Eu sei que o romantismo que permeia a nossa fé não nos permite conceber a ideia de que Jesus tenha sido ou vivido como uma criança qualquer. Não, não pode ter sido; ele era Deus, pensamos. E a igreja católica, ao longo dos séculos, pelos documentos conciliares, no pincel dos seus artistas, colocou-lhe logo uma auréola sobre a cabeça e aura permanente do sobrenatural. Em verdade em verdade vos digo que não foi assim. A concepção foi sobrenatural, pois Maria não teve contato físico com um homem, para gerar de um modo natural. Mas a gestação transcorreu como transcorre a de uma criança qualquer. Foram nove meses no ventre de sua mãe. De um embrião minúsculo, o menino foi se formando e se desenvolvendo como você e eu, sendo alimentado no ventre por cordão umbilical e tudo, exatamente como aconteceu conosco. Tendo atingido a maturidade necessária para sair do conforto (já nem tanto) uterino, Maria sentiu desconfortos, dores, contrações, e veio ao mundo um menino. Posso assegurar-lhe que tinha aquela carinha feinha, enrugadinha, de olhinhos semifechados, como qualquer recém-nascido de parto natural. O seu choro inicial  ué ué ué ué... Não era profecia, era choro de bebê. Pode acreditar, ele fez pipi e tudo mais, como qualquer outra criança; buscou desesperado o peito de sua mãe, e fez barulhinho nham nham nham, de quem está sendo saciado, como fizemos. Talvez você não imagine, ou até nem acredite, mas Jesus nasceu sem dentes, e levou meses para que eles fossem saindo; igualzinho como aconteceu comigo. Pode ficar certo também, Jesus balbuciou – talvez gu gu dá dá, e fez bezourinho com os lábios, se babando todo, como tantos bebês que estão hoje entre nós. Ele ensaiou as primeiras palavras, com dificuldade de articulação, falando errado, e era tão bonitinho... Maria e José devem ter se divertido muito nessa fase, como qualquer um de nós. O menino crescia e se fortalecia a cada dia, aprendendo e falando o grego coinê de seus pais; comeu a comida simples que eles lhe podiam oferecer; viu seus irmãos e irmãs nascerem, numa família simples e esforçada, na cidade de Nazaré, dominada pelas forças de Roma; como o mais velho dos irmãos, ajudou o seu pai no ofício de carpinteiro, mexendo em madeira, pregos, e ferramentas; cresceu ouvindo em casa e na vizinhança, e sentindo na pele os efeitos de ser um judeu comum sob a malvada dominação romana. Como um garoto crente, obediente, como descreve a Palavra, em tudo foi submisso aos seus pais terrenos, mas deve ter corrido naquelas ruas empoeiradas com seus primos, em inocentes peraltices, coisas próprias de menino, coisas santas que nós adultos não aceitamos. Sabe o que isso tudo significa: Encarnação. De fato, Deus se encarnou; tornou-se um de nós; homem de verdade. Sentiu tudo o que sentimos, nos mínimos detalhes, mas não pecou. Hoje, ressurreto e glorificado, junto ao trono do Pai, Ele, Jesus, intercede por mim, por nós. Ele deve dizer ao Eterno: Meu Pai, eu sei o que é isso que eles estão passando; passei por isso... E advoga a nossa causa. Bendito Jesus; bendito menino Jesus, a quem celebramos, hoje e para sempre. Amém...                                    

Itamar Bezerra

Teólogo, escritor, poeta e compositor

Autor de vários livros evangélicos, crônicas, prosas e contos; cantor com CD’s gravados com músicas autorais, e fotógrafo.



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