Conversando Sobre a Solidão

“A linguagem criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho.”  (Paul Tillich)

Quando a solidão deixa de ser um simples ambiente de passagem, como são os breves refúgios das aves migratórias, pode suscitar angústias e transformar-se em um mal corrosivo que afeta a mente e encarcera a alma.

Mesmo as pessoas que se encontram em meio à multidão podem sentir solidão.  Diferentemente dos solitários, os que padecem desse mal, infelizmente, acreditam ser ele um estado de introspecção permanente, passando a interpretar o mundo através de espelhos distorcidos ou embaçados. Assim, o processo de conexão destas pessoas fica restrito ao mundo imaginário e conflituoso do espectro que se encontra refletido.

Sem contradições, não existe qualquer alternativa de se estabelecer comparações e referências; não havendo condições para a obtenção de respostas outras que não sejam apenas as que martelam e ecoam em conturbados pensamentos, recrudescendo o nível dos seus conflitos.

Para os acometimentos de tal transtorno, as pessoas em sua volta acabam sendo invisibilizadas ou, quando vistas, são desprezadas. Eles se encerram, dentro de si, como fazem as ostras. Afastam os próximos com os espinhos da repugnância e da intolerância. Equivocam-se, ao alimentarem a esperança de que alguém venha construir pontes de fora para dentro a fim de resgatá-los. Anulam, desta maneira, a possibilidade de romperem por si próprios o cisto onde guardam as suas amarguras.

Não se dão conta de que, mesmo que pontes sejam construídas, será necessário que também exista vontade de atravessá-las. A solidão encerra os pensamentos dos indivíduos, nas sombrias fronteiras das dolorosas introspecções. Os seus portadores vivem a alimentar-se da crença de que o mundo tem de girar em torno de si e que os demais devem entendê-los, compreendê-los, aceitá-los e satisfazê-los em todos os seus anseios. Mantêm-se num estado egocêntrico. Veem-se vítimas. Estranhos, no mundo ilusoriamente “real” das suas imaginações.

O vazio que habita as suas almas os mantém em estado de inércia, exaurindo-lhes as forças, podendo conduzi-los à depressão e daí, a pretensão de desistirem do mundo, na presunção de ser tal mundo imperfeito e o culpado pelas suas infelicidades. Sentem–se repelidos, indesejados e sem espaço para habitá-lo.

Como bem afirma o psicoterapeuta suíço Carl Jung, “Solidão não é não ter pessoas ao seu redor, e sim ser incapaz de expressar coisas que parecem importantes, ou de perceber certos pontos de vista que os outros acham inadmissíveis.”.

Enfrentamos um momento difícil da nossa existência. A pandemia obrigou-nos a fazer quarentena. Isolando-nos em família, mas, apesar disso, muitos continuam sendo visitados pelo fantasma da solidão.

Algumas pessoas se encontram solitárias por circunstâncias da vida e, para afastarem o ameaçador fantasma, procuram preencher o seu tempo em atividades substantivas, que permitam gravitar num campo de vibrações energéticas positivas.

Outros, no entanto, apesar de estarem entre os seus, insistem em continuar remoendo dores, imersos na introspecção dos seus conflitos, disfarçando e justificando o afastamento espiritual conectando-se aos relacionamentos virtuais, por serem estes mais suportáveis que os físicos. Perdem a especial oportunidade oferecida pelo confinamento, para utilizarem a solidão em favor de si. Não a enxergam como terapia capaz de promover o despertar rumo à libertação espiritual, caminho para a cura das feridas emocionais.

A solidão é para ser vista, apenas e tão somente, como um lugar de visitação para o autoencontro. Ambiente propício para meditações metafísicas, propulsoras do autoconhecimento e, consequentemente, da elevação da autoestima, do amor próprio e do perdão. Uma eficiente terapia que possibilita o rompimento das bolhas aprisionadoras, construídas pelos próprios indivíduos.

Não é tarefa fácil, porém, não impossível. Precisam, além de contar com a compreensão e o apoio do núcleo familiar e de profissionais qualificados, de assumirem a condição de mergulhadores/alpinistas espirituais para iniciarem um duplo movimento de aprofundamento e elevação em direção aos seus desconhecidos e subestimados mundos interiores, a fim de refletirem e avaliarem o sentido da existência e despertarem para a importância do seu papel no mundo. E, por mais contraditório que possa parecer, é o mergulho que permitirá a escalada para alcançarem o topo da montanha existencial. Somente assim, serão capazes de se libertarem do profundo e sombrio vale em que insistem em se manterem cativos para, enfim, conquistarem a felicidade e a paz interior.

Santa Teresa de Ávila, em sua célebre frase, resume e revela ser este o único caminho:

“Pensar que haveremos de entrar nos céus sem penetrar em si mesmo, é desatino.”.

Jair Araújo – escritor

Membro Correspondente da ALACIB – Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil, Mariana/MG.
Membro efetivo da SBPA – Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas

jairaraujo@globo.com

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