Todos temos pelo menos um amigo, ainda que seja um cão, um garrote, uma barata. Alguns têm amigos, e podem eleger ‘o melhor’ dentre eles. Aos que creem, em um plano superior, Deus é o melhor de todos os amigos; o onipresente, aquele que está full time com o indivíduo, não importa aonde ele vá ou esteja; o onisciente, que sabe de todas as coisas, inclusive o que se passa no interior mais profundo da alma do seu chegado, antes mesmo que ele traga à luz o que pensou; o onipotente, o amigo que socorre, que ajuda, que protege, que nunca falha. Sem dúvida, com um perfil desses, o melhor amigo. Acho que tenho esse privilégio. Mas num plano terreno, na esfera histórico-existencial, tomando por base esse perfil aí traçado, só há um que pode se encaixar no posto: Eu mesmo. O meu Eu interior é o meu melhor amigo. O que não me deixa momento algum, nem mesmo quando durmo. O que sabe de todos os meus segredos, sem exceção. O que de fato faz o que for possível para promover o meu bem – às vezes é quem me lasca. Mas, enfim, sem dúvida também, aqui embaixo, eu sempre fui o meu melhor amigo. E que amigo. Eu o vi – ou ele me viu – criancinha, e acompanhei o seu crescimento, todos os dias e todas as horas; estive com ele nas situações em que chorou, e vibrei com ele quando conquistou. Opinei determinantemente na maioria das suas decisões; sofri por suas desilusões, orgulhei-me de suas façanhas. Aos poucos e sistematicamente fui ajudando a forjar sua personalidade e moldar o seu caráter, fazendo-o identificar entre erros e acertos o melhor caminho a seguir. Nessa sinergia mística, entre a genética e a subjetividade da alma, entre o ‘eu’ que eu via e o ente por esse formatado, a amalgama perfeita de uma construção incrível. Na sobra possível do que se conflitava, entre o meu eu anjo e o meu estado bruto; entre o ‘médico e o monstro’, o louco e o iluminado, o santo e o pecador, forjei ou fui forjado no poeta, o músico, o profeta, o queridinho, o tal. E no altar das vaidades, celebrei o meu próprio culto em honra aos méritos desse amigo, sem observar o óbvio de que os pés eram de barro. E no lagar da tolice afoguei o meu melhor amigo. Matei e sepultei aquele a quem idolatrei, construído à minha imagem e semelhança. Hoje, por entre escombros, cacos e rescaldos, lentamente e combalido, se ergue um ser nu, despojado e só, diante do espelho: Eu, somente eu mesmo.

Itamar Bezerra.


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