Bem sabemos que, assim como as horas, os dias, os meses e os anos, tudo, como a própria vida, é inevitavelmente passageiro.

     Mas, também sabemos que tudo que passa deixa indeléveis marcas. Algumas teimam em atormentar a nossa existência como os fantasmas que perseguem as crianças em suas fantasias ou então, ficam guardadas e adormecidas em nossa memória como os registros fósseis que fixam o passado na linha do tempo.

     Certas marcas decorrem de acontecimentos absolutamente irrelevantes e, por isso, nos deixam cicatrizes superficiais, estética e psicologicamente suportáveis, quase imperceptíveis. Outras, no entanto, são tão profundas que ficam impregnadas n'alma como se fossem feridas a ferro e fogo. Uma das dores mais doridas é a dor da definitiva partida de alguém por quem nutrimos doce e puro afeto. A partida resultante da morte é dura. Entretanto, por ser naturalmente irremediável, esforçamo-nos para superá-la.

     Empenhemo-nos, pois, para evitar uma dor bem maior que a causada pela definitiva e inevitável despedida, que é a separação ocasionada pelas circunstâncias remediáveis da vida. Ou seja, quando nos dispersamos, como a cânfora que se vaporiza no ar, conduzidos voluntariamente ou não, pelos destinos que traçamos, ou pelos obscuros e inexplicáveis casuísmos, sem nos darmos conta de que estávamos nos afastando daqueles com quem um dia convivemos, partilhando bons momentos e adquirindo experiências.

    Verdade que, sempre haverá de existir, em nosso íntimo, uma inconcebível explicação para o que motivou, ou ainda motiva a separação: tenha sido a luta pela sobrevivência que nos tomou de roldão, os novos encontros e envolvimentos que nos despertaram efêmeras emoções, ou, talvez uma irrefletida palavra mal dita ou mal interpretada.

     Quem sabe ainda, a explicação mais plausível não gravite no plano da metafísica, de o destino nos ter reservado a oportunidade de compartilharmos, tão somente, um trecho do caminho, a fim de que pudéssemos trocar experiências e aprendermos algumas lições. E, assim sendo, depois de cumpridas as recíprocas missões, nenhum sentido nos restaria, senão, seguirmos a trilha da vida em outras companhias, sempre receptivos a novos aprendizados.

     Enquanto a juventude nos conduziu a novas conquistas e inusitadas experiências, induzindo-nos a adormecer nossas preciosas amizades, o encanecer dos cabelos nos chega despertando vívidas recordações e reclamando reencontros e reconciliações que durante muito tempo relegamos.

     Aproveitemos então, o que nos resta de vida para que possamos dissipar as caprichosas nuvens que teimam em empanar as nossas histórias de amizades. Mesmo que, após tanto tempo de separação, consideremos não ser possível preencher o hiato que construímos, podemos nos esforçar para que o tempo, senhor da razão, não passe em vão desbotando definitiva e irrecuperavelmente o nosso passado de convivência tão fraterna.

     Os inexplicáveis afastamentos aguçam a nossa curiosidade para querer saber a razão e qual a nossa efetiva contribuição para o fato de nos tornarmos absolutamente invisíveis e quiçá, esquecidos.

     Não restam dúvidas de que é possível, com a força dos sentimentos que permearam as verdadeiras amizades nos tempos idos, nos estimularmos no sentido de construirmos uma ponte, e atravessá-la, com o propósito de nos reencontrarmos, na tentativa de não permitir que as velhas amizades sejam lembradas como indecifráveis fotos em preto e branco esmaecidas pelo tempo.

     Entretanto, ainda que a razão nos convoque a avaliar o fato de que, diante do tanto de anos de desconhecido paradeiro, não seja mais possível sermos os mesmos amigos de antes, em função das mudanças e das diferenças que a vida nos impôs que, pelo menos, conduzidos pelos sentimentos que cultivamos e guardamos em nossos corações, possamos nos permitir a uma despedida digna daqueles velhos e fraternos companheiros, que após longa e silenciosa jornada decidiram embarcar em diferentes portos para alcançar novas e diferentes conquistas.

     Deixemos, pois, para a insensatez da morte o privilégio de surpreender a vida sem permitir despedidas.

Jair Araújo - escritor

Membro Correspondente da ALACIB - Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil, Mariana/MG.

Membro efetivo da SBPA - Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas.


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