O Brasil sabidamente tem um time inferior ao da Alemanha mas, o placar da semifinal foi algo assustador! Uma análise do passado até o dia do jogo deixa claro o porquê de termos perdido: a competência na preparação. A seleção alemã tem um time formado há anos, com um esquema de jogo definido que evoluiu das duas últimas copas para cá. Sendo que na escolha de jogadores houve uma bela mescla entre jovens, como Kross, e maduros jogadores, como Klose. Assim, a responsabilidade estava dividida entre os mais experientes e os mais novos que seriam puxados por esses.

Para se adaptar ao Brasil, a Alemanha escolheu um refúgio numa cidade pequena no litoral da Bahia, com alta temperatura para dar o fortalecimento físico e mental aos jogadores no intuito de jogar todos os minutos de todas as partidas em alto nível. Os alemães tiveram aulas sobre a cultura brasileira e a língua portuguesa, interagiram com os nativos com alegria e muita simpatia.

Pronto! Os alemães conseguiram aliar seu alto nível técnico dentro de campo às tão importantes questões extra campo que fazem a diferença durante as partidas. 
A Alemanha ali se tornou a melhor seleção da copa no quesito físico, tático, técnico, mental e clima de grupo, mesmo que não viesse a ser campeã, porque nem sempre o melhor vence, a Alemanha é um exemplo a ser seguido.

Com esses requisitos era natural que as demais seleções temessem os alemães. Portugal não o fez e tomou uma sonora e acachapante goleada de 5x1, status de favorita reafirmado.
Após tal feito, a coragem de enfrentar a Alemanha de igual para igual desapareceu. EUA e Argélia fizeram jogos quase perfeitos jogando na defesa, fechando espaços e dando muito trabalho nos contra ataques a Alemanha, mas saíram derrotados, diferentemente de Gana que chegou muito perto da vitória, mas sofreu com o empate no fim. Coisas do futebol que o tornam apaixonante. A França jogou sabendo que a Alemanha era superior e foi derrotada no detalhe. Quem erra menos vence em jogo de copa, quando o nível técnico é um pouco diferente e um erro foi o suficiente para a eficiência alemã ser posta em prática, 1x0.
Classificada, a Alemanha encontra pela frente o Brasil jogando em casa, com apoio de seu torcedor e vindo de uma boa classificação contra a Colômbia, mas sem seu craque Neymar.

A seleção formada há apenas 1 ano, vinha de uma copa das confederações feita em baixo nível técnico com um único bom jogo. A final contra a Espanha que tornou o Brasil campeão e iludiu muitos, principalmente, a quem nos regia, o técnico Felipão. Passada a copa das confederações, Felipão teve tempo suficiente para testar jogadores novos e dar chances aos mais antigos. Tínhamos ali a oportunidade de formar um grupo mais forte e construir um sistema tático e técnico mais eficiente. Naquele momento Felipão poderia ter formado o grupo com a mescla entre jovens e experientes jogadores que assumem o peso e responsabilidade. 

Pela idade, numa situação hipotética teríamos à disposição, os experientes Robinho, Ronaldinho Gaúcho e Kaká e, entre os mais novos Coutinho que despontou no Liverpool e Jonas que já não é tão jovem, mas é há 3 anos artilheiro absoluto do Valência da Espanha. 
Bom, para nosso azar, Felipão não buscou essas opções, cabia ao nosso treinador procurar esses jogadores para assumir a responsabilidade como fez com Júlio Cesar e que deu certo. Por mais que a condição física de Kaká fosse ruim, será que este após um forte trabalho físico não conseguiria realizar de 7 partidas em alto nível físico? Será que Ronaldinho Gaúcho que pratica um futebol mediano para bom com lampejos do jogador que foi um dia, muito por sua vida desregrada, após uma boa conversa e preparação, não realizaria 7 partidas em alto nível, tendo lampejos decisivos como Klose pela Alemanha? E Robinho, tão criticado por onde passa mas que na seleção sempre cumpriu seu papel em alto nível, dando a vida pelo time, será que não seria opção? Coutinho e Jonas, destaques em seus times na Europa, não mereciam oportunidade?

Bom, jamais saberemos. Felipão sequer, no decorrer do ano após título, deixou existir tal possibilidade. Tivemos que aguentar os caprichos. Henrique, reserva no Napoli, é o maior exemplo disso. Teríamos que ver Neymar assumir a responsabilidade de craque da seleção sem ter ninguém para dividí-la. Assim, o Brasil foi para copa idêntico a copa das confederações com esquema falho e várias fragilidades e com um adendo negativo: os jogadores em nível técnico muito abaixo do ano anterior e, com uma preparação ridícula na Granja Comary, lotada de políticos e pessoas influentes, em razão da copa ser realizada no Brasil, sem o devido isolamento e sem trabalhos táticos, somente coletivos, uma das maiores falhas da comissão técnica.

Aos trancos e barrancos, o Brasil passou pela Croácia, empatou com o aguerrido e frágil time mexicano, despachou os já eliminados camaroneses, sofreu nos pênaltis com o veloz, pequeno e limitado time chileno e trouxe o alento para os torcedores numa vitória sobre a boa Colômbia, sem futebol vistoso mas com vontade, raça e superação.

Com isso, o Brasil, de forma equivocada, repetiu o erro português e foi para cima da Alemanha, o que não durou nem 5 minutos. Após a pressão inicial brasileira, os alemães colocaram a bola no chão e fizeram velozes trocas de passes com uma transição impressionante entre defesa-meio-ataque. Eles estudaram a seleção brasileira. Klose, o maior artilheiro de todas as copas, jogou nas costas de Luiz Gustavo e junto com ele subia em bloco e em linha um fortíssimo meio de campo com refinado toque de bola regido por Kross, Muller, Ozil, Schwisenteiger e Kheidira. Ou seja, uma linha invejável de 5 jogadores com Klose um pouco mais a frente forçando a saída de Luiz Gustavo de trás dos zagueiros.

Nas bolas paradas e jogadas laterais parte dos jogadores se adiantava, a outra parte esperava passes mais atrás. Resultado: a partir do 10º minuto, o banho tático, técnico e físico começou a ser decretado e durou apenas 20 minutos, com a Alemanha fazendo 5x0 no estádio lotado de brasileiros. Impressionava a velocidade que os alemães jogavam e como os brasileiros não acompanhavam o ritmo, faltava organização tática e preparo físico. Os jogadores brasileiros com a língua de fora, mortos de cansados com apenas 30 minutos de jogo, sem entender o que acontecia.

No segundo tempo, Felipão, como o resto do mundo, enxergou o buraco no meio e colocou Ramires e Paulinho para evitar mais uma saraivada de gols. O jogo já estava definido e os gols alemães e o gol de "honra" brasileiro no segundo tempo foram para somente fechar o script. Jogando recuado, com marcação forte na saída de bola e contra ataques, o Brasil poderia ter repetido o feito realizado contra a Espanha, sem se apequenar, aproveitando-se da lentidão da zaga alemã e os espaços deixados nas laterais ou, mesmo jogando assim, a Alemanha poderia impor sua melhor qualidade e vencer, reforçando a alegria que é a imprevisibilidade do futebol. O certo é que jamais poderíamos ver a nossa seleção ser tão humilhada como foi na frente de 200 milhões de brasileiros e os quase 1 bilhão de pessoas do mundo que assistiam a partida.

Ricardo Borges Maracajá

Advogado, Especialista em Direito Tributário e Diretor Jurídico do Esporte Clube Ypiranga

Por: Marcos Rogério Sampaio
Diretor da Granmarcos                                                                                                              

Os primeiros dados do Censo divulgados pelo Instituto Nacional de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o número de domicílios vagos no país é maior que o déficit habitacional brasileiro.

Existem hoje no Brasil, segundo o censo, pouco mais de 6,07 milhões de domicílios vagos, incluindo os que estão em construção. O número não leva em conta as moradias de ocupação ocasional (de veraneio, por exemplo) nem casas cujos moradores estavam temporariamente ausentes durante a pesquisa. Mesmo assim, essa quantidade supera em cerca de 200 mil o número de habitações que precisariam ser construídas para que todas as famílias brasileiras vivessem em locais considerados adequados: 5,8 milhões.

O Brasil possui cerca de 33 milhões de pessoas sem moradia, segundo o relatório lançado  pelo Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos. Desse número, cerca de 24 milhões que não possuem habitação adequada ou não têm onde morar, vivam nos grandes centros urbanos.

O déficit de moradia no país chega hoje a 7,7 milhões, das quais 5,5 milhões estão em centros urbanos. Se o cálculo incluir moradias inadequadas (sem infra-estrutura básica), o número chega a uma faixa de 12,7 a 13 milhões de habitações, com 92% do déficit concentrado nas populações mais pobres.

A população favelada no Brasil aumentou 42% nos últimos 15 anos e alcança quase 11 milhões de pessoas, segundo análise do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) com base na Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE.

Um total de 11.425.644 de pessoas --o equivalente a 6% da população do país, ou pouco mais de uma população inteira de Portugal ou mais de três vezes a do Uruguai. Esse é o total de quem vive, atualmente, no Brasil em aglomerados subnormais, nome técnico dado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Com base nos vários itens de monitoramento das condições de moradia, que levam em conta, por exemplo, o acesso a serviços de saneamento, o material de construção usado e até o número de pessoas que dormem por cômodo, o Ipea concluiu que 54,6 milhões pessoas nas cidades vivem em situação inadequada. Isso equivale a 34,5% da população urbana.
 
E um estudo do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos, em 2000, mostrava, na América Latina, déficit de 51 milhões de moradias.

Marcos Rogério Sampaio
Diretor da Granmarcos / Colaborador do Portal Planeta Voluntários
http://www.planetavoluntarios.com.br

Prof. Osvaldo Bastos

Desde o tempo da Guerra Fria, senão até mesmo antes, o mundo vem sendo disputado por ao menos quatro forças políticas: o Liberalismo, o Socialismo Fabiano, Socialismo Fascista e o Socialismo Comunista. As demais se juntam a essas para fazer coro de bandeira e volume de multidão.

Agora as novas adaptações do marxismo através de neomarxistas como Gramsci e Lukács, via Escola de Frankfurt, estão resultando, no já famoso, Marxismo Cultural, que tantas transformações têm empreendido nas Ciências Sociais, Pedagogia, Filosofia e Direito.

Talvez, a questão mais importante de tudo isso é saber se aquilo que tantos falam e defendem é, de fato, resultado de conhecimento. Não de quem planeja, por que estes sabem, foram conduzidos para saber e fazer. Mas a dúvida é por conta dos que aplaudem e gracejam. Dos que aguardam pra ver.

O Decreto presidencial 8.243/14 provoca alterações profundas que abalam a Constituição, a estrutura institucional do Estado republicano e consequentemente da Democracia, usurpando o lugar de lei que, neste caso deveria estar regulamentando os direitos pleiteados. Ataca o Direito Administrativo quando, através de uma reengenharia institucional, tenta fazer constitucionalidade, legalidade e justiça, onde há, apenas, Teoria Política revolucionária aplicada.

Em Cadernos do Cárcere (vol. 1), Gramsci define, analisa e propõe como estratégia rumo à “Conquista do Estado”: “Os socialistas parlamentaristas trabalham no interior das coisas, [...] As grandes massas, que com sua intervenção modificam objetivamente as relações sociais, organizam-se entorno do Partido Socialista. [...] A formula ‘conquista do Estado’ deve ser entendida no seguinte sentido: criação de um novo tipo de Estado, gerado pela experiência associativa da classe proletária, um Estado que deve substituir o Estado democrático-parlamentar. [...] é necessário desde já uma rede de instituições proletárias, enraizadas na consciência das grandes massas”.

Temos então um resumo de todo o material que, a Escola de Frankfurt, teve apenas o trabalho de adaptar. Em outras palavras, criou os “novos proletários” e um novo e eficiente, porque sorrateiro, modelo de “revolução”. Os “novos proletários”, os “movimentos sociais” com suas bandeiras setorizadas, mas motivados pela mesma causa de quem lhes financia e na busca do mesmo objetivo: desmontar o projeto moderno, a sociedade moderna, de matriz judaico-cristã, apelidada por Marx de burguesa, juntamente com a nova forma de fazer a revolução, de implantar a “ditadura neocomunista”, a Revolução Cultural.

Dito isso, observa-se que o Decreto 8.243/14, é uma das mais avançadas tentativas de implementar o modelo gramsciano de Estado. Isso porque cabe lembrar que, para Gramsci, a “conquista do Estado” resultaria no “Estado ampliado” que é exatamente a articulação entre sociedade civil e Estado, fundindo-se numa só estrutura.

Por isso, não é estranho, quando o Decreto define: “Art. 2º  Para os fins deste Decreto, considera-se: I - sociedade civil - o cidadão, os coletivos, os movimentos sociais institucionalizados ou não institucionalizados, suas redes e suas organizações;”. Ou seja, o decreto traz a aplicação literal do conceito gramsciano de “sociedade civil”.  Aqui, “sociedade civil” é a sociedade organizada: sindicato, ONG, fundações e movimentos sociais. Quem está fora de uma destas formas de coletivos está excluído das novas formas de participação trazidas pelo Decreto.

Para isso, institui a Política Nacional de Participação Social – PNPS, uma agenda reformista, revolucionária, que tendo como aparato institucional principal, a Secretaria-Geral da Presidência da República, programará e administrará o Sistema Nacional de Participação Social – SNPS. 

É bem verdade que a lei 10.683 de 2003 que “Dispõe sobre a organização da Presidência da República e dos Ministérios, e dá outras providências” já previa no seu art. 3o “À Secretaria-Geral da Presidência da República compete assistir direta e imediatamente ao Presidente da República no desempenho de suas atribuições, especialmente: (Redação dada pela Lei n° 11.204/05)”. No inciso I, do mesmo artigo, está escrito: “no relacionamento e articulação com as entidades da sociedade civil e na criação e implementação de instrumentos de consulta e participação popular de interesse do Poder Executivo; (Incluído pela Lei n° 11.204/05)”.

É interessante observar como, no governo Lula, já estavam sendo preparadas as bases legais para o aparecimento deste Decreto, observando não só as inúmeras alterações feitas na lei 10.683 de 2003, como alterações posteriores, efetivadas pelas leis 11.204/05 e 11.497/07. Observando em detalhes, estas duas últimas, não simplesmente alteram a 10.683/03 e sim, reescrevem quase que completamente a engenharia da Presidência da República com a gestão pública.

O inciso I, do artigo 3°, da 10.683/03, está contemplado no Decreto pelo artigo art. 6º  “São instâncias e mecanismos de participação social, sem prejuízo da criação e do reconhecimento de outras formas de diálogo entre administração pública federal e sociedade civil: I - conselho de políticas públicas; II - comissão de políticas públicas; III - conferência nacional; IV - ouvidoria pública federal; V - mesa de diálogo; VI - fórum interconselhos; VII - audiência pública; VIII - consulta pública; IX - ambiente virtual de participação social”.

Por isso, a questão principal que se torna norte de toda a análise e possível interpretação do Decreto está quando, além de definir todas as instâncias supracitadas, no art. 2°, define “sociedade civil” como ambiente dos coletivos e seus respectivos movimentos sociais. Aí está uma clara e exata adaptação do conceito gramsciano de “sociedade civil”. Que não se engane o leitor desatento, pois, “o cidadão” aí, é somente aquele que está vinculado a algum movimento social, ou seja, ao “novo proletariado”.

As previsões dos artigos 3° e 4° excluem completamente o que está previsto na Constituição como forma de participação popular, tal como, previsto no art. 14 da Constituição, onde está escrito: “A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: I- Plebiscito; II – Referendo; III - Iniciativa Popular. Estas sim, próprias da democracia moderna desde suas origens.

Desta forma temos um Decreto que cria um novo modelo de Estado, efetiva uma reengenharia da gestão pública, afetando inclusive a elaboração do orçamento e as destinações orçamentárias, afasta o Congresso enquanto instituição representativa e consultiva. Descaracteriza assim, a democracia no seu significado moderno, exatamente por retirar o equilíbrio trazido pela regra de “um homem, um voto” e as suas legítimas formas de manifestação.  Tudo isso, baseado na teoria política gramsciana e, seguindo essa perspectiva, rumo à implantação de um Estado comunista.

Karla Borges
 
Venceu o trabalho, venceu o esforço, venceu a seriedade. Venceu quem merecia vencer. Não podemos baixar as nossas cabeças, o momento é de reerguê-las e seguir em frente com dedicação, humildade e determinação. A vitória não nasce pronta, a vitória é fruto de uma preparação, de uma caminhada árdua, onde abrimos mão de uma série de momentos de lazer pelo sacrifício de um trabalho intenso.
Não basta ser artista. Não basta jogar um futebol arte. Não basta ter uma fábrica de craques. Não podemos confiar somente na habilidade, é preciso mais. Trabalho de grupo não pode depender de um, mas da união de todos. É preciso criar estratégias, ensaiar jogadas inesperadas, manter o espírito de luta sempre em estado de alerta.
Constatar o brilho do adversário sem conseguir alcançá-lo, paralisa-nos e é por esse motivo que precisamos continuar caminhando com foco, sempre em busca de grandes realizações. As perdas fazem parte da trajetória e servem para repararmos erros que jamais teríamos cometido se estivéssemos atentos a todos os sinais.
Peçamos a Deus serenidade para que a derrota seja transformada num novo horizonte. O horizonte da seriedade, do empenho, do profissionalismo, da luta. Quedas existem para que tomemos consciência que nem sempre conseguimos ficar de pé, principalmente quando o adversário é bastante superior, mas não resta dúvida que a nação brasileira foi nocauteada ontem e é preciso muita força para reverter a dor em esperança.  Avante, Brasil!Afinal, toda competição tem um vencedor, mas o aprendizado da derrota deve ser tão inesquecível quanto a vitória!
Karla Borges
Professora do Núcleo de Estudos Tributários - NET
 

 

 

Por Marcos Mendes*

O processo de expulsão  do homem do campo, proporcionado pelo modelo industrial de produção e pelo estímulo à produção agrícola em larga escala, promoveu um inchaço dos grandes centros urbanos e a dispersão de comunidades inteiras outrora unidas por laços de parentesco e de amizade. Assim se formou a massa trabalhadora das metrópoles e os problemas decorrentes dessa expansão.

Nas metrópoles assim surgidas ninguém tinha raízes ou tradições, todos vinham de diferentes partes. Uma das formas mais fortes de busca de novos traços de identidade e de solidariedade coletiva, de novas bases emocionais de coesão que representasse o traço de união antes observado nas comunidades que cada pessoa deixou ao emigrar, foi o futebol. Assim, o futebol se prestou a consolidar vínculos de identidade plenos de carga afetiva, por ser um esporte de equipe, exigindo talentos diversos, mas que só funcionam se houver harmonia.

A prática não exige necessariamente um destaque físico, mas sim habilidade e uso malicioso dos movimentos, o que favorece a identificação com o torcedor. Além do mais não requer material esportivo específico, tudo podendo ser improvisado, do campo à bola, com um mínimo de custos e um máximo de emoção e divertimento. Assim, em cada bairro das grandes cidades podemos observar ao menos um campo de futebol improvisado.

Entretanto, foi no decorrer dos anos 80 que a lógica do “futebol-empresa” foi iniciada e fez aumentar a mercantilização dos principais campeonatos europeus, que passaram a se estruturar em virtude da demanda por transmissões televisionadas e pelo surgimento de novas opções de marketing esportivo. A globalização da economia, aliada a um ambiente político favorável para a transposição das fronteiras nacionais, conduziu o futebol a uma lógica de valorização do capital.

Ao se tornar uma lucrativa e promissora indústria de entretenimento passivo para multidões, o futebol passou a aglutinar poderosos interesses comerciais que logo lhe atribuíram sentidos muito distintos daqueles até então vigentes.

É justamente neste contexto que presenciamos a ascensão do futebol brasileiro. A partir dos anos 30 aos 50, de fato, a popularização do futebol acelerou-se de modo notável, efeito da profissionalização, mas, sobretudo, pela atuação de setores da intelectualidade e da imprensa, que o impulsionaram a se constituir num espetáculo de massa e num elemento da cultura popular.

Assim, apesar de recente pesquisa do DataFolha mostrar que maior que a torcida do Flamengo são as pessoas que dizem não ter time de coração: 25%, (o Flamengo tem 17% e o Corinthians 14%) podemos entender que há uma boa parte de brasileiros que gostam de futebol e torcem muito pelo Brasil! O grande problema, mais uma vez, são os denominados cartolas que, em nome de interesses individuais,  transforma o que se pode chamar de sonho coletivo em forma de obter lucro.

Para traçar um panorama do futebol brasileiro atual, podemos iniciar com a eleição de um brasileiro, João Havelange, para dirigir a FIFA (Federação Internacional de Futebol) em 1974. Essa eleição ocorreu antes mesmo da Copa da Alemanha, logo após a primeira Copa do Mundo transmitida para o mundo inteiro pela televisão, em 1970, no México, a qual o Brasil foi campeão pela terceira vez e um brasileiro, Pelé, foi considerado o maior gênio do futebol e o único jogador do planeta tricampeão mundial.

Quando Havelange assumiu se deu conta que o futebol já era um evento globalizado e, incorporando a visão do capitalismo selvagem, montou um pequeno grupo com empresas como Adidas e Coca-Cola, transformando a federação no império que é hoje. Para 2014, além da Adidas e Coca-Cola serão incluídas a Emirates, Hyundai, Sony e Visa. Não é à toa que Andrew Jennings denunciou, na imprensa francesa em 2006, que Horst Dassler, então presidente da Adidas França, apoiando Havelange, fez grande articulação distribuindo folhetos aos delegados indecisos e com capacidades de influenciar outros, fator fundamental na vitória de Havelange sobre o seu predecessor, o britânico Stanley.

Denunciou também que Dassler também persuadiu a Coca-Cola a financiar os projetos de campanha de Havelange. Em contrapartida o grupo norte-americano obteve o direito de exibir seu logotipo na Copa do Mundo. A partir daí diversas outras entidades de mesmo porte procurou participar. Paul Dietschy, historiador de Futebol, resumiu essa articulação como “um pacto faustiano com as multinacionais”. Pelo seu ato visionário de pressentir o formidável potencial econômico da televisão, o executivo da Adidas criou a empresa de marketing e gestão de direitos, International Sport and Leisure (ISL), em 1983, tornando-se o associado número um da FIFA, que lhe garantiu uma renda confortável.

Fundada em 1904, a FIFA obteve um rendimento de 147 milhões de Euros em 2009, aumentando o seu patrimônio para 795 milhões de Euros. Só em 2009 Joseph Blatter recebeu das mãos de seu sobrinho 487 milhões de euros a título de direitos de difusão, sendo 469 milhões de euros para Copa de 2010, ou seja, 60% do rendimento da FIFA (Relatório Financeiro da FIFA 2009). De Havelange para cá a FIFA tem se envolvido em várias denúncias de corrupção, saindo ilesa porque o futebol tem um insuperável poder de sedução, é a maior das indústrias de entretenimento, e o esporte em si é uma das instituições mais favoráveis à lavagem de dinheiro devido a sua subjetividade. De acordo com a divulgação em 2007, de Jérome Jessel e Patrick Mendelevitch, especula-se que o presidente atual, Joseph Blatter, ganha em torno de 4 milhões de dólares por ano.

É importante salientar que esse modelo montado pela FIFA é reproduzido com muita propriedade pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) através do seu eterno presidente, Ricardo Teixeira, indiciado em vários processos por corrupção. Com o fim de investigar esses indícios, já se tentou realizar diversas CPI’s – Comissão Parlamentar de Inquérito. O fato é que quando alguém consegue, como se fez no ano de 2000, o lobby dos deputados beneficiados impede dizendo que a CBF é uma entidade privada. O mais intrigante é que quando a seleção entra em campo é o hino do Brasil ou o da CBF que toca? E as cores do padrão coincidentemente também não são as cores da nossa bandeira? Ou seja, quando interessa a CBF é patrimônio do país, mas quando não interessa é considerada entidade privada!

O império da FIFA e da CBF é tão poderoso que já está havendo uma discussão no Brasil sobre cedermos a nossa soberania para elas. Para se ter uma idéia do poderio da FIFA, podemos citar o exemplo da Copa da Alemanha em 2006. Na terra da cerveja a FIFA impôs que somente a cerveja americana Budweiser poderia ser vendida nos estádios. Parece brincadeira, mas foi o que aconteceu, para desespero dos alemães.

Para nos dar suporte podemos analisar dois exemplos clássicos: a Espanha, país que privilegiou o planejamento, depois da Copa, em 2002, e da olimpíada, em 2012, se transformou num país moderno e não mais a porta dos fundos da Europa, demonstrando a importância do planejamento. Por outro lado, o que se fez com a Grécia, nas olimpíadas de Atenas, em 2004, tem relações diretas com a crise econômica atual. O legado deixado para o povo após a Copa na África do Sul, apesar das tentativas cosméticas de esconder a realidade, foi um país com obras inacabadas, verdadeiros elefantes brancos , taxa de desemprego altíssima, com o fim dos empregos temporários, e um endividamento gigantesco do país para os próximos 40 anos.

No Brasil de 2014, com as carências que temos, precisamos nos preocupar com investimento em saúde pública, educação pública, esporte, cultura, lazer, habitação popular, reforma agrária, preservação do meio ambiente, transportes coletivos públicos de massa a base de energia limpa, ciclovias, entre outros. Porém, pelas medidas iniciais, as projeções futuras apontam para previsões bem desanimadoras.

Analisando o caso da Vila Olímpica da Bahia, conhecida como Fonte Nova, e o Ginásio Poliesportivo Antonio Balbino, conhecido como Balbininho, palcos de indescritíveis emoções vividas por todos nós, percebemos que a fúria dos interesses privados das construtoras do mercado imobiliário alinhada aos desvios éticos dos nossos gestores municipal e estadual, serão responsáveis por crimes socioambientais e contra o patrimônio histórico irrecuperáveis no município de Salvador, uma das capitais que irá sediar a Copa 2014.

Recentemente foi encaminhada, pelo Governo do Estado, a Proposta de Manifestação de Interesse (PMI) com o enfoque na sustentabilidade econômica, ambiental e legal. Desde já, podemos notar que o enfoque social foi esquecido. A opção imposta foi a da Parceria Público-Privada (PPP). A FIFA encaminhou, então, empresas internacionais que lhes prestam serviços de auditoria e consultoria empresarial e que, estranhamente, participaram da PMI. Um exemplo foi a Ernestian, que participou da Copa da Alemanha em 2006, e a outra é a KPMG que está no Brasil e participou da PMI de Salvador.

O que está por trás disso é a imposição do modelo de estádio, ou seja, uma Arena exclusiva de futebol. E por que isso? A intenção é aproximar mais as arquibancadas do campo para favorecer as filmagens e, consequentemente, as transmissões televisivas. E para que? Para beneficiar os empresários e cartolas ligados a FIFA. E como é que se faz? Um bom exemplo é a empresa de Marketing do empresário da Adidas Dassler, a ISL: ela compra os direitos de transmissão diretamente na FIFA e vende a preço de ouro às cadeias de televisão. Um acordo que traz ganhos somente para os acionistas da Adidas e para um grupo seleto da federação, simples assim. Para se ter uma idéia de valor, a FIFA ganha em torno de 4 a 6 bilhões de dólares numa Copa.

Todo o esquema já vem traçado e aí é que se deveria considerar a soberania do país e do estado. É nesse momento que os Gestores do País e do estado deveriam demonstrar de que lado estão. No caso da Bahia o Governo, da mesma forma como se posicionou em seus três anos e sete meses de gestão pública, optou pelos empresários em detrimento da população e mais uma vez o Consórcio OAS/ODEBRECHT foi beneficiado. Será mera coincidência eles serem os principais financiadores do governo passado e do atual governo?

Mais uma vez, no caso da Fonte Nova podemos identificar três graves problemas:

  •   o primeiro diz respeito ao patrimônio imaterial, ou tombamento. Sabe-se que em 1959 o Dique do Tororó acompanhado de todo arcabouço arquitetônico do entorno foram transformados em patrimônio imaterial do estado da Bahia. Como a Fonte Nova foi construída em 1951 e o Balbininho em 1959, antes do tombamento, ambos também estão tombados. Essa é a avaliação da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), seção Bahia e da DOCOMOMO que é uma organização não-governamental, sem fins lucrativos, fundada em 1988 na Holanda, com representação em mais de quarenta países, cujos objetivos são a documentação e a preservação das criações do Movimento Moderno na arquitetura, urbanismo e manifestações afins. O IPHAN, seção Bahia, omitiu-se e não se manifestou até o momento, com  parecer a respeito, permitindo assim o avanço da irregularidade;
  •   o segundo é que o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público Estadual (MPE) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE) apontaram 11 irregularidades no contrato de PPP – Parceria Público-Privada. Uma delas é que de acordo com a Lei de PPP o concessionário veda que o governo tome empréstimo e repasse para as empresas antes do término das obras. O fato é que o governo solicitou  empréstimo ao BNDES no valor de R$ 400 milhões oferecendo como garantia o Fundo de Participação do Estado (FPE) e R$ 50 milhões ao Desenbahia. Como o valor orçado da obra é de R$ 591 milhões, o Consórcio OAS/ODEBRECHT desembolsaria só R$ 151 milhões. Além disso, de acordo com o contrato, o governo baiano, após a construção, terá de arcar com o valor de R$ 107 milhões anuais por 15 anos, num total de R$ 1,6 bilhões, quase 3 vezes o valor orçado.

Além disso, o Consórcio ganha o direito de explorar a Arena por 35 anos. Ocorre que, pelo contrato, caso não seja obtido lucro anual de R$ 23 milhões está previsto o ressarcimento, pelo Estado, de 50% desse valor, ou seja, R$ 11,5 milhões durante 35 anos, num total de R$ 402,5 milhões.

Como o próprio BNDES já divulgou que o único estádio do Brasil que se sustenta é o Mineirão, é certo o Estado da Bahia pagar a multa, ou seja, o Consórcio que administrará o empreendimento participa de uma PPP sem nenhum risco que é a razão de ser da parceria e ainda tem um lucro absurdo.

O pior é que não foram apresentados nem pela concessionária nem pelo governo, os cálculos que resultaram nesse valor. Isso está cheirando acordinho espúrio escancarado em cima das eleições, que tanto o atual governador tem interesse.

Vale salientar que essa proposta de Arena exclusiva para futebol só os empresários e cartolas da FIFA lucram, enquanto que uma parcela da sociedade ficará exposta ao caminho do crime. De acordo com a Organização Mundial de Saúde para cada 1 dólar investido em esporte poupa-se 3 dólares na saúde pública. Só na área da piscina freqüentavam, aproximadamente, 1.300 pessoas por semana: crianças carentes, idosos, atletas profissionais e amadores, polícia militar e exército;

  •   o terceiro problema, entendemos ser o mais sério, é que outras empresas deram propostas alternativas. Uma delas propõe a recuperação e revitalização da Fonte Nova, respeitando o tombamento, aproveitando todas as colunas verticais, que são as mais onerosas e estão em perfeito estado. O estudo da empresa diz também que várias estruturas horizontais podem ser aproveitadas. Na proposta se preservaria o centro olímpico com uma inovação tipo sandwich: uma piscina olímpica em baixo; um centro aquático no meio com mais duas piscinas, sendo uma para saltos ornamentais e outra para treinamento de crianças, idosos, deficientes, com prática de hidroginástica. Na parte de cima ficaria o ginásio poliesportivo multiuso. No entorno teriam estações de ônibus, shoppings centers, praças elevadas interligando Nazaré a brotas, etc. O valor total seria de R$ 470 milhões, sem empréstimos tomados pelo governo e sem nenhum aporte financeiro do Estado por 15 anos, nem multa por não atingir lucro inventado, ou seja, a única contrapartida seria a concessão por 28 anos.

O jornal A Tarde, em sua edição deste sábado (17), trouxe uma denúncia que mostra que as seguidas dispensas de licitação por parte do governo do Estado continuam a gerar polêmica. Desta vez, o alvo foi a Fonte Nova. O Ministério Público Federal (MPF) pediu cópia do contrato com ausência de processo licitatório de R$ 1,2 milhão, entre a Secretaria Estadual do Trabalho e Esportes (Setre) e duas empresas de engenharia, para serviços de fiscalização na obra de demolição do estádio. A procuradora da República Juliana Moraes quer analisar a justificativa legal da Setre para a dispensa da licitação, por via emergencial. A profissional quer saber por que o edital de licitação para fiscalização das obras não foi lançado junto com o edital do projeto, em outubro de 2009.

Enfim, não podemos esquecer que a Copa só são 45 dias e que depois a vida continua e as pessoas também. A inclusão social e a prática de esporte cultura e lazer têm que estar no planejamento do governo. Não podemos esquecer-nos do Pan-Americano, em 2007, que custou dez vezes mais do que estava orçado e que foi feito com dinheiro público quando deveria ser feito pela iniciativa privada. Vocês sabiam que o estádio Engenhão, recentemente construído, não servirá para a copa e que o parque aquático Maria Lenk não é adequado às Olimpíadas? Então para que se construir algo novo quando é bem mais interessante recuperar o que já estar construído? Vale a reflexão! Não podemos deixar que aspectos fundamentais dos estados dos países sedes sejam pisoteados pelos interesses comerciais da FIFA e pelos descaminhos e acordos ilegais dos nossos governantes.

*Marcos Mendes é Geólogo, Especialista em Gestão Pública Municipal e Governamental, Especialista em Meio Ambiente, Mestre em Geologia Ambiental e Candidato ao Governo do Estado da Bahia pelo PSOL.


Prefeitura de Salvador

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