O sentimento de perda talvez esteja entre as piores dores sentidas por um ser humano. A palavra perder, por si só, já amedronta e leva automaticamente o positivo para o negativo, independente do que está em ‘jogo’. Como dizem os mineiros, ‘é ruim demais da conta sô’ saber que não mais contará com algo que saiu do presente para o ausente. Muita oração e reza por parte dos cristãos e yoga e meditação para os praticantes poderão minimizar o sofrimento daqueles que passam por algum tipo de acometimento.
A morte é sem dúvida a mais temida perda para o ser humano. Seu conceito, para a classe médica e científica é a cessação das funções vitais, ou seja, é a interrupção definitiva da vida de um organismo vivo que havia sido criado a partir do seu nascimento. A perda de um ente querido é imensamente dolorosa, chegando a ser insuportável. É algo durável, e permanente, que não se pode destruir, suprimir ou fazer desaparecer totalmente, um acontecimento geralmente difícil de ser enfrentado.
O sofrimento é uma marca indelével do ser humano, não resta outra possibilidade se não suportá-lo. Mas o termo morte não corresponde apenas ao final da vida física, será tudo aquilo que de alguma forma deixou de existir, que foi banido ou cerceado. Assim como uma patologia que pode ser curada através do uso de medicamento, existem infinitas maneiras de se evitar e até mesmo combater atitudes moralmente condenáveis e danosas contra uma sociedade. A participação popular, exigindo seus direitos e, ou, usando dos mesmos, de forma consciente para provocar as mudanças almejadas, contribuirá integralmente aplacar sofrimentos morais.
A perda de direitos conquistados com muitas lutas e até mesmo derramamento de sangue não pode e não deve ser uma complacência. A crise moral não pode ser desculpa para acreditar que um salvador da pátria irá conseguir resolver os problemas atribuídos apenas a uma sigla, em detrimento de fatores outros que corroboraram e ainda corroboram para uma situação estabelecida com fins políticos. 
A quem interessar possa: quem atira no que viu não pode dizer que acertou no que não viu. Nada de sem querer querendo. Existem coisas na vida que podem ser evitadas, inclusive a morte. A falta de intenção não seria desculpas por erros premeditados. Não culpemos para não sermos culpados. Quem vai pela cabeça dos olhos é piolho, por tanto é preciso explorar e valorizar sentimentos como a consciência através da razão.
Como dizia Fernando Pessoa: “como facto a morte tem pouco interesse; morrer é só não ser visto, a morte é a curva da estrada”.

Por Gervásio Lima
Jornalista e historiador

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Jolivaldo Freitas

O Brasil está cada vez mais doido e a doideira atinge até as instituições onde seus componentes estão quase que saindo aos tapas, perdendo o ciso e fazendo de entidades históricas uma arena ou seria uma bica onde as velhas senhoras lavam suas roupas sujas, expondo suas manchas e pruridos. Deixei passar a eleição na OAB-Bahia para tocar no assunto.

A OAB-Bahia de tantas glórias e memórias, notadamente no período em que enfrentamos por vários modos e meios a ditadura dos militares, com seus dirigentes dando a cara à tapa, abrindo o peito e peitando as baionetas, nos últimos anos deu para parecer grêmio estudantil, reunião de partido, reunião de condomínio, reunião de conselho de clubinho social.

Nos clubes o que se vê hoje – face a decadência da absoluta maioria, pelo menos na Bahia –, briga-se em busca de um equivocado “lustre social”, como se aquele passado de glória, onde grandes e respeitados nomes da indústria, comércio e da produção agrícola serviam de base para um “glamour” e conviver ao lado – pensava-se – gerada a evolução social por osmose. E na Ordem dos Advogados do Brasil – Seção da Bahia?

Interessante a luta fratricida entre aqueles que buscaram concorrer no pleito para a nova diretoria. Lavaram roupa suja no meio da rua. Se ofenderam, mostraram o lado que consideram de incompetência dos outros e da inoperância do sistema. Daí eu pergunto: e nosotros, o que temos a ver com isso? Onde nós, meros mortais sem toga e sem fazermos prova de advogado entramos na luta? Porque recebi folder esculhambativos se não sendo advogado não tenho direito ao voto? Só se for para achincalhe geral. Fofoca. Veneno.

Fiquei pasmo quando durante algumas semanas presenciei carretas de candidatos, com bandeiras palavras de ordem (até achei que tinha perdido o bonde da história e as eleições para deputado ou vereador, ou sei lá o quê tinha voltado nem bem acabara). Eram carretas, tomada de territórios, ações de cabeça de ponte nas hostes do inimigo. Mas, não se pense que é de agora. A questão da briga intestina na OAB é de longo tempo, onde quem passou levou a pecha de desonesto, presidentes tiveram imagens manchadas. Quem saiu perdendo? A classe. E depois de tudo? Aos vencedores as batatas. Qual o ganho que uma posição na entidade de classe oferece para tanta animosidade? O que leva ao conflito aberto, uma tentativa de desmoralização de outrem? O poder pelo poder talvez; pela sensação, domínio, influencia. Ou às vezes é mera possessão. Quem sabe, é a boa e velha sensação de sevir ao próximo. Vá saber.

Vamos esperar que agora que a OAB tem um novo presidente, que venceu a eleição realizada na quarta-feira, 21, (a chapa "Avança OAB" ) seja dado um exemplo de bom tom, para que não fique parecendo aquilo que o Brasil se transformou, onde a eleição para presidente da República parece que não acabou, que está apenas começando e quem ganhou fica na sensação que perdeu e quem perdeu acha que ganhou e não levou e com isso perdemos todos com tanto estresse.

Que a OAB se dedique intensamente a cuidar dos seus profissionais em busca de propostas que sejam verdadeiros avanços. Que os advogados se unam e façam desta instituição um ícone como foi, para honra e glória e que feche as fontes externas para que a roupa seja lavada em seu foro íntimo. Que viva a OAB.

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Com frequência regular recordo da minha infância! Época em que sequer se cogitava existir a informática, o milagre da tecnologia. Ficávamos brincando de cabra-cega, triscou pegou, cabana, boca-de-forno, carrinhos de rolimã, enquanto as meninas preferiam as cantigas de roda, a amarelinha e o baleado. Os adultos, quando não estavam ouvindo através do rádio o Repórter Esso ou as novelas, ficavam sentados à porta das casas proseando com os vizinhos. Realmente, era um tempo diferente. As pessoas trocavam ideias, opiniões, experiências e, até mesmo, uma vez por outra, uma “inocente” fofoquinha.

     As lâmpadas incandescentes mal iluminavam as ruas, oscilavam nos espaçados postes de madeira roliça. A penumbra era convidativa para as histórias de mulas sem cabeça, das caiporas e do homem do saco; contadas com rebuscadas encenações para impressionar os espectadores e deixá-los com o temor de dar de cara com alguma visagem na escuridão.  Visões nascidas das labaredas das velas acesas nos nichos que, ao iluminar os santos de devoções das nossas mães e avós, produziam sombras fantasmagóricas que bailavam atônitas nos tetos e nas paredes do quarto de dormir.

     Quantas histórias eu contei e quantas ouvi?...

     Recordo-me do dia quando o meu pai leu na Gazeta a notícia de que as ruas iam ser iluminadas por lâmpadas a vapor de mercúrio e ele então dizia: - Que maravilha! A noite vai virar dia.

     Naquela época, o único mercúrio que eu conhecia era o mercúrio cromo, e ficava a imaginar como um remédio poderia ser utilizado para iluminar as ruas.

     Então, chegou aquela novidade de luz que deixava tudo claro como a manhã, mas que contrariava o romantismo dos namorados apaixonados que perderam a convidativa privacidade da luz do luar. As crianças logo começaram a achar aquele clarão maravilhoso. Podiam até jogar um baba ou bolas de gude à noite, mas brincar de esconde-esconde, de assustar as pessoas ou de contar histórias de terror, perdeu a graça. Não tardou a perceberem que a intensa luminosidade era uma coisa chata.

     Como num passe de mágica, eis que surge a televisão, atraindo a todos para dentro das suas casas ou para as casas dos vizinhos, para assistirem, como se dizia à época, - o televizinho. A televisão chegou e com ela o silêncio e o isolamento das pessoas.

     Havia os que diziam que o mundo mudou tanto que nunca mais seria o mesmo. Mas o mundo continuou mudando, se renovando sem parar... 

     O desenvolvimento tecnológico é algo realmente excepcional. Isso quando olhado sob o prisma do seu objetivo não ser outro, senão o de propiciar o conforto, o bem-estar e o ganho de tempo para execução de tarefas mais importantes e mais úteis.  Entretanto e apesar disso, a tecnologia traz também as suas inevitáveis consequências: o extremado comodismo, o desvairado consumismo, a disseminação em massa de informações e o seu impressionante poder de persuasão – sejam com verdades ou mentiras – contribuindo para as repentinas mudanças dos hábitos de vida e de crenças, inclusive.

     Com o tempo começaram a surgir queixas relacionadas ao poder de influência exercido por esses aparelhos nos hábitos das pessoas e, consequentemente, das famílias. Acusavam-na e ainda a acusam, de incutirem valores distorcidos na cabeça de todos, notadamente na das crianças. Mas, inventaram os computadores e, com eles, a Internet e as redes sociais.  Assim, atualmente, a responsabilidade tem recaído também nesses danados inovadores sistemas de comunicação.

     Certo é que os hábitos, os valores e objetivos das pessoas mudaram. O tempo também mudou. Acelerou-se de tal maneira que, para o homem moderno, o tempo está ficando mais diminuto a cada dia. Tudo ficou mais lépido, tão rápido que até as palavras encurtaram. A escrita se transformou em hieróglifos e a gramática perdeu a importância. Neste contexto, o que em última instância fica mesmo valendo é o ato de poder se fazer entender, mesmo sendo numa linguagem codificada, quase cifrada a qual se pode denominar de ‘o português da linguagem virtual’. Surgiu um novo dialeto. Simples assim!

     Essas máquinas e os seus novos softwares de comunicação em tempo real tiraram o prazer de se escrever uma boa carta com primorosa caligrafia e aguardar com ansiedade a chegada do carteiro na semana ou no mês seguinte.

     Quem sabe não aconteça, num futuro próximo, o fato das canetas e dos lápis somente serem vistos como peças de museus?

      Estudiosos dão conta de que as pessoas estão perdendo a capacidade de saber esperar. O imediatismo, a impaciência, a inquietude e o mal da ansiedade vêm dominando o comportamento humano. Ultimamente, considera-se deselegante e até falta de educação as pessoas não responderem as mensagens em, pelo menos, vinte minutos após o seu envio. 

     As crianças, então, viraram reféns dos jogos de videogames e agora das mensagens no WhatsApp.  Não experimentam a alegria de brincarem na chuva nem de se enlamearem nas poças das ruas de terra. Não mais respiram o ar puro dos pomares. Não sabem subir em árvores para, nos galhos, saborearem os frutos dos quintais alheios. Não contemplam a beleza do céu estrelado numa noite sem lua. Vivem encafuadas nos seus quartos e se comportam como verdadeiros androides. Pedagogos e psicólogos afirmam que tem sido a causa dos sintomas de estresse, depressão, dificuldade de sociabilização e obesidade. Culpa dos pais?

     Não restam dúvidas de que o ser humano está penetrando no mundo do isolacionismo social. Tais tecnologias favorecem o processo do estabelecimento das relações apenas no plano virtual e, como consequência, conduzindo as pessoas ao individualismo e ao enfraquecimento dos laços de amizade. Os atuais relacionamentos estão longe de preencherem o vazio da presença física, do contato pessoal, do abraço afetuoso, da troca de energia. Amizades são feitas e desfeitas de forma virtual numa rapidez que impressiona. Não temos mais tempo para que seja de outra forma. A roda da vida moderna nos consome!

     Hoje, as pessoas, principalmente as mais jovens, até quando estão próximas, continuam distantes e solitárias. Preferem isolar-se na interatividade dos jogos eletrônicos ou entre as muralhas do WhatsApp e do Facebook para curtirem as suas amizades virtuais, ao invés de interagir com quem está ao lado.  

      É regra do ser humano dar destinação oposta ao que deveria ser empregado apenas para o bem comum.  Isso é o que vem acontecendo com os tais sistemas de comunicação virtual, cuja utilização tem sido subvertida. Mensagens distorcidas, difamações e boatos são veiculados com o objetivo de atingir desafetos, bem como, para obtenção de poderes políticos e econômicos.

     Fato é que devemos nos adaptar às mudanças introduzidas no ambiente por meio dos avanços tecnológicos sem, contudo, deixar de oferecer resistência quanto ao seu mau uso.  É absurdo culparem os avanços tecnológicos pelos males causados a esta geração. Seria o mesmo que culpar o avião pela destruição de Nagasaki e Hiroshima.

       O responsável pelo desequilíbrio sociocomportamental é, sem dúvida, a natureza do próprio homem que, por se permitir contaminar pelas más influências, usa as invenções para a prática do mal. Nestes novos tempos, o comportamento das pessoas mudou em demasia e, inevitavelmente, continuará mudando sem que ninguém saiba aonde tudo irá desaguar.     

       Consolemo-nos, pois existe a possibilidade de que os sentimentos românticos e saudosistas, cultivados pelos idosos em relação às suas infâncias, também atingirão os jovens de hoje no futuro; quando a cibernética já terá ultrapassado o limite do inimaginável.

        É, foi-se o tempo das brincadeiras nas ruas! Mas, ainda que tenhamos saudade do passado, não devemos a ele nos apegar. O passado é o presente que ficou para trás, num tempo em que não havia lugar para a melancolia nem a solidão. Um tempo de alegrias, em que as amizades envelheciam e jamais pereciam!

    Jair Araújo - escritor

     Membro Correspondente da ALACIB - Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil, Mariana/MG.

     Membro efetivo da SBPA - Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas. 

Ireuda Silva
 
Chegamos a mais um “Novembro Negro”, mês de reflexão e resistência, com um cenário preocupante no que se refere às vidas e à integridade física do povo negro no Brasil. Segundo o Atlas da Violência 2018, com base em dados do Ministério da Saúde, entre 2006 e 2016, a taxa de homicídios de indivíduos negros cresceu 23,1%. Por outro lado, a taxa entre indivíduos não negros caiu 6,8%.
 
Além disso, temos um jovem assassinado a cada 23 minutos, e nos estados das regiões Norte e Nordeste essa questão se mostra especialmente sensível. Na Bahia, a taxa de homicídios como um todo cresceu 98% em 10 anos. Entre negros, o crescimento foi de 104,4%. Cidade mais negra fora da África, Salvador é sem dúvida protagonista nessa carnificina, reflexo de descaso com os serviços públicos básicos, corrupção, desigualdade socioeconômica e de um processo histórico iniciado com a escravidão nos primórdios do Brasil.
 
Formalmente libertos em 1888, os ex-escravos nunca foram contemplados com políticas públicas efetivas e consistentes que os incluíssem na sociedade brasileira. Pelo contrário: permanecem até hoje em uma situação de vulnerabilidade, sem acesso a educação, saúde, lazer, cultura e mercado de trabalho, alimentando um círculo vicioso que só se traduz em mais desigualdade, mais violência e mais mortes.
 
Nossa Bahia está banhada em sangue, e enquanto se defende políticas de repressão cada vez mais ostensivas, seguimos na lanterninha do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), com o pior ensino médio do país. Seria mera coincidência a relação entre esses dois indicadores aqui citados – violência e educação? É preciso ser muito cego, ou intelectualmente desonesto, para dizer que sim.
 
Outro dado: o feminicídio, ou seja, o assassinato de mulheres por questões de gênero, atinge principalmente as mulheres negras. Entre 2003 e 2013, o número de mulheres negras assassinadas cresceu 54%. Enquanto isso, o feminicídio de brancas caiu 10%.
 
Políticas de repressão nunca foram e nunca serão o caminho para se resolver o problema da violência urbana, intimamente relacionada às desigualdades e à exclusão. O que precisamos é de políticas de desenvolvimento, com destaque para uma educação pública de qualidade, que realmente inclua e ofereça perspectivas que ultrapassem os apelos e as soluções fáceis oferecidas pela criminalidade. Construir um país significa garantir que todos os seus cidadãos tenham condições mínimas para construir uma vida digna. Em ano de eleições e no mês da Consciência Negra, é mais do que oportuno refletir sobre isso.

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Jolivaldo Freitas

Os pais, cada um em seu canto, tentavam dar alento, tranquilidade e segurança para os estudantes que chegavam com suas canetas Bic transparentes, com tinta preta e muita tensão, até mesmo nas conversas e no encontro com os colegas. Falava-se de tudo, numa descontração fingida em quanto se esperava a abertura dos portões do antigo Pavilhão de Aulas, em Ondina, da Universidade Federal da Bahia. Aqueles que não aguentavam a espera se espraiavam pelo chão, limitados às paredes. Muitos procurando sublimar o clima, brincando com os cães que vivem na área. Cães afáveis que aceitavam o carinho de todos, como se ali estivessem para oferecer uma sensação de conforto e tranquilidades. Os cães da UFBa merecem o título de psicólogos. Uma cadela magra, mas com os pelos em bom estado circulava levando sua alegria para todos e alguns a rejeitavam, mas ela continuava passiva em sua saga de agradar, como se soubesse que estava ajudando ao estudante fazer uma boa prova.

Os portões abrem e os estudantes entram numa desordem organizada ou numa organização sem ordem, subindo as escadas, a tensão aumentando e muitos já desviam para os sanitários, face a ansiedade; depois de identificados na entrada da sala de provas sentam nas cadeiras de plásticos e sabem que ali ficarão pelo menos quatro horas lendo e respondendo o que sabe, o que deduz e arriscando naquilo que não sabe e nem vai saber e jogam-se os dados, a sorte.

Na sala com ar-condicionado quebrado, janelas emperradas, um ventilador joga seu vento quente para onde é possível e enquanto se espera a hora da distribuição das provas só os  conhecidos que por acaso caíram juntos na mesma sala conversam, falam do acaso, dos colegas “somo será que estão”, da família e de traquinagens quase que infantis. Hora da prova e quando chama cada um pelo nome vejo que o menino Adriano, que estava três cadeiras à frente na fila ao lado sumira e ninguém viu. O pessoal do Enem a procura nos corredores, nos banheiros, nas áreas comuns, escadas e ninguém sabe, ninguém viu. Fica um certo mal-estar na sala e era o primeiro dia de prova, o fatídico dia da redação.

Silêncio total na hora da prova, depois de passar por um breve período de identificação, inclusive com assinatura de documento comprobatório de presença e para segurança o uso do dedão com suas digitais par não ter erro (interessante é que a tinta dactiloscópica não suja nem gruda). A prova já começou e o silêncio amplia o nervosismo e o rapaz ao lado tosse, uma tosse nervosa sem parar. A moça do outro lado – que me disse trabalha na área de segurança – come barrinhas de cereais sem cessar. 13 horas. Meia hora após o início das provas e ela já tinha comido 5 barrinhas. Pensei: “vai ter dor de barriga durante ou depois”.

Na linha das cadeiras de frente – e eu fiquei no fundo como os malandros das salas de aulas faziam antigamente e ainda devem fazer – um rapaz balança as pernas como se fosse decolar e ele foi o primeiro a sair da sala, com duas horas de duração da prova. A menina do meu lado que comia as barrinhas pediu para ir ao banheiro. E assim foi se sucedendo e cada gesto mostrava a tranquilidade ou intranquilidade nas respostas dos gabaritos. Uns mordiam a caneta, outros riscavam o caderno de apoio e rascunho, uns olhavam o teto esperando o estalo de padre Vieira; e a maioria com a cabeça baixa, olhos colados nas folhas. Aos poucos a sala foi ficando vazia até restarem os três últimos que tinham de sair juntos depois de assinarem documento garantindo que o Enem foi aplicado com lisura. Foi o primeiro dia. E quem desceu foi recepcionado pela simpática cadela que procurava a todos como se preocupada com cada um.

No segundo domingo, uma semana depois, a mesma tensão. Uma novidade: os pais se procuravam, pois, foi passada a notícia, por Facebook e Whats App – claro – de que algumas meninas haviam sido estupradas dentro do campus da UFBa em Ondina. E já se perguntavam o que seria quando a filha fosse aprovada pelo Enem e passam a estudar na universidade. Um pai que me conhecia como jornalista me chama e pergunta se era verdade e eu disse que pelo menos naqueles dias do Enem não houve nenhuma notícia sobre estupro, que só podia ser mais uma fake News. Subi para a sala onde faria a prova e ciências exatas e suas correlações.

O mesmo clima, a mesma tensão, os mesmos ri1ues nervosos e a menina não comia mais barrinha de cereais, acho que deram dor de barriga e agora ela comia salada de frutas e outra menina abriu uma tupperware e saiu um maravilhoso cheiro de churrasco que quase enlouquece a sala dom tanta gente que foi sem almoçar, inclusive eu, mas não tinha nada no regulamento do Enem que proibisse levar churrasco, sardinha, feijoada ou comida vegana. E a prova transcorria num cheiro de churrascaria gaúcha. Mas ninguém se queixou e os orientadores até que tentaram abrir as janelas emperradas para que o odor amainasse.

Contei que das 60 cadeiras seis estava, vazias. As pessoas tinham desistido ou adoecido, ou viajado ou deixaram para o ano seguinte. Interessante é que a prova de exatas parecia menos tensa para os estudantes: ou sabiam muito ou nada sabiam e com menos de três horas de duração mais da metade dos alunos já tinha ido embora. Não esperei até o final. Assinei o caderno de questão, levantei, com o pensamento desejei sorte e sucesso para todo mundo e desci as escadas. Fui recebido pela cadelinha magra e simpática. Fiz carinho e disse adeus. Vou voltar lá, dias desse e levar para ela uma boa ração. Quem sabe um docinho. Mas acho que o reitor da UFBa deveria fazer homenagem. Dar uma medalha para ela que nem sei o nome, garantir uma ração melhor e com mais sustância e sabor, quem saber um bom lugar para dormir sem chuva e sem frio. Ela que foi de grande ajuda. Coração mais humanitário. Merecia até uma redação. E eu fiz.

Escritor e jornalista: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.


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