Tenho recebido, às enxurradas, através de e-mail e das redes sociais, textos que falam sobre fatos acontecidos no dia a dia, relativos à política e às mudanças de costumes e valores no contexto social, muitos deles repercutidos também por diversos canais de televisão, fechados e abertos.
Não faz muito tempo, li uma crônica bem-humorada, atribuída ao Veríssimo sobre o Big Brother Brasil. Não acreditei que tal texto tivesse sido da autoria do ilustre escritor. Penso que o célebre pensador seria capaz de se acomodar em uma poltrona para ler um livro ou ouvir uma boa música, jamais para assistir ao lixo oferecido aos telespectadores pela maioria das emissoras de televisão do país.
Não assisti o programa. Apenas acompanhei no noticiário e soube do rebuliço resultante do suposto estupro transmitido ao vivo, de maneira inédita, pela televisão e Internet brasileiras. Entretanto, testemunhei a repercussão do fato, através de algumas mensagens que me foram encaminhadas e pela escuta dos comentários que ocorreram nas filas, nos pontos de ônibus e nos transportes coletivos.
Assim, constatei que nossa gente era “bem informada”, visto que o assunto também foi alvo de análises, discussões e opiniões em ambientes mais seletos. Em tais locais, também havia espaço para calorosos comentários sobre outros assuntos, tais como: o resultado do jogo de futebol ocorrido no dia anterior e os “famosos” shows que rolaram no final de semana, a maioria deles com repertório recheado por composições de duplo sentido nas quais as mulheres são citadas como objetos descartáveis e de fácil consumo.
Diante dessa realidade, me debrucei sobre o teclado, apenas para manifestar democraticamente a minha opinião, inspirado pelos comentários populares, estimulados estes a partir das atrações apresentadas nas grandes redes televisivas, destacando-se os reality shows, as telenovelas e os noticiários sensacionalistas. Todas elas, inegavelmente, indutoras de mudanças nos costumes e comportamentos que, infelizmente, passam a tomar corpo na sociedade brasileira.
Então, lembrei-me que num dos programas que era levado ao ar aos domingos, denominado Esquenta, o tema apresentado foi “Safadeza”. Nele, um dos destaques foi a vencedora do concurso intitulado “A Bunda Mais Bonita do Brasil”, que dançou usando minúsculas peças de roupa, sendo ovacionada pela apresentadora e público em geral.
Na novela Fina Estampa, levada ao ar pela mesma emissora de televisão, a homossexualidade era jogada ao público de forma caricata e perversa, como se os homossexuais fossem seres aloprados, afetados e escandalosos. A polícia foi mostrada de forma venal e ridícula quando chamada para fazer cumprir a lei contra a poluição sonora na casa de uma das protagonistas do enredo. Na trama, tais representações, transgrediram o caráter da crítica e assumiram o grotesco da comédia-bufa.
A série “Malhação”, em recente capítulo, apresentou uma cena cujo enredo assustou e agrediu os valores das gerações menos jovem. Nesse capítulo, uma adolescente que traiu o namorado, ao tomar conhecimento de que havia engravidado foi ao encontro do jovem traído, acompanhada do outro com o qual ela o traiu, na tentativa de convencê-lo a aceitar o ato de traição. Mais ainda; pediu que o namorado assumisse também a condição de segundo pai da criança e passassem a viver os três uma relação de poliamor. Como a personagem não aceitou tal imposição, foi estigmatizado no enredo com a pecha de coitadinho e indivíduo pouco evoluído.
Mas isso não se pode proibir porque o povo deve poder ver o que quiser, mesmo porque, a internet está aí para ser usada a qualquer hora e em qualquer lugar. Estes são alguns dos argumentos utilizados pelos defensores do absurdo. Eles não consideram sequer que cenas com tais conteúdos são apresentados num canal aberto nos finais das tardes e início das noites.
Em tese, as emissoras de televisão surfam nas ondas cerebrais da cultura inútil, fútil e de fácil consumo, que caracteriza a massa, com os olhos na direção do mais lucrativo. Agem como a maioria dos políticos brasileiros, objetivando extrair da sociedade o máximo proveito pessoal possível, buscando manter a sociedade no estado de passividade e subserviência, a exemplo do que fazem os parasitas intestinais.
Geralmente, críticas desta natureza são consideradas politicamente incorretas, pois contrariam os interesses do poder econômico que manipula a massa ignorante, bem como das minorias que, a qualquer custo buscam as luzes da ribalta no grande “festival de besteiras que assola o país”. Tudo com base na ilusão de ser esta a maneira mais rápida e eficiente de se afirmarem perante a sociedade preconceituosa, não se dando conta de que são meros instrumentos nas mãos dos poderosos e inescrupulosos maniqueístas que supositiciamente comandam o mundo.
Nesse ambiente, a mídia televisiva assume o interesse dos poderosos grupos e a intenção de para aonde pretende conduzir a massa, criando o esboço da sociedade futura. Aqueles que se chocam e criticam não são considerados representantes da coletividade!
Num passado recente os programas de variedades, eram produzidos com outro nível. À época, temas e conteúdos educativos eram produzidos em maior escala. Há quem afirme que isso se devia ao fato de terem sido tempos de regime totalitário, onde a liberdade de expressão não era tolerada e que, nos dias de hoje, respiramos outros ares, onde tudo deve ser permitido.
Os apresentadores eram mais elegantes, mais cultos e educados, não se utilizavam de linguajar chulo, os artistas convidados e músicos possuíam qualidade artística inquestionável. As telenovelas reproduziam grandes clássicos da literatura.
Quais são os índices de audiência das raras programações de conteúdos educativos e culturais produzidos e transmitidos pelas emissoras? Observem quais postagens do Youtube possuem maior número de visualizações e curtidas!
Subverter esta ordem de degradação a que a sociedade se encontra submetida nos dias atuais põem em risco os interesses econômicos e ideológicos que movem o destino do mundo; bem como, as carreiras políticas e a sobrevivência dos grandes grupos midiáticos a estes submetidos, como meros instrumentos de informação, indispensáveis à sustentação de um poder sombrio.
A sociedade está vivendo um acelerado e radical processo de transformação de difícil assimilação e, consequência disso, uma inconcebível polarização. Lamentavelmente, mais que isso, um contínuo estado de cizânia que beira a beligerância. 
A realidade é que o povo não é outra coisa, senão o princípio, o meio e o fim de todo o processo de exploração do sistema e continua sendo manipulado e fomentado pela ilusão de possuir a autonomia para decidir o próprio destino.
Tenho a sensação de que a próxima geração não terá estrutura emocional para suportar mudanças de paradigmas tão radicais.
Neste contexto, me dei conta de que eu sou careta, fruto maduro, passado do tempo!
O meu consolo é saber que não estarei mais aqui para testemunhar o epílogo deste processo de "evolução"!

Jair Araújo - escritor
Membro Correspondente da ALACIB - Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil, Mariana/MG.
Membro efetivo da SBPA - Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas. 
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