A inconsistência universal da carne

Por Gerson Brasil

Para meu amigo Nelson José de Carvalho

Espera-se a vacina, como se aguarda a chegada da noiva. O sacramento seguido da festa, mas às vezes acontece a demora prolongada e outros desenlaces também ocorrem. A vacina da Oxford só entrará efetivamente na imunização contra o coronavírus em junho de 2021, quando o registro for liberado. A chinesa é mais rápida. Foi prometida para este ano, quem sabe dá apara alcançar o Carnaval, o Réveillon e outras festividades febris. A americana não se tem notícia, as outras estão ensaiando no barracão das escolas de samba.

Enquanto a vacina não chega, a vida segue, do jeito que é possível. Contam-se os mortos e a população abandona o isolamento social, na procura de esquecer a Covid, causadora de dores e agonias. A prestigiada revista “Natura” publicou uma pesquisa, no dia 15 de julho, mostrando que o sistema de defesa do corpo humano pode ser capaz de lembrar da infecção pelo novo coronavírus por um período longo. A autoimunidade viria da célula T. As células T são um braço da resposta imune do corpo e trabalham eliminando as células infectadas, preferencialmente por um vírus.

Às vezes esperar a noiva é cansativo, resulta em aporrinhação. O mesmo se dá com a vacina. Afinal de contas, posso me preparar para o Carnaval? A festa também é a promessa de que os aborrecimentos foram esquecidos. Em alguns lugares, como o Nordeste de Cabral de Melo Neto (“Duas das festas da Morte”), premia-se o morto.  “No caixão, mais se inaugura do que morre, ora sua própria morte, ora seu próprio vivo, em dia de posse”.

A resiliência na quebra do isolamento ultrapassa a birra, a inconsequência. Toma a cena o esquecimento do desprazer, porque só as boas lembranças são bem-vindas; como ressaltou Freud, “o mecanismo de esquecimento tem validade quase universal”. O esquecimento é o inconsciente e está fora do cálculo da racionalidade; e torna-se tão mais agudo, devido à falha da ciência média.

Ok com a racionalidade, e as explicações a se afirmarem, se desmentirem, se contradizerem; mas vivemos de crenças, e a carruagem dos remédios, indispensáveis se assemelha a Beatriz Viterbo, a amada de Borges, em O Aleph. “Era de uma clarividência quase implacável, mas havia nela negligência, distrações, desdéns, verdadeiras crueldades, que talvez reclamassem explicações psicológicas”. Na carne, Beatriz era Estela Canto, cortejada por Borges. Ela datilografou o conto que o escritor lhe ditou. Antes da morte de Borges, Estela vendeu o manuscrito na Sotheby’s. Foi comprado pela Biblioteca Nacional de Madrid.

A Covid, como todo surto viral, está começando a dobrar a esquina em alguns lugares, no global mete medo. Mas aqui e ali planeja-se a volta ao chato e glamoroso cotidiano, que encerra paixões, alegrias, honras imerecidas, suicídios, adultérios, fornicações, e fornicações ilícitas num abissal de sortilégios que dão vida à inconsistência universal da carne. Quem sabe, no final, restem pequenas anedotas, pequenos medos, pequenos heroísmos, mulheres abandonadas, frutos ressentidos e uma multidão de remédios, procedimentos, descobertas, invenções e truques que vão se incorporar à ciência, ao conhecimento, com todas as convicções existentes e ainda por calcular, com a aritmética ou com a infatigável matemática.

Que a realidade, à revelia, ora sim, ora não, por falseta, seja simulacro da literatura, não importa o grau, assombra; mas não se pode imputar o erro, como também creditar a verdade, nem refutar o agnosticismo. Na URL Viridiana (1961) pelicula completa,  Viridiana (1961) pelicula completa, Fernando Rey, em “Veridiana”, luta para fornicar com a noviça, quase freira, e chega a produzir uma invenção. No YouTube, “Ninar Você” de Caetano é sempre sonhar.

Gerson Brasil  é secretário de Redação da Tribuna da Bahia.

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