A mala vermelha de minha mãe

Nestor Mendes Jr.

Sujeita pacata e honesta, minha mãe esqueceu sua mala no último Domingo de Cinzas, no porta-malas de um Uber, na porta de sua casa, na Rua Paraná, na Pituba.

Quase aos 79 anos, que completará no próximo Abril, D. Celeste – veja que até o nome é divinal – voltava de um retiro carnavalesco na casa de um dos seus seis filhos, em Itabuna, onde fora pajear os seus netos Loro e Tonton.

Não querendo dar trabalho aos seus bebês homenzarrões – mãe acha que nunca crescemos – pediu a sua companheira de viagem, Nívea, que havia conhecido nas horas de deambulamento pela BR-101, que requisitasse um Uber, já que ela só opera bem as teclas on e off, verde e vermelha, do seu celular. Sendo que ainda falha na off, esquecendo-se muitas vezes de findar a ligação. Glenn Greenwald seria totalmente dispensável para fazer a operação Vaza Jato do sigilo telefônico dela.

Contudo, as forças ocultas que operam no país não precisam gastar vela nem fakenews com a nossa progenitora. A mala que ela esqueceu no Uber – de um motorista que é farmacêutico e trabalhou na Drogasil – é vermelha, sim, mas minha mãe não é comunista. Nem vermelha! Deuzulive, longe disso!

É católica fervorosa, que reza suas missas na igreja de Nossa Senhora da Luz, beija a toalha dos altares de todos os santos e, quando chega em casa, ainda faz genuflexões diante da missa eletrônica na TV Aparecida.

De socialista ou comunista, o mais próximo que ela tem é Jesus Cristo, que dividiu o pão, incluiu ao seu lado os excluídos e disse que todos eram irmãos. Ah!, e também seu segundo filho, que tem umas ideias um tanto “diferentes”, como esse argentino, torcedor do San Lorenzo e que está acomodado no trono de Pedro.

A sua consciência política é cristã. De uns pequenos imóveis que meu pai deixou, em Itapuã, tira sua renda. Um dos inquilinos, eletricista de profissão, devia aluguel há mais de seis meses. Ela precisava de um conserto no quadro de energia de um desses imóveis e contratou a mão-de-obra do seu devedor. E pagou. Quando perguntei porque não fez um “encontro de contas”, ela me deu uma boa invertida: “porque ele vive do trabalho”.

A mala vermelha, com certeza, portanto, não trazia o ouro de Moscou. Ou, mais moderno, de Pyongyang. Nem vinha de outra paragem comunista, – ou ex-comunista, já não sei mais, para chiliques tumulares de Máo Zédōng – a China, com o seu CoV, o já nosso íntimo corona. Lá ele!

Na mala vermelha de minha mãe não há nada de valor: umas três blusas de sair, um vestido que ela ganhou de Lívia – sua filha caçula e mãe de Loro e Tonton – e que só usou uma vez, camisetas de uso diário, calcinhas e soutiens, um maiô Catalina azul – que agora é Club del Sol – e que trajou em Itacarezinho com os seus netos.

Não me contou, mas certamente contém alguma bugiganga de feira, um mimo para o seu bisneto Vicente, e algum doce. Minha mãe – doceira de mancheia – adora todas as fórmulas culinárias que contenham açúcar. Do leite de coco faz o bolo; e do bagaço do coco, uma cocada.

A mala vermelha de minha mãe tem a bagagem de uma sobrevivente: uma mulher nascida na roça do Riacho Claro, lá pras bandas do Passé, filha de Lilina e Nezinho; que teve um CA muito agressivo no intestino, mas que conseguiu ainda parir sua filha caçula, para espanto de seu irreverente médico, Dr. Eduardo Fahel, e de seus compadres da Ribeira, Antônio e Ivone.

Vive só, com Deus e o seu papagaio Louro, herança de meu pai. É a sua companhia constante, assobiando três vezes depois que dizemos “Bahêea”; cantando “Ave Maria” e repetindo um “ói eu, louro, cheguei”, que era a saudação que meu pai usava quando chegava em casa e chamava minha mãe de Celestina. E Louro só gosta de comida quente. Duas vezes por semana, há mais de 25 anos, Louro divide a companhia com Rosete, seus braços direito e esquerdo – nada a ver com esquerdismo, táoquei, pessoal? – na direção de sua casa.

Na segunda-feira à noite, como a mala vermelha de minha mãe não tinha sido devolvida, ela disse que estava fazendo uma prece para que iluminasse o coração do motorista – o farmacêutico precarizado, que engrossa a fila dos 11,9 milhões de brasileiros desempregados ou, pior ainda, dos 65,7 milhões que não têm interesse em buscar emprego e nem estão trabalhando – trabalham, mas são invisíveis nas estatísticas.

A devolução da mala vermelha de minha mãe, na verdade, é o que menos importa em sua oração. Ela quer, de fato, provar que não foi em vão a sua fé de quase 79 anos em um mundo de justiça social, honestidade, paz e amor, nesse vale de lágrimas de nós, todos nós, os degredados filhos de Eva, agora, para o bem e para o mal, cyberconectados e uberizados, mas, paradoxalmente, distantes.

Amém! Não passarão!

Nestor Mendes Jr. é jornalista

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