorar a Arena por 35 anos. Ocorre que, pelo contrato, caso não seja obtido lucro anual de R$ 23 milhões está previsto o ressarcimento, pelo Estado, de 50% desse valor, ou seja, R$ 11,5 milhões durante 35 anos, num total de R$ 402,5 milhões.

Como o próprio BNDES já divulgou que o único estádio do Brasil que se sustenta é o Mineirão, é certo o Estado da Bahia pagar a multa, ou seja, o Consórcio que administrará o empreendimento participa de uma PPP sem nenhum risco que é a razão de ser da parceria e ainda tem um lucro absurdo.

O pior é que não foram apresentados nem pela concessionária nem pelo governo, os cálculos que resultaram nesse valor. Isso está cheirando acordinho espúrio escancarado em cima das eleições, que tanto o atual governador tem interesse.

Vale salientar que essa proposta de Arena exclusiva para futebol só os empresários e cartolas da FIFA lucram, enquanto que uma parcela da sociedade ficará exposta ao caminho do crime. De acordo com a Organização Mundial de Saúde para cada 1 dólar investido em esporte poupa-se 3 dólares na saúde pública. Só na área da piscina freqüentavam, aproximadamente, 1.300 pessoas por semana: crianças carentes, idosos, atletas profissionais e amadores, polícia militar e exército;

  •   o terceiro problema, entendemos ser o mais sério, é que outras empresas deram propostas alternativas. Uma delas propõe a recuperação e revitalização da Fonte Nova, respeitando o tombamento, aproveitando todas as colunas verticais, que são as mais onerosas e estão em perfeito estado. O estudo da empresa diz também que várias estruturas horizontais podem ser aproveitadas. Na proposta se preservaria o centro olímpico com uma inovação tipo sandwich: uma piscina olímpica em baixo; um centro aquático no meio com mais duas piscinas, sendo uma para saltos ornamentais e outra para treinamento de crianças, idosos, deficientes, com prática de hidroginástica. Na parte de cima ficaria o ginásio poliesportivo multiuso. No entorno teriam estações de ônibus, shoppings centers, praças elevadas interligando Nazaré a brotas, etc. O valor total seria de R$ 470 milhões, sem empréstimos tomados pelo governo e sem nenhum aporte financeiro do Estado por 15 anos, nem multa por não atingir lucro inventado, ou seja, a única contrapartida seria a concessão por 28 anos.

O jornal A Tarde, em sua edição deste sábado (17), trouxe uma denúncia que mostra que as seguidas dispensas de licitação por parte do governo do Estado continuam a gerar polêmica. Desta vez, o alvo foi a Fonte Nova. O Ministério Público Federal (MPF) pediu cópia do contrato com ausência de processo licitatório de R$ 1,2 milhão, entre a Secretaria Estadual do Trabalho e Esportes (Setre) e duas empresas de engenharia, para serviços de fiscalização na obra de demolição do estádio. A procuradora da República Juliana Moraes quer analisar a justificativa legal da Setre para a dispensa da licitação, por via emergencial. A profissional quer saber por que o edital de licitação para fiscalização das obras não foi lançado junto com o edital do projeto, em outubro de 2009.

Enfim, não podemos esquecer que a Copa só são 45 dias e que depois a vida continua e as pessoas também. A inclusão social e a prática de esporte cultura e lazer têm que estar no planejamento do governo. Não podemos esquecer-nos do Pan-Americano, em 2007, que custou dez vezes mais do que estava orçado e que foi feito com dinheiro público quando deveria ser feito pela iniciativa privada. Vocês sabiam que o estádio Engenhão, recentemente construído, não servirá para a copa e que o parque aquático Maria Lenk não é adequado às Olimpíadas? Então para que se construir algo novo quando é bem mais interessante recuperar o que já estar construído? Vale a reflexão! Não podemos deixar que aspectos fundamentais dos estados dos países sedes sejam pisoteados pelos interesses comerciais da FIFA e pelos descaminhos e acordos ilegais dos nossos governantes.

*Marcos Mendes é Geólogo, Especialista em Gestão Pública Municipal e Governamental, Especialista em Meio Ambiente, Mestre em Geologia Ambiental e Candidato ao Governo do Estado da Bahia pelo PSOL.



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