Um Tiro Pela Culatra

 A população foi surpreendida com o anúncio da antecipação dos feriados de São João, 2 de Julho e 8 de dezembro para os dias 25, 26 e 27 de maio, no estado da Bahia. Em Simões Filho, o feriado pela emancipação da cidade que ocorreria em 11 de novembro, também foi antecipado para a data do dia 27 de maio. Não foi privilégio da Bahia. Muitos governadores e prefeitos embarcaram nesta onda pelo país a fora.

Não sei se as medidas adotadas pelos gestores são fruto da incompetência, da má fé ou se de uma pitada das duas coisas.

O cidadão razoavelmente esclarecido, conhecedor da realidade cultural e do nível de educação e consciência da nossa gente, seria capaz de prever que tais medidas jamais alcançariam o objetivo a que, supostamente, se destinavam.

Talvez alguns outros ingredientes possam ser acrescentados como fatores contributivos para o insucesso dessa aloprada tentativa de manter a quarentena e o isolamento social mais restritivo. Dentre eles, o absoluto descrédito por parte da população em relação ao perigo a que se encontra exposta, fruto, quiçá, dos desencontros de opiniões alardeadas pelas autoridades, pelos representantes das instituições de saúde e, até mesmo, pelos homens de ciência, através da mancomunada mídia sensacionalista e seletiva.

Comenta-se que, atualmente, a ciência vem atravessando um momento de descrédito.    Culpa não é da ciência em si; mas sim, daqueles cientistas que se permitem corromper pelos interesses econômicos dos grandes grupos ou por suas opções politico-ideológicas, não diferentes, pois, dos comportamentos comuns e tão em voga dos nossos políticos.

Prova disso, fake news ou não, são as denúncias de corrupção e malversação dos recursos públicos que deveriam ser destinados a conter ou amenizar o drama provocado pela pandemia que, a toda hora pipocam nas redes sociais e nos poucos órgãos de imprensa que ainda prezam pela ética e pela verdade.

Por mais incrível que possa parecer, apenas os políticos não foram capazes de prever que, dado aos aspectos culturais de características gregária e festeira, associados ao pouco nível de educação, o povo baiano jamais se submeteria ao recolhimento caseiro em função de tal imposição.

Sensato seria intensificar uma campanha de informação para que o isolamento social e a quarentena continuassem a ocorrer de forma mais efetiva, do que precipitar, em mais de 30 dias, feriados que inevitavelmente aconteceriam, sem considerar, inclusive, a hipótese de que, até lá, novos estudos científicos possam, porventura, vir a contribuir com notícias alvissareiras.

Portanto, o que seria para conter o nível da contaminação viral, poderá funcionar de maneira inversamente proporcional ao desejado.

 “O tiro saiu pela culatra”.

 O jornal A Tarde, em artigo publicado na data de 23 de maio, já manifestava a preocupação de que a severa interdição imposta às praias de Salvador, combinada com a concentração de tantos feriados antecipados na última semana de maio, trariam como consequências a elevação do fluxo e da concentração de pessoas, em busca de lazer, sentido às praias do Litoral Norte, onde as ações restritivas e fiscalizadoras são mais frouxas.

O que se viu na noite do domingo foi um verdadeiro êxodo em direção à Ilha de Itaparica, através do sistema Ferry Boat. Neste 25 de maio, o Camaçari Notícias”, veiculou matéria, ilustrada por fotografias, com a seguinte manchete: “Em primeiro dia de feriado antecipado, ruas de Camaçari ficam cheias”.

No centro de Camaçari, significativa parte do comércio funcionou e, nos bairros localizados no subúrbio, como também em certas comunidades de Salvador e do interior do estado, o que se viu foi a população reunida nas ruas, em pândegas.

A antecipação dos feriados, de tão esdrúxula, além de transparecer absoluta falta de visão e competência, confere a qualquer pessoa o direito de pensar que o propósito até poderia ser outro que não o de conter a propagação do covid-19, com o maquiavélico interesse de, quem sabe, obter mais recursos do governo federal, e ainda alcançar futuros objetivos de poder político.

Jair Araújo – escritor

Membro Correspondente da ALACIB – Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil, Mariana/MG.
Membro efetivo da SBPA – Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas.

jairaraujo@globo.com

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