Ninguém erra sozinho

“Você erra, mas não erra sozinho!”

Foi com esta frase cortante que conhecido filósofo dos tempos atuais, iniciou uma correspondência endereçada a um pai completamente angustiado por não conseguir se entender com os filhos.

O filósofo continuou estruturando conceitualmente a sua tese com os argumentos que narro, a seguir:

Muitos conflitos entre gerações são decorrência de certos comportamentos ociosos e parasitários, próprios e característicos da contemporânea pequena-burguesia que se inspira nos mandamentos de uma sociedade capitalista e consumista. Quase sempre, os mais jovens seguem os passos dos antigos apenas em busca da proteção e conforto e, com isso, acabam tornando o regresso histórico ao equilíbrio e harmonia familiar cada vez mais difícil.

Os jovens de hoje vivem num mundo de valores completamente diferentes daquele que foi vivido pelos pais. Os conflitos familiares são decorrência do mundo materialista, consumista, violento, socialmente desigual; bem como de uma relação familiar afetivamente carente ou desequilibrada.

Estes fatores acabam por transformar a criação dos filhos num processo que peca por ser demasiadamente protetor. Além disso, para compensar as carências motivadas pelas ausências físicas e afetivas, os pais acabam satisfazendo todos os desejos e caprichos materiais das crias de maneira graciosa e sem exigir destes o mínimo esforço, reconhecimento ou retribuição.

É inquestionável que a mais nova geração da burguesia foi criada em redomas e numa zona de extremo conforto tornando-se, por consequência, incapaz de despertar qualquer sentimento de compromisso, dever e, até mesmo, obrigações diante a própria sobrevivência.

Por outro lado, os pais destes jovens economicamente privilegiados se sacrificam em nome do amor paternal e por causa de um sentimento de culpa que os persegue. Desta forma, eles acabam por afastar dos filhos a percepção crítica para os comportamentos e valores de conteúdos nobres que, atualmente, estão sendo maciçamente subvertidos pelo “ilógico” do politicamente correto. Não percebem que acabam gerando e sedimentando os vícios da ociosidade e da preguiça em pessoas que já estão demasiadamente expostas aos apelos da publicidade fútil, do consumo fácil e da ideia falsa de felicidade instantânea.

Os representantes da geração anterior acabam sendo levados de roldão e cedem mais do que deveriam ceder para evitar conflitos, aborrecimentos e transtornos corriqueiros que acabam por atrapalhar o cotidiano das atividades profissionais e afetar, principalmente, as relações conjugais.

Neste cenário de valores invertidos e conflituosos, os filhos não se sentem gratos aos pais e nada valorizam, a não ser quando perdem o bem e o bom.

Quando os pais se dão conta, já renunciaram até mesmos às coisas mais simples que seriam capazes de consolar, dar prazer e renovar o espírito. Seguem à cada dia deixando de ser gente e passando a ser, aos olhos dos próprios filhos, apenas cifras. Do ponto de vista dos filhos, tudo que é conseguido de forma fácil não é valorizado e ainda se transforma em direito adquirido, ficando todas as obrigações correlatas sobre a responsabilidade dos pais.

Por outro prisma, é importante considerar o fato de que, num grau maior ou menor, todos os seres humanos são influenciados por sentimentos de luxúria e libido.

Em todo princípio de relacionamento, o que une um casal é a paixão, traduzida como química da pele, o erotismo. Os laços conjugais se formam na busca recíproca pela beleza e pelo desejo explícito de obtenção de satisfação física e prazer.

Acontece que o matrimônio surgia antigamente (hoje não mais); como uma alternativa de se consumar o ato sexual dentro de um contexto natural, legal ou, hipocritamente, considerado aceitável pela sociedade e pelos dogmas religiosos.

Entretanto, a realização do sonho conjugal gera como consequência a produção de filhos e, a partir daí, tudo pode mudar. O obcecado desejo pelo sexo, para o casal ou para um dos parceiros, cede lugar para a criação dos filhos e, com o tempo, a libido vai se exaurindo. Em geral, a relação que era antes tão intensamente luxuriosa e sexualmente excitante vai se transformando, aos poucos, numa velha amizade na qual o sexo quase sempre passa a ser praticado de forma desinteressada, como num ato de caridade e comiseração.

Quando a intensidade do desejo sexual da mulher persiste, mesmo diante a experiência da maternidade e não é atendida pelo parceiro, via de regra, ela vai ser amante de outro e, vice-versa.

Aos pais resta a alternativa de assumir a responsabilidade pelos atos que praticou. Até o fim da vida. Seja próximo ou distante fisicamente. Onde for possível cumprir esta sina de forma pacífica. Com sabedoria, sem sacrifícios, livre de conflitos e de sentimentos de culpa.

O filósofo concluiu a sua missiva parafraseando o “Poema Enjoadinho” de Vinícius de Moraes:

 “Filhos? Melhor não tê-los e nem sabê-los!”

Jair Araújo – escritor

Membro Correspondente da ALACIB – Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil,Mariana/MG.
Membro efetivo da SBPA – Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas.

jairaraujo@globo.com

One thought on “Ninguém erra sozinho

  • Maio 23, 2020 at 11:06 am
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    Um raio X, diria minha mãe, hoje melhor seria afirmar, que está crônica é uma tomografia computadorizada de corpo inteiro da sociedade que vivemos. Jair Araújo escreve com o sentimento de um humanista, que caminha no biológico conhecimento do ser humano e na percepção da realidade da construção que nós nefastos seres estamos a construir. Parabéns Poeta Existencial.

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