Um Ponto Fora da Curva

Recentemente, tive o privilégio de assistir e ler a defesa da Tese de Doutorado: “Em Busca de um Teatro Popular Contemporâneo” do professor e diretor de teatro da UFBA, Paulo Dourado. Reconheço que não possuo profundo conhecimento sobre o tema e, portanto, me considero desprovido de estofo para tecer comentários pertinentes ao conteúdo específico. Contudo, sou admirador das artes-cênicas e me posiciono aqui, na qualidade de um integrante do público. Um simples espectador. Nesta condição, é impossível para mim adentrar o mérito das argumentações e contra-argumentações filosóficas, nos pertinentes posicionamentos críticos (sócio-políticos, ideológicos, históricos), nos questionamentos levantados, nas revisões conceituais das teorias já consolidadas pela “fina flor” da “intelectualidade e intelligentsia” do ”métier” academicista. Ainda que me restasse conhecimento e capacidade, seria algo extremamente difícil, e, intuo que não somente para mim, contrapor aos argumentos apresentados, haja vista, o fato de que eles, indiscutivelmente, amparam e respondem com coerência e autoridade as inquirições e as conclusões alcançadas pelo primoroso estudo de pesquisa.

Por tal motivo, reservo-me, tão somente, a revelar o meu entusiasmo em relação à qualidade do trabalho apresentado afirmando que o estudo em tela dignifica a academia. É um ponto fora da curva diante do surto de mediocridade das teses de mestrado e doutorado que nos últimos anos têm sido apresentadas, nas diversas instituições de ensino superior do país, notadamente em nossa terra. Muitas das quais, de conteúdo visivelmente doutrinário ideológico com o explícito objetivo de descontruir os valores socioculturais para implantação de uma nova ordem e ou pelo menos, embalados por um processo corporativista, com o espúrio propósito de promoção, por parte dos autores, para garantir melhores salários.

Eis que, neste contexto, surge o estudo de pesquisa apresentado por Paulo Dourado. Uma incomum e clara dissertação, muito bem escrita, registrada em suas 348 páginas, dezoito das quais de uma da bibliografia com 229 títulos consultados. Percebe-se que além da privilegiada inteligência do professor Paulo Dourado, a riqueza da sua pesquisa, deve-se também a sua larga, competente e dedicada experiência profissional, ao estudo, bem como a sua coragem para o enfretamento do politicamente correto. As suas críticas são ácidas, porém, instigadoras, renovadoras e reconstrutoras; lavas incandescentes a escorrerem num cenário indubitavelmente apático.

Decerto que há de ser considerado o fato de que, para o TPC acontecer nos moldes de um “Teatro de Graça na Praça”, torna-se imprescindível contar com a sensibilidade dos gestores públicos, com o apoio dos órgãos e instituições responsáveis pelo fomento das atividades artísticas e culturais e dos setores empresariais, tão habituados a disporem somas substantivas para a realização de eventos carnavalescos, patrocinando trios elétricos, blocos e cantores de axé e pagode, muitos deles, inclusive, de qualidade artística questionável.

Entretanto, as bem sucedidas experiências com os espetáculos: A Conspiração dos Alfaiates (1992); Canudos – A Guerra do Sem Fim (1993); Rei Brasil – Uma Ópera Popular (2000); Sertões – Veredas (2003); A Paixão de Cristo (2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016); Búzios: A Conspiração dos Alfaiates (2011) e 2 de Julho – A Ópera da Independência da Bahia (2013) que, segundo as informações extraídas da própria tese, somaram 80 apresentações e contaram com a assistência de pelo menos 350 mil pessoas, portanto, com um público médio de 4.500 espectadores por espetáculo, já seriam, por si só, suficientes para concluir que um caminho foi encontrado, bem como, para justificar que o “Teatro Popular Contemporâneo” tanto é viável como pode ser realizado com qualidade e sem a necessidade de se submeter aos interesses econômicos do mercado, a exemplo do acontecido com a nossa música.

“Em Busca de um Teatro Popular Contemporâneo” é um trabalho de pesquisa que, nestes últimos tempos, surge no ambiente da Universidade baiana, como uma das mais importantes contribuições para os pesquisadores, estudiosos e a classe artística de produtores e diretores de teatro e que, sem dúvida entrará, com mérito, para os anais do Instituto de Letras da UFBA. É revolucionário. E, cria um divisor de águas. Marca um tempo no universo da pesquisa e da literatura das artes-cênicas e, por isso, merece ser publicado e disseminado aos quatro ventos.

Importante registrar que recebeu elogiosos pareceres dos doutores examinadores que por unanimidade votaram pela aprovação do candidato. Merece destaque as considerações da professora, doutora Cássia Lopes que se manifestou num parecer escrito de tamanha excelência e poeticidade que cometo o atrevimento de sugerir que seja utilizado como prefácio, posfácio ou apresentação, quando da edição do estudo, que inevitavelmente ocorrerá.

Jair Araújo – escritor

Membro Correspondente da ALACIB – Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil, Mariana/MG.
Membro efetivo da SBPA – Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas.

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