A lubricidade de Salvador, novas formas e pandemia

Gerson Brasil, Secretário de Redação da Tribuna

Nesses tempos instantâneos, “naturais” e de sensualidades voláteis, o livro “Navegação de Cabotagem”, de Jorge Amado, enseja um sabor especial. Mostra uma Bahia (Salvador), entre os anos 30 e 60, pulsante, de escritores e intelectuais como Odorico Tavares, Edison Carneiro, Valdeloir Rego, Gilberto Amado, Wilson Lins, Zitelmann de Oliva e muitos outros, entre escritos e a boemia.

Mesmo não sendo filiados ao Partido Comunista, eram progressistas, combatiam o fascismo e a larga cultura os tornava homens de esquerda, bem diferente do que se vê hoje em dia, a começar pela propaganda eleitoral.

Certa feita, Jorge e Wilson Lins, no começo de 1943, tascaram um editorial no jornal o “Imparcial”, do coronel Franklin Lins de Albuquerque, sem o mesmo saber, pedindo o estabelecimento de relações diplomáticas entre a União Soviética e o Brasil. Por pouco o jornal não fecha; graças à diplomacia de Jorge Calmon.

Embora provinciana, como até hoje, a sensualidade, a lubricidade, escorria pela cidade e não somente pelos corpos da população negra. Conta Jorge que além da frequência constante ao Tabaris, casa de “diversão noturna”, “íamos às estrangeiras, às nacionais, portenhas, todas, paixões violentas”, no meretrício, no castelo, onde se podia comer. O regalo também habitava as areias das praias, sem nenhuma cerimônia. E não era econômico com as moças e senhoras de famílias. O consultório de Mirabeau Sampaio, na Rua Chile, diz Amado, era “local de perdição de muitas donzelas”.

Mas, há muito, a lubricidade habita linguagens e gestos diversos na captura do prazer. Boa parcela de quem nasceu na internet, ou quem a frequenta arduamente e a tem como modelo de vida, normatiza o sexo como se fosse instantâneo, virtual e “natural”, principalmente nesses tempos de pandemia.

São formas que se sucedem em profusão, e não se encaixam nas perversões, e nem nas psicopatologias freudianas. “O foco não é erótico. Não que o erótico seja um problema, mas não dá para classificar assim algo que não é”. Tentam não serem traduzidas ou capturadas, uma aposta difícil. Nem mesmo os eunucos napolitanos do século XVIII, do romance ‘Porporino’, de Dominique Fernandez, anotados por Michel Maffesoli, em “A sombra de Dionísio”, rivalizam.

E estamos falando de uma polifonia, “que das pastelarias às intrigas amorosas, passando pelos prazeres do canto e da roupa enfeitada, oferecem um amplo espectro dos investimentos da paixão”.

Como disse Michel de Certeau, em “A Invenção do Cotidiano”, “o cotidiano se inventa de mil maneiras de caça não autorizada. Essas ‘maneiras de fazer’ constituem as mil práticas pelas quais usuários se reapropriam do espaço organizado pelas técnicas de produção sociocultural.

No entanto, muita gente, bastante, ainda se guia pelo diálogo, revelado pelo autor de Dona Flor e Seus Dois Maridos, entre uma tia e uma sobrinha, a fazer uma grande e solene revelação. Dernière se papa. E dernière se papa, minha filha? – Se papa, minha tia, se papa. “O corpo da beata estremeceu sob o impacto da revelação” – Virje! só de ouvir me arrupeio. E ainda Maria decidida a provar o padre. “Está no papo”. No original, a conversa e a determinação têm sabor de chocolate com pimenta. No Youtube, Maria Madalena em êxtase, de Artemisia Gentileschi, uma feminista italiana barroca. E para se proteger do vizinho com o sertanejo universitário e outros guarda-chuvas, Rostropovic solando a suíte número I de Bach.

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