Não sei se é loucura ou uma viagem ultra-galáctica, ou mesmo parte de alguma esquizofrenia existencial, mas passei a tarde com uma flor. Era o meio de uma agradável tarde de primavera. Das lascas farpadas de uma cerca de quintal pendia um delicado galho de roseira. Rosas rosa; um cacho numa ponta e uma solitária e exibida mais acima, à altura do meu rosto. Acredite, ela olhou para mim. Olhou e sorriu. Não, não foi uma visão mística, ou a sobreposição de alguma imagem com um rosto humano, nem foi um surto psicótico, eu estava bem. Eram cerca de sete lóbulos de bordos denteados simetricamente encaixados, fazendo com que seus contornos se harmonizassem como a métrica de uma bela canção. Perfeita. Singela. Um poema. O ovário ínfero estava em plena atividade; o perfume infestava o ar ostensivamente, inebriante; um assédio, impossível não se encantar. Viço em cada pétala; seda fina, veludo delicado. Estava posto que o acaso não morava ali, bem como não estava diante de mim um ser inanimado. Aquela rosa falava; não, cantava, e como era linda a melodia. As notas eram longas e altas, dissonantes, como uma música elaborada. Fixei nela os meus sentidos; todos eles, e interagi. Ouvi sem interromper o seu cantar, e me impressionei com a letra, a mensagem que ela transmitia. Falava de beleza, de leveza, de riqueza, de delicadeza e paz. Dela emanava virtude, uma alegria indizível, e algo que nunca tinha notado em nenhuma outra flor: personalidade, um “Q” que a distinguia dentre milhares; uma nobreza intrínseca, realeza veraz, diante da qual plebeus se curvam em reverência. Sim, reverentemente, fiquei ali minutos, horas, não sei, ouvindo sabedoria, recebendo conselhos, vendo o belo em essência, sentindo o amor entrar pelas narinas. O movimento brusco da vida comum me quebrou o encanto, levou-me de volta à realidade dura, cinza e pobre. Dei as costas a uma cerca de onde pendia um ramo de rosa.

Itamar Bezerra.

Teólogo, escritor e poeta

Jolivaldo Freitas

A obra que uma construtora vem fazendo em meio metro da praça da Igreja da Vitória tem causado muitos transtornos para os moradores e para quem transita na área, tanto pela morosidade como pelo perfil de tratamento que vem sendo dado. É uma obra que qualquer pedreiro ou empreiteira faria em um mês ou menos, mas que do jeito que vem ocorrendo já são anos de espera e pelo jeito nem com a ajuda de Nossa Senhora da Vitória vai terminar antes do Carnaval.

Na realidade a obra é um cala-te boca que a construtora e a incorporadora que executaram o gigantesco projeto do edifício Mansão Wildberg vem dando para a Prefeitura Municipal, para a Igreja de Nossa Senhora da Vitória e para os moradores, depois que na calada da noite comprou a antiga mansão da família Wildberg, uma das mais bonitas e antigas da Bahia e depois de muita ginástica e mágica frente à Justiça baiana conseguiu liminar, e com a liminar na mão mandou que os tratores, marretas e caçambas derrubassem a casa e começassem a obra. Tudo isso aconteceu apenas uma madrugada insone e pasma para os moradores. O Ministério Público levou o chamado drible da vaca. O Iphan, este... só rindo. E a prefeitura – que não lembro quem foi o prefeito da época – fez ouvido de mercador. Olhou que nem cego e Salvador ficou mais uma vez a ver navios. Perdeu um marco arquitetônico.

Diz-se que se tratam dos apartamentos – que já estão começando a ser habitados – mais caros da Bahia e um dos mais caros do Brasil, com unidade custando até 20 milhões de reais (o que não busquei confirmar, portanto podendo ser folclore ou não), mas que foram  adquiridos também por pessoas metidas no Mensalão do PT e no Lava Jato. Claro, que além de empresários, empreiteiros e outros milionários que a plebe rude de Salvador não sabe nem nunca viu, mas que existem.

Voltando à obra do Largo da Vitória, desde a construção da igreja da Vitória que não se vê um trabalho tão demorado. A Vitória é a segunda igreja mais antiga do país uns trinta anos e pouco depois do descobrimento do Brasil e bem antes da fundação de Salvador. Quem está lá se virando na tumba com tanta demora da construtora em, entregar o largo cala boca da Vitória são os filhos de Caramuru. Nem mesmo depois que os holandeses invadiram Salvador e destruíram muita coisa – construíram também em menos tempo que a obra da Vitória, a exemplo do Dique do Tororó – uma obra durou tanto. A reconstrução da igreja em 1625 foi rápida. O mesmo acontecendo quando da sua reforma em 1808 com recursos que Dom João VI deu de mão beijada literalmente.

Em 1910 tanto a igreja como o largo sofreram nova reforma e foi tudo rápido. Agora tem essa obra que ninguém sabe quanto tempo ainda vai levar. Nem mesmo com Nossa Senhora da Vitória dando um adjutório na causa. E se alguém pensa que com a obra vai ser esquecido o “assalto” dos infiéis ao largo e à Mansão Wildberg, pode esperar sentado. Nem é bom colocar placa de reinauguração nem o prefeito ou o arcebispo irem para a festa.

Escritor e jornalista: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Todos temos pelo menos um amigo, ainda que seja um cão, um garrote, uma barata. Alguns têm amigos, e podem eleger ‘o melhor’ dentre eles. Aos que creem, em um plano superior, Deus é o melhor de todos os amigos; o onipresente, aquele que está full time com o indivíduo, não importa aonde ele vá ou esteja; o onisciente, que sabe de todas as coisas, inclusive o que se passa no interior mais profundo da alma do seu chegado, antes mesmo que ele traga à luz o que pensou; o onipotente, o amigo que socorre, que ajuda, que protege, que nunca falha. Sem dúvida, com um perfil desses, o melhor amigo. Acho que tenho esse privilégio. Mas num plano terreno, na esfera histórico-existencial, tomando por base esse perfil aí traçado, só há um que pode se encaixar no posto: Eu mesmo. O meu Eu interior é o meu melhor amigo. O que não me deixa momento algum, nem mesmo quando durmo. O que sabe de todos os meus segredos, sem exceção. O que de fato faz o que for possível para promover o meu bem – às vezes é quem me lasca. Mas, enfim, sem dúvida também, aqui embaixo, eu sempre fui o meu melhor amigo. E que amigo. Eu o vi – ou ele me viu – criancinha, e acompanhei o seu crescimento, todos os dias e todas as horas; estive com ele nas situações em que chorou, e vibrei com ele quando conquistou. Opinei determinantemente na maioria das suas decisões; sofri por suas desilusões, orgulhei-me de suas façanhas. Aos poucos e sistematicamente fui ajudando a forjar sua personalidade e moldar o seu caráter, fazendo-o identificar entre erros e acertos o melhor caminho a seguir. Nessa sinergia mística, entre a genética e a subjetividade da alma, entre o ‘eu’ que eu via e o ente por esse formatado, a amalgama perfeita de uma construção incrível. Na sobra possível do que se conflitava, entre o meu eu anjo e o meu estado bruto; entre o ‘médico e o monstro’, o louco e o iluminado, o santo e o pecador, forjei ou fui forjado no poeta, o músico, o profeta, o queridinho, o tal. E no altar das vaidades, celebrei o meu próprio culto em honra aos méritos desse amigo, sem observar o óbvio de que os pés eram de barro. E no lagar da tolice afoguei o meu melhor amigo. Matei e sepultei aquele a quem idolatrei, construído à minha imagem e semelhança. Hoje, por entre escombros, cacos e rescaldos, lentamente e combalido, se ergue um ser nu, despojado e só, diante do espelho: Eu, somente eu mesmo.

Itamar Bezerra.

Respeito, este é o principal sentimento quando o assunto é relação humana. A partir desta premissa se desenvolvem outras empatias que geralmente estão arraigadas no sujeito, mas por fatores avessos à sua personalidade muitas vezes o que se construiu dá lugar à comportamentos que nem sempre condizem com sua conduta social, moral e profissional.  O respeito está sempre acompanhado da verdade, da atenção e da educação, por tanto para que a recíproca seja verdadeira entre as partes, em qualquer situação, é preciso que se observe os desejos e, principalmente, o direito de ambas.
O respeito na prestação de serviços, por exemplo, não pode ser uma qualidade do prestador e sim uma obrigação do mesmo. Não cumprir com o que se propôs a fazer no Código Penal é caracterizado como estelionato (enganação, golpe, fraude...) e para o baiano é ‘xibunguice’, ou seja enrolação e lorota, estando quem comete passível de ser excomungado (expulso do convívio) e não ser nunca mais procurado profissionalmente. O mau atendimento do prestador de serviço o torna uma figura mal vista e desacreditada perante a sociedade.
Os argumentos citados anteriormente se referem ao indivíduo, que geralmente desprovido de vergonha, comete falhas inaceitáveis no cumprimento do que se combinou. Mas ‘cara de pau’ não é apenas o autônomo, o problema não é uma prerrogativa somente sua. Empresas consideradas de grande porte, e que muitas vezes chegam a se autodeclarar de ‘excelência’, cometem freqüentes vacilos juntos aos seus clientes ou usuários, causando prejuízos de todos os tamanhos e formas.
É inaceitável qualquer tipo de mau serviço, mas quando envolve empresas que possuem a permissão do Estado para a prestação de determinado serviço se torna incompreensível. A concessão para exploração de serviços rodoviários intermunicipais para algumas empresas de ônibus está entre as incompreensões. Como não fiscalizar e até mesmo cassar a outorga de empresas que fazem o transporte de seres humanos sem o mínimo respeito possível, com veículos sem manutenção, com documentações atrasadas, sem conforto, que cobram por um serviço e oferece outro (se paga o valor por um serviço executivo e viaja no inferior ao convencional), que não valorizam se quer seus colaboradores (motoristas, cobradores, guichegistas e outros), que exclui linhas e horários sem comunicar às agências reguladoras, que não cumprem decisões judiciais?
Quem estaria sendo omisso, o órgão responsável pela regulação dos serviços do transporte público, ou os usuários que não une forças e se mobiliza para publicizar o problema e mudar a situação? Cada qual com sua responsabilidade.
Enquanto a sociedade não conhecer o poder que possuem as ações realizadas a partir do coletivo não conseguirá as mudanças almejadas.

Por Gervásio Lima
Jornalista e historiador

Em setembro de 2017, escrevi um artigo chamado “contra intolerância, mais respeito e dignidade humana”, abordando a onda crescente de atos de intolerância religiosa e citei o caso grave de violação de direitos humanos ocorrido em Nova Iguaçu, onde bandidos obrigaram uma sacerdotisa a quebrar, por suas próprias mãos, seus objetos sagrados.

Recentemente, causou revolta e indignação a invasão seguida de roubos dos presentes, agressão física ao Babalorixá Richelmy e a profanação da cerimônia religiosa: águas de Oxalá da Casa do Mensageiro. É uma cerimônia religiosa realizada pelos terreiros, que pode ser traduzida aos não iniciados como o fortalecimento dos caminhos para a paz, tão necessária em tempos de “é selva, capitão!”, com pedidos de serenidade, temperança, sabedoria ao pai maior.

Essas agressões somam-se às inúmeras que têm grassado em todo país, um “tá amarrado aqui, tá amarrado acolá em nome de Jesus”, algo que, infelizmente, entrou no cotidiano dos baianos praticantes do culto aos orixás, inquices, voduns e encantados, que as ouvem nas ruas quando não seguidas de agressões físicas, bíblia na cabeça, sal na Pedra de Xangô, enxofre nas porteiras dos terreiros, pichações e inclusive dentro do seio familiar.

Um conjunto de violações que já ultrapassaram a seara da intolerância religiosa. Não são atos isolados e sim algo sistêmico e direcionado à religiosidade de matriz africana e afro-brasileira. 

Há ação em julgamento no STF, que objetiva criminalizar a sacralização dos animais. Somos o alvo preferencial. Não é preconceito religioso, é racismo. Racismo religioso, que defende uma única verdade e salvação, avança a passos largos, rumo ao passado das perseguições policiais.

Fazem-se necessárias mais mobilizações de todas as nossas denominações. Insisto mais uma vez que é preciso fazê-lo da porteira para dentro e, sobretudo, da porteira para fora. O sagrado vem dando o caminho quando se deixa até ser ”atingido” por algumas dessas violações.

Portanto, é preciso: mais rua, o fortalecimento do dia 21 de janeiro, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, transformando-o em um novo 20 de novembro; mais ações por dentro das  instituições jurídicas, a exemplo do MP-BA, a realização do  IIIº Seminário sobre Intolerância religiosa e Estado Laico; mais interação entre o parlamento e a sociedade civil. Conclamo a mobilização de todos para a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e Combate à Intolerância Religiosa da cidade de Salvador, no próximo mês de fevereiro. Nós, os edis e as edis, poderemos dotar a cidade de Salvador de um importante instrumento que nos permitirá navegar rumo à igualdade racial para valer e respeito à liberdade religiosa.

Vereador Sílvio Humberto (PSB) - Presidente da Comissão de Cultura


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