O Ilê Aiyê anunciou, no último domingo (01/11), o tema “Togo – o Assigamé e o Império das Nana Benz” como o escolhido para guiar o 52º carnaval de sua história. A escolha permite ao filho das ladeiras do Curuzu retornar as origens de seu continente mãe, a África, para mergulhar e coroar a história do Togo, seu Assigamé e as poderosas Nana Benz.
O tema é mais uma oportunidade do mais belo dos belos reforçar seu papel no Carnaval como um instrumento político e cultural ao apresentar a história de resiliência e poder matriarcal do Togo, país na África Ocidental, a partir dos laços que o unem ao Brasil e à Bahia, defendendo mais uma vez com seus parceiros e filiados a importância da ancestralidade africana e a força da mulher negra.
O desejo de trazer ao Curuzu a história do Togo surgiu após uma viagem de Vovô do Ilê, presidente e fundador do bloco afro, ao país e o interesse pelo pan-africanismo. Durante a pesquisa, aspectos culturais e históricos como a resistência dos povos ancestrais e a ligação religiosa chamaram a atenção da equipe de pesquisa do primeiro bloco afro do mundo.
“A gente viu uma influência muito forte da mulher naquele país. Vovô queria que o tema fosse focado no grande mercado que tem lá, que é chamado de Assigamé. Ele queria que a gente falasse sobre a importância desse mercado e a gente descobriu a história das Nana Benz”, explica o pesquisador e produtor do bloco Sandro Teles, um dos coordenadores do Festival de Música anual do mais belo dos belos.
Em mais um Carnaval, o Ilê Aiyê mantém sua tradição de resgatar a ancestralidade que conecta povos brasileiros, africanos e afro-brasileiros em uma mesma rede de afetos e lutas. Se no tema de 2026, o bloco afro prestou homenagem à resiliência de um povo brasileiro, em 2027 o mais belo dos belos se posiciona como disseminador da história de mais uma nação africana.

Do Assigamé a avenida com as Nana Benz – Figuras importantes na história social e econômica da capital togolesa, Lomé, as Nana Benz se tornaram uma figura de grande importância dessa sociedade durante a última metade do século XX. A história do país africano é marcada por grande influência religiosa e comercial desde cedo e, em meio a crises e revoltas, as mulheres togolesas se puseram como figura de destaque liderando revoltas, ajudando em fugas e agregando significados culturais a população que alteraram as configurações sociais do país.
Título de profundo respeito e autoridade atribuído as mulheres vendedoras, as Nana Benz são oriundas da classe trabalhadora, que se dominaram o mercado de retalhos a partir da década de 1960 até 1990. Dotadas de Mercedes-Benz e esperteza, as Nanas dominaram o setor econômico do Togo até 1994, rejeitando a submissão de gênero, mantendo uma rede de solidariedade feminina enquanto assumiram papéis tradicionalmente reservados aos homens.
Seu comércio de tecido chegou a superar outros comércios pulsantes da economia nacional, dominando o Grand Marché de Lomé, chamado por seu povo de Assigamé. Uma verdadeira arena de cultura, tradição oral, práticas ancestrais e comércio, o mercado têxtil com as Nana Benz superou por muitas vezes o mercado de extração de fósforo, uma das principais receitas do Estado.
“É isso que a gente procura fazer com esse tema, contar a história do Togo, pré-colonial, fala um pouco sobre o período colonial e a luta pela independência, conta a história, a importância do mercado, o Assigamé, a importância das mulheres, das Nana Benz”, Sandro Teles explica sobre a construção do tema, que guiará as composições participantes do 52º Festival de Música Negra Ilê Aiyê.
Ancestralidade e resistência do Togo para o Carnaval – A história do Togo remonta a era Paleolítica, quando seus povos ancestrais fixaram-se em regiões montanhosas e cursos de água cercadas por solo férteis, clima fresco e defesa natural. Povo de resistência, o Togo pré-colonial era um dos principais produtores de ferro do século V a.C e XII d.C. Ao longo de sua história, seus povos se organizaram ao longo do litoral africano em busca de liberdade contra expansões militares e opressão, tendo lutado contra um regime autocrático e adotado um sistema de governança descentralizado com papel importante para o comércio.
Com uma burguesia formada ao longo dos anos por afro-brasileiros, ex-escravizados que retornaram a sua terra mãe, e um povo de profundas raízes com a filosofia de veneração da natureza, Vondun, seus povos mantiveram-se fortes mesmo após o controle alemão e, posteriormente, franco-britânico sobre suas terras. O país independente de Tongo se fortaleceu a partir de uma economia intermediadora, a preservação mental através da religião e a resistência de seu povo, compartilhando com o Brasil aspectos culturais como: o culto aos Voduns, a culinária de rua e a festa ao Nosso Senhor do Bonfim. A união Togo-Brasil também está presente nos laços de amizade, tendo a cidade de Aneho sido considerada cidade irmã de Cachoeira, ambas cidades de preservação ancestral de seus povos e territórios.
O Lançamento do Tema do Ilê Aiyê é uma realização do Ministério da Cultura e da Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê, com coordenação da Caderno 2 Produções e produção da Central Black. O evento conta com o apoio do ITS Brasil e a parceria do Salvador Capital Afro, Cidade da Música, da Secult e da Prefeitura de Salvador. Patrocínio do Grupo Belov e Patrocínio Master da Petrobras, mantenedores do Plano Anual do Ilê Aiyê com realização do Ministério da Cultura por meio da Lei Rouanet.
Crédito: André Frutuôso | Estúdio Casa de Mainha
