Com frequência regular recordo da minha infância! Época em que sequer se cogitava existir a informática, o milagre da tecnologia. Ficávamos brincando de cabra-cega, triscou pegou, cabana, boca-de-forno, carrinhos de rolimã, enquanto as meninas preferiam as cantigas de roda, a amarelinha e o baleado. Os adultos, quando não estavam ouvindo através do rádio o Repórter Esso ou as novelas, ficavam sentados à porta das casas proseando com os vizinhos. Realmente, era um tempo diferente. As pessoas trocavam ideias, opiniões, experiências e, até mesmo, uma vez por outra, uma “inocente” fofoquinha.

     As lâmpadas incandescentes mal iluminavam as ruas, oscilavam nos espaçados postes de madeira roliça. A penumbra era convidativa para as histórias de mulas sem cabeça, das caiporas e do homem do saco; contadas com rebuscadas encenações para impressionar os espectadores e deixá-los com o temor de dar de cara com alguma visagem na escuridão.  Visões nascidas das labaredas das velas acesas nos nichos que, ao iluminar os santos de devoções das nossas mães e avós, produziam sombras fantasmagóricas que bailavam atônitas nos tetos e nas paredes do quarto de dormir.

     Quantas histórias eu contei e quantas ouvi?...

     Recordo-me do dia quando o meu pai leu na Gazeta a notícia de que as ruas iam ser iluminadas por lâmpadas a vapor de mercúrio e ele então dizia: - Que maravilha! A noite vai virar dia.

     Naquela época, o único mercúrio que eu conhecia era o mercúrio cromo, e ficava a imaginar como um remédio poderia ser utilizado para iluminar as ruas.

     Então, chegou aquela novidade de luz que deixava tudo claro como a manhã, mas que contrariava o romantismo dos namorados apaixonados que perderam a convidativa privacidade da luz do luar. As crianças logo começaram a achar aquele clarão maravilhoso. Podiam até jogar um baba ou bolas de gude à noite, mas brincar de esconde-esconde, de assustar as pessoas ou de contar histórias de terror, perdeu a graça. Não tardou a perceberem que a intensa luminosidade era uma coisa chata.

     Como num passe de mágica, eis que surge a televisão, atraindo a todos para dentro das suas casas ou para as casas dos vizinhos, para assistirem, como se dizia à época, - o televizinho. A televisão chegou e com ela o silêncio e o isolamento das pessoas.

     Havia os que diziam que o mundo mudou tanto que nunca mais seria o mesmo. Mas o mundo continuou mudando, se renovando sem parar... 

     O desenvolvimento tecnológico é algo realmente excepcional. Isso quando olhado sob o prisma do seu objetivo não ser outro, senão o de propiciar o conforto, o bem-estar e o ganho de tempo para execução de tarefas mais importantes e mais úteis.  Entretanto e apesar disso, a tecnologia traz também as suas inevitáveis consequências: o extremado comodismo, o desvairado consumismo, a disseminação em massa de informações e o seu impressionante poder de persuasão – sejam com verdades ou mentiras – contribuindo para as repentinas mudanças dos hábitos de vida e de crenças, inclusive.

     Com o tempo começaram a surgir queixas relacionadas ao poder de influência exercido por esses aparelhos nos hábitos das pessoas e, consequentemente, das famílias. Acusavam-na e ainda a acusam, de incutirem valores distorcidos na cabeça de todos, notadamente na das crianças. Mas, inventaram os computadores e, com eles, a Internet e as redes sociais.  Assim, atualmente, a responsabilidade tem recaído também nesses danados inovadores sistemas de comunicação.

     Certo é que os hábitos, os valores e objetivos das pessoas mudaram. O tempo também mudou. Acelerou-se de tal maneira que, para o homem moderno, o tempo está ficando mais diminuto a cada dia. Tudo ficou mais lépido, tão rápido que até as palavras encurtaram. A escrita se transformou em hieróglifos e a gramática perdeu a importância. Neste contexto, o que em última instância fica mesmo valendo é o ato de poder se fazer entender, mesmo sendo numa linguagem codificada, quase cifrada a qual se pode denominar de ‘o português da linguagem virtual’. Surgiu um novo dialeto. Simples assim!

     Essas máquinas e os seus novos softwares de comunicação em tempo real tiraram o prazer de se escrever uma boa carta com primorosa caligrafia e aguardar com ansiedade a chegada do carteiro na semana ou no mês seguinte.

     Quem sabe não aconteça, num futuro próximo, o fato das canetas e dos lápis somente serem vistos como peças de museus?

      Estudiosos dão conta de que as pessoas estão perdendo a capacidade de saber esperar. O imediatismo, a impaciência, a inquietude e o mal da ansiedade vêm dominando o comportamento humano. Ultimamente, considera-se deselegante e até falta de educação as pessoas não responderem as mensagens em, pelo menos, vinte minutos após o seu envio. 

     As crianças, então, viraram reféns dos jogos de videogames e agora das mensagens no WhatsApp.  Não experimentam a alegria de brincarem na chuva nem de se enlamearem nas poças das ruas de terra. Não mais respiram o ar puro dos pomares. Não sabem subir em árvores para, nos galhos, saborearem os frutos dos quintais alheios. Não contemplam a beleza do céu estrelado numa noite sem lua. Vivem encafuadas nos seus quartos e se comportam como verdadeiros androides. Pedagogos e psicólogos afirmam que tem sido a causa dos sintomas de estresse, depressão, dificuldade de sociabilização e obesidade. Culpa dos pais?

     Não restam dúvidas de que o ser humano está penetrando no mundo do isolacionismo social. Tais tecnologias favorecem o processo do estabelecimento das relações apenas no plano virtual e, como consequência, conduzindo as pessoas ao individualismo e ao enfraquecimento dos laços de amizade. Os atuais relacionamentos estão longe de preencherem o vazio da presença física, do contato pessoal, do abraço afetuoso, da troca de energia. Amizades são feitas e desfeitas de forma virtual numa rapidez que impressiona. Não temos mais tempo para que seja de outra forma. A roda da vida moderna nos consome!

     Hoje, as pessoas, principalmente as mais jovens, até quando estão próximas, continuam distantes e solitárias. Preferem isolar-se na interatividade dos jogos eletrônicos ou entre as muralhas do WhatsApp e do Facebook para curtirem as suas amizades virtuais, ao invés de interagir com quem está ao lado.  

      É regra do ser humano dar destinação oposta ao que deveria ser empregado apenas para o bem comum.  Isso é o que vem acontecendo com os tais sistemas de comunicação virtual, cuja utilização tem sido subvertida. Mensagens distorcidas, difamações e boatos são veiculados com o objetivo de atingir desafetos, bem como, para obtenção de poderes políticos e econômicos.

     Fato é que devemos nos adaptar às mudanças introduzidas no ambiente por meio dos avanços tecnológicos sem, contudo, deixar de oferecer resistência quanto ao seu mau uso.  É absurdo culparem os avanços tecnológicos pelos males causados a esta geração. Seria o mesmo que culpar o avião pela destruição de Nagasaki e Hiroshima.

       O responsável pelo desequilíbrio sociocomportamental é, sem dúvida, a natureza do próprio homem que, por se permitir contaminar pelas más influências, usa as invenções para a prática do mal. Nestes novos tempos, o comportamento das pessoas mudou em demasia e, inevitavelmente, continuará mudando sem que ninguém saiba aonde tudo irá desaguar.     

       Consolemo-nos, pois existe a possibilidade de que os sentimentos românticos e saudosistas, cultivados pelos idosos em relação às suas infâncias, também atingirão os jovens de hoje no futuro; quando a cibernética já terá ultrapassado o limite do inimaginável.

        É, foi-se o tempo das brincadeiras nas ruas! Mas, ainda que tenhamos saudade do passado, não devemos a ele nos apegar. O passado é o presente que ficou para trás, num tempo em que não havia lugar para a melancolia nem a solidão. Um tempo de alegrias, em que as amizades envelheciam e jamais pereciam!

    Jair Araújo - escritor

     Membro Correspondente da ALACIB - Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil, Mariana/MG.

     Membro efetivo da SBPA - Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas. 



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