Recentemente, completei meio século e quatro anos de vida; parei para pensar numas coisinhas. Se Deus for servido me conceder mais tempo para viver, completarei mais uma semana, mais um mês, mais um ano... Assim mesmo de um em um... Inda bem, não é? Já pensou se fosse de cinco em cinco, ou de dez em dez? E mais, como diz um amigo meu, daqui a 100 anos, se Deus quiser, completarei cento e cinquenta e dois... Imagine... Mas, brincadeiras à parte, pensei em algo sério e importante. Na manhã do dia exato do meu natalício, ao acordar, fui ao banheiro assear-me e fiquei alguns minutos olhando para a minha imagem refletida no espelho e não me reconheci. Numa viagem rápida por dentro de mim, voltei veloz no tempo e enxerguei num segundo plano o meu rosto jovem e liso, cabelos pretos e um ar vigoroso inexplicável. Numa nova piscadela vi um senhor grisalho de semblante cansado, vencido pelo tempo. Sim, cabelos brancos, pele opaca, olhos cansados, uma acabação... Mas olhei direito dentro dos meus próprios olhos e me vi também lá dentro. Reconheci que o eu que em mim habita não é o mesmo que o mundo vê. Os meus amigos antigos me viram menino, rapaz, e virei homem. Hoje você me conhece como um coroa, e daqui a algum tempo, como um vovoquinho frágil que reiniciou o processo de infantilização. Do lado de fora é assim com todos nós; a beleza viçosa dos primeiros dias dará lugar à decrepitude. Mas do lado de dentro, não. Se eu me submeter a uma cirurgia plástica radical e mudar toda a minha aparência corporal, ainda mais drástica que a do Michael Jackson, e virar loiro de olhos azuis, ainda assim, dentro de mim serei eu mesmo, com minhas memórias e todos os traços de personalidade desenhados em minha cadeia genética. A alma não tem músculos, nervos e carne que definhem; a alma é imortal. Diferentemente do corpo, que segue um ciclo progressivo (ou regressivo) inexorável, a alma não tem idade; pode ser eternamente jovem, ou permanentemente velha e rabugenta. E isso é mesmo verdade... Na minha mente e coração sinto-me um rapaz, aquele mesmo jovem dos primeiros dias; nunca vi diferença, nunca senti cansaço, não há rugas ou limites... Entro em campo para brincar com os jovens e me sinto lépido como qualquer um deles, mas as pernas e os músculos do meu eu exterior zombam de mim e não fazem o que penso e quero. É assim mesmo, a alma não tem idade. Vez em quando sou surpreendido interiormente com uma lucidez e uma maturidade como se já tivesse vivido mais de cem anos. Outras vezes sou uma criança, moleque mesmo, daqueles de shortinho e suspensório, brincalhão, irresponsável, inocente-palhaço-feliz, e me descolo bastante do homem exterior com sua compleição madura-legal-chata. É por isso que encontramos tantos jovens velhos, e tantos velhos jovens; corpos sarados de alma abatida e frágil, e corpos murchos pelo tempo, que abrigam almas vivas e púberes. A tendência natural das coisas, no entanto, é o sistema ir fazendo com que a alma acompanhe a idade do corpo, e a pessoa vai de fato morrendo aos poucos. Decidi transgredir essa lei. Vou ficar atento ao tempo, e curtir o moço que me inquilina.                                       

Itamar Bezerra

Teólogo, escritor, poeta e compositor

Autor de vários livros evangélicos, crônicas, prosas e contos; cantor com CD’s gravados com músicas autorais, e fotógrafo.


banner adv

Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player