Meu pai tinha um rádio Empire State que era o seu xodó! Aquele precioso equipamento era ligado exclusivamente por ele, à noite, para escutar os noticiários da Voz do Brasil e do Repórter Esso. Para o bichinho começar a funcionar, tinha de ser ligado minutos antes. Primeiro, era necessário esquentar as válvulas. O rádio fazia parte do mobiliário da casa. Era montado numa peça de madeira de boa qualidade e possuía um lindo design. O painel onde corria o ponteiro para sintonizar as estações ficava todo iluminado por uma luz alaranjada, diferente da verde situada no canto superior direito do atraente aparelho e que acendia lentamente, para ganhar a cor viva, de um verde-esmeralda, apenas quando as válvulas ficavam totalmente aquecidas. Somente naquele momento o rádio começava a tagarelar. Aquela luz me encantava muito mais do que o fato dele falar. O meu pai dizia ser o olho mágico do rádio. Com o passar do tempo o olho mágico começou a dar sinais de fraqueza, a luz já não acendia completamente. Meu pai explicou que o olho estava cansado, adoecendo. Certo dia, de um feriado qualquer, meu pai, muito laborioso, feriu-se ao executar uma pequena tarefa no quintal. Eu estava junto, vi o sangue escorrer. Ele então me pediu para ir correndo pegar o mercúrio cromo e um chumaço de algodão para colocar na ferida. Saí em disparada para buscar o medicamento no estojo que chamávamos de farmácia e que a minha mãe mantinha, no quarto, para atender aos casos de emergência. Porém, antes de entregar o remédio ao meu pai, parei em frente ao rádio, ensopei um chumaço de algodão com o mercúrio e taquei no olho mágico doente do Empire State. O escarlate escorreu pelo tecido que cobria o alto-falante. Dei-me conta do estrago que fiz. Larguei o mercúrio e o algodão por ali mesmo e corri para debaixo da minha cama estilo Patente, encolhendo-me no canto mais escuro. Lá, fiquei escutando os gritos do meu pai, à espera do remédio que não chegava. Instantes depois, os gritos de chamada silenciaram e passei a ouvir as ameaças direcionadas ao autor do estrago causado a um dos bens mais preciosos do meu pai. Procuraram-me por todos os cantos da casa. Acharam que eu tinha ganhado a rua para fugir do castigo anunciado. Fiquei encolhido debaixo da cama por horas, só sai de lá quando ouvi, diante do meu desaparecimento, o desespero tomar conta dos meus pais, prometendo ao Papai do Céu e aos meninos Cosme e Damião, que me seria concedido o perdão, caso aparecesse. O mercúrio ajudou a curar o corte na mão do meu pai, mas a doença que havia acometido aquele encantador olhar verde-esmeralda era incurável. E assim, com aquela longa lágrima escarlate escorrida do seu olho moribundo, o Empire State continuou falando até o dia em que o seu olho mágico se fechou completamente. Ah! Eu recebi o meu perdão, não sem antes ganhar um bom puxão de orelha!

    Jair Araújo - escritor

     Membro Correspondente da ALACIB - Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil, Mariana/MG.

     Membro efetivo da SBPA - Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas. 

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Jolivaldo Freitas

“Salvador dos infernos”, diria Carola

O fechamento do hotel Pestana, do Othon e dezenas de outros nas proximidades do verão, época em que o número de visitantes que fogem do frio do Hemisfério Norte que nem aves migratórias e das férias escolares que trazem gente de outras regiões do Brasil e do interior do estado, chamou a atenção por uma provável atitude empresarial nefasta por parte dos gestores das famosas e antigas redes hoteleiras. Mas, o que muitos não sabem é que outros estabelecimentos de porte menor, e portanto, sem a visibilidade dos dois icônicos hotéis, cerraram suas portas nos últimos anos.

O que ouvi de alguns especialistas da área de turismo é que Salvador é uma cidade inviável para se aventurar no mercado turístico e foram muitas as explicações, algumas das quais plausíveis e outras exóticas, mas que vou contar por aqui e o senhor e a senhora que depois avaliem e digam alguma coisa. Antes, porém, quero fazer um desabafo, pois acho que Salvador perdeu uma das maiores chances da sua história de alavancar o turismo.

Veja que durante o ano inteiro a TV Globo comemorou a imensa audiência da novela “Segundo Sol”, aquela que Carola com ódio grita “Marisqueira dos infernos...” bordão que adorei, dos mais interessantes da teledramaturgia brasileira. A novela mostrou Salvador – mesmo que de forma enviesada e que gerou críticas – em sua essência arquitetônica. Graças aos drones que priorizaram as praias, o Centro Histórico, a orla (claro que o drone esqueceu de passar sobre os telhados do Nordeste de Amaralina, do Vale das Pedrinhas, do Vale da Muriçoca, do subúrbio ferroviário) e parte da cultura: música, gastronomia, dança.

Mas eu pergunto, cadê que não houve uma Bahiatursa, uma Setur, uma ABIH, uma Abav ou outras misérias quaisquer – como dizem os baianos – que se arvorassem a fazer uma boa campanha publicitária chamando os brasileiros para virem conhecer ao vivo e a cores o que a novela estava mostrando. O sucesso da novela era a personagem Beto Falcão. Bastava colocar em rede nacional um Vt de 15 segundos ou peças impressas com o seguinte apelo: “VENHA CONHECER SALVADOR. A TERRA DE BETO FALCÃO”.

Com certeza haveria um impacto positivo, mas não. Culpa dos organismos públicos. Culpa dos gestores públicos, mas também muita “boca de espera” – como dizemos nós baianos – do trade que fica esperando somente uma ação oficial para sair comemorando. É igual a pescador preguiçoso. Um pescador pesca de bomba e os outros depois caem na água para pegar o peixe morto e boiando. “Pescadores dos infernos! ”, diria Carola.

Mas, voltando aos motivos para que os estabelecimentos de hospedagem venham fechando suas portas me disseram que foi o fato de não termos estrutura de um centro de convenções – o que pode até ser, mas o Othon tinha um excelente centro. Que Salvador tem a paisagem de orla mais bonita do Brasil onde pode-se apreciar o sol nascer de um lado e adormecer do outro do lado do mar, mas em contrapartida tem a estrutura de orla mais feia do Brasil – coisa que concordo, pois até Natal, cidade muito menor que Salvador e até o Delta lá pelas bandas do Piauí tem estrutura melhor para receber o turista que vai se banhar, pegar um sol.

Também argumentam que em Salvador o turista só tem de ver o Pelourinho, bem ou mal. Ir ao Porto da Barra. Comer mal e porcamente na Ribeira. Ser assaltado em Itapuã – pois até a estátua de Vinícius de Moraes já tentaram levar -, ou correr perigo na Lagoa de Itapuã, que de lagoa ficou apenas o nome face ao assoreamento e poluição. Depois restam os shoppings e o Rio Vermelho.

Enquanto Salvador se amofina, se esconde, turistas de tudo que é canto chegam no aeroporto e se jogam de malas e cuias para o Litoral Norte. Outros passam por cima da capital e seguem para Porto Seguro, Caraíva, Trancoso, Maraú e seguem em frente. Todas estas locais com grande estrutura de atendimento, lazer e oferecimento. Pensar que já fomos o segundo destino turístico do país. “Gestores e trade dos infernos”, diria Carola.

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Jolivaldo Freitas

Tem quem ache que ao invés da sociedade se preocupar com a vidados animais, deveria mesmo é estar focado nos problemas das famílias carentes, das crianças abandonadas e dos deserdados da sorte. É uma ideia que não dissolve a outra, pois todos devem ser contemplados com políticas públicas. Os animais também merecem atenção especial e nem vou dizer que pela dedicação insana aos humanos, pela alegria que traduzem e outros itens que demandaria m uito espaço para revelar.

Mas, Salvador que tem mais de 200 mil cães e gatos pelas ruas é uma cidade inóspita para os animais. E pior ainda para aqueles que se dedicam a levar uma vida de cuidador de animais, pois vivem de pedir favores. E passam o tempo, perdendo tempo, tentando conscientizar o “animal” da sua rua – minha, sua e deles – de que não abandone os cães e gatos na sarjeta; providenciem a castrações; busquem ajuda para que os animais não sofram.

O que deixa um pouco de esperança no trato da sociedade, de você e todo, com os animais é ver que um problema como o ocorrido em São Paulo num supermercado da rede francesa Carrefour gerou uma consternação nacional. O cão foi morto a paulada por um segurança – que diz que não foi intencional, vá saber – e a comoção chegou às rias de obrigar o supermercado a adotar uma política de orientação dos seus funcionários e a oferecer, a partir de agora apoio às Ongs e aos cuidadores ou protetores.

Mas, voltando a Salvador, os cães de rua ou os cães e gatos que estão em canis e gatis aos borbotões ou os proprietários de cães que não têm condições econômicas passam por dissabores inenarráveis. Basta ver que uma consulta custa em média R$100. Um ultrassom mais de R$ 200. Pare e imagine um canil ou gatil com mais de 200 animais quanto custa fazer o acompanhamento médico, a prevenção, a vacinação? Os voluntários têm de sair batendo de porta em porta pedindo para que as clínicas veterinárias façam o favor de oferecer atendimento gratuito. Coisa que não é fácil uma vez que para as clínicas – embora muitos tenham boa vontade – é perda de tempo e dinheiro.

Por outro lado, os laboratórios que detêm as patentes dos remédios e hoje, com o aumento no número de famílias que têm animal em casa e o aumento no número de clínicas – não fazem sua parte, que seria apoiar as Ongs, os cuidadores, oferecendo amostras grátis ou auxiliando com pessoal especializado. Estão ganhando rios de dinheiro: basta ver que um remédio contra pulgas vai de R$50 a R$200...... e não estão nem aí.

Salvador precisa de clínicas e hospitais veterinários públicos – e não interessa se é o governo estadual ou a prefeitura municipal a quem cabe cuidar do assunto -, mas que é um hiato é. Basta ver que nem nas campanhas para governador ou prefeito a defesa dos interesses dos animais e das Ongs caem na pauta. Enquanto isso somente o Hospital Veterinário da UFBa atende, mais ou menos de graça, mas não tem capacidade de atender a todos os casos que chegam lá, principalmente de cirurgias.

Fiquei feliz com a atitude da Câmara Municipal de Salvador que acaba de aprovar o primeiro Conselho Municipal Bem-Estar, Proteção e Defesa dos Animais. O Projeto de Lei Nº 297/18 de autoria da defensora da causa animal, a vereadora Marcelle Moraes conjuntamente com o Executo Municipal agora segue para sanção do prefeito ACM Neto e servirá como modelo para todo o país, de forma pioneira e vai ser um fórum para tratar das questões de defesa dos animais. É uma forma de pressionar o município para dotar a cidade de condições essenciais para a vida de cachorro que até os gatos, jegues, aves e tantos outros enfrentam, até micos. A Assembleia Legislativa bem poderia deixar de dar uma de avestruz e seguir na mesma linha.

E a vereadora Ana Rita Tavares? A mulher foi eleita com base na causa dos animais e votou contra o conselho? Ela bem podia se explicar melhor. Talvez tenha uma ideia melhor, pois de esquizofrenia não deve sofrer.

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Era uma noite diferente aquela, pelo menos para mim, pois meu coração ardia e pulsava sufocando-me em meus pensamentos. Sentado à mesa, caprichosamente posta, solitário, curtindo apenas a companhia do inseparável jornal diário e de um pequeno rádio que pertencera à minha avó, coitado, em ondas curtas com seu chiado envolvente e som ininteligível, navegava absorto em busca de sentido para tantas coisas que me rodeavam. Entre o petiscar de variadas guloseimas e olhadelas nas conflitantes notícias exaradas naquele papel, pausa para reflexão, o penoso e inútil trabalho de se compreender o mundo. Fazia frio. Não me cabendo em mim mesmo, agoniado, agasalhei-me e saí. Uma leve garoa, quase um orvalho, envolvia a noite, prateando as calçadas ao reflexo das muitas luzes que pendiam das lojas e vitrines daquele quarteirão. Era Natal. As ruas do centro comercial ainda se encontravam em alvoroço, as famílias celebravam suas festas, as igrejas entoavam cânticos ao menino Jesus, os Shoppings, atitarrados de gente, ofertavam seus produtos, e os mais atrasados, ávidos para se desfazerem do dinheiro, corriam para comprar o presente do amigo ou parente e ingredientes para a indispensável ceia. Parei, recostei-me sob o toldo de uma loja fechada e observei ao redor o zanzar faminto dos investidores em passos apressados e olhares indiferentes; edificadores de altares a Mamom. Parecia que toda a fartura e beatitude desejadas em um ano surgiam como mágica em um único dia, em um só momento, em um brindar litúrgico de paz e prosperidade. Será mesmo que é assim? Como que atraídos por direção divina, os meus olhos pararam em uma criança, a poucos metros, maltrapilha, encolhidinha em frente a uma vitrine de brinquedos e doces. Boca semiaberta e olhar distante, parecia sonhar com uma infância real e feliz, um mundo utópico e cada vez mais distante para milhares de seus iguais.  Não resisti. Aproximei-me do garoto, ajoelhei-me ao seu lado e perguntei o seu nome, onde morava, sobre os seus pais, e segurei o nó da garganta. Entrei na loja, comprei o brinquedo simples e barato que ele desejava, e um saco de biscoitos, o cobri com a minha já gasta jaqueta, afaguei rapidamente os seus cabelos desgrenhados e lhe desejei boa sorte. Sorri e saí. Poucos passos adiante, ouvi uma vozinha me chamar: “moço!”  Voltei-me e olhei para o garoto cujos olhinhos estavam marejados. Pezinhos juntos e descalços, brinquedinho entre as mãos, perguntou-me: “Você é Jesus?”.

                                              

Itamar Bezerra

Teólogo, escritor, poeta e compositor

Autor de vários livros evangélicos, crônicas, prosas e contos; cantor com CD’s gravados com músicas autorais, e fotógrafo.

Recentemente, completei meio século e quatro anos de vida; parei para pensar numas coisinhas. Se Deus for servido me conceder mais tempo para viver, completarei mais uma semana, mais um mês, mais um ano... Assim mesmo de um em um... Inda bem, não é? Já pensou se fosse de cinco em cinco, ou de dez em dez? E mais, como diz um amigo meu, daqui a 100 anos, se Deus quiser, completarei cento e cinquenta e dois... Imagine... Mas, brincadeiras à parte, pensei em algo sério e importante. Na manhã do dia exato do meu natalício, ao acordar, fui ao banheiro assear-me e fiquei alguns minutos olhando para a minha imagem refletida no espelho e não me reconheci. Numa viagem rápida por dentro de mim, voltei veloz no tempo e enxerguei num segundo plano o meu rosto jovem e liso, cabelos pretos e um ar vigoroso inexplicável. Numa nova piscadela vi um senhor grisalho de semblante cansado, vencido pelo tempo. Sim, cabelos brancos, pele opaca, olhos cansados, uma acabação... Mas olhei direito dentro dos meus próprios olhos e me vi também lá dentro. Reconheci que o eu que em mim habita não é o mesmo que o mundo vê. Os meus amigos antigos me viram menino, rapaz, e virei homem. Hoje você me conhece como um coroa, e daqui a algum tempo, como um vovoquinho frágil que reiniciou o processo de infantilização. Do lado de fora é assim com todos nós; a beleza viçosa dos primeiros dias dará lugar à decrepitude. Mas do lado de dentro, não. Se eu me submeter a uma cirurgia plástica radical e mudar toda a minha aparência corporal, ainda mais drástica que a do Michael Jackson, e virar loiro de olhos azuis, ainda assim, dentro de mim serei eu mesmo, com minhas memórias e todos os traços de personalidade desenhados em minha cadeia genética. A alma não tem músculos, nervos e carne que definhem; a alma é imortal. Diferentemente do corpo, que segue um ciclo progressivo (ou regressivo) inexorável, a alma não tem idade; pode ser eternamente jovem, ou permanentemente velha e rabugenta. E isso é mesmo verdade... Na minha mente e coração sinto-me um rapaz, aquele mesmo jovem dos primeiros dias; nunca vi diferença, nunca senti cansaço, não há rugas ou limites... Entro em campo para brincar com os jovens e me sinto lépido como qualquer um deles, mas as pernas e os músculos do meu eu exterior zombam de mim e não fazem o que penso e quero. É assim mesmo, a alma não tem idade. Vez em quando sou surpreendido interiormente com uma lucidez e uma maturidade como se já tivesse vivido mais de cem anos. Outras vezes sou uma criança, moleque mesmo, daqueles de shortinho e suspensório, brincalhão, irresponsável, inocente-palhaço-feliz, e me descolo bastante do homem exterior com sua compleição madura-legal-chata. É por isso que encontramos tantos jovens velhos, e tantos velhos jovens; corpos sarados de alma abatida e frágil, e corpos murchos pelo tempo, que abrigam almas vivas e púberes. A tendência natural das coisas, no entanto, é o sistema ir fazendo com que a alma acompanhe a idade do corpo, e a pessoa vai de fato morrendo aos poucos. Decidi transgredir essa lei. Vou ficar atento ao tempo, e curtir o moço que me inquilina.                                       

Itamar Bezerra

Teólogo, escritor, poeta e compositor

Autor de vários livros evangélicos, crônicas, prosas e contos; cantor com CD’s gravados com músicas autorais, e fotógrafo.


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