MORAES MOREIRA – A voz do cantor do trio não se cala

Havia combinado com Aroldo Macedo pra organizarmos um happening pelos 70 anos do Trio Elétrico Dodô & Osmar, em um grande concerto ao ar livre em Salvador, na frente da pirâmide da Assembleia Legislativa da Bahia. E fui, então, assistir, em fevereiro deste ano, ao show dos Irmãos Macedo. E depois de muita insistência de Armandinho, Betinho, Aroldo e André, finalmente Moraes Moreira deixou o Rio de Janeiro e veio aportar, para delírio nosso e de toda a plateia, no palco que justamente contava a história da invenção genial de Dodô & Osmar, o trio elétrico.

E se o pau elétrico – depois, guitarra baiana – foi a alma do trio, Moraes emprestou-lhe o corpo, sendo o primeiro a botar voz naquela parafernália de guitarras, metais e sopros amplificados em bocas-de-alto-falante. O próprio Moraes é quem conta isso na letra de “Cantor do Trio”: “Eu sou um cantor do Brasil, que canta em cima do trio, jogando através do fio, uma energia pra massa”.

Aroldo Macedo relembra que foi Moraes quem ajudou para que a gravadora Continental gravasse o disco do Armandinho, Dodô & Osmar, “Jubileu de Prata”, no final de 1974, no qual o próprio Moraes interpretou o frevo do mesmo nome, composição de Dodô e Osmar.

No Carnaval do Jubileu, em 1975, Moraes, hospedado na casa de Osmar, sobe no trio, pega o microfone e entoa: “Jubileu de Prata, luz em cascata, explosão de alegria, multidão na folia.” Era a primeira voz do trio elétrico, até então, instrumental.

No disco de 1974, já há uma gravação instrumental de “Double Morse”, também da dupla Dodô e Osmar – até os anos 1980, o repertório do trio era 20% sem voz – e que, em 1977, viraria “Pombo Correio”, com letra inspiradíssima do menino de Ituaçu, na Chapada Diamantina: “Pombo correio voa depressa, e esta carta leva para o meu amor”.

Moraes nos deixou ontem, aos 72 anos, mas a voz do cantor do trio não se calará jamais, porque ele embalou os nossos sonhos delirantes da mocidade e nos legou, no seu grande bazar brasileiro, algumas das pérolas mais preciosas do nosso cancioneiro, como “Meninas do Brasil”, “Sintonia”, “Acabou Chorare”, “Vassourinha Elétrica” “Bloco do Prazer”, “Alto Falante” e “Pão e Poesia”.

Evoé, Moraes!

Nestor Mendes Jr é jornalista

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