As vacinas, as crenças e as superstições
Gerson Brasil
Secretário de Redação da Tribuna da Bahia
Acreditamos postar a vida ou conviver em sociedade com base na razão; coisas estranhas à ratio são colocadas de lado, ou servem para desqualificar uma opinião, ou jogá-la no limbo. Mas a racionalidade às vezes carece de razão, ou se apresenta de modo estranho, como é o caso da guerra estabelecida para saber qual vacina vai nos curar da Covid, se isso é possível.
Há em andamento tantas vacinas que é difícil listá-las sem corrermos o risco de omitir aquela de que não temos notícia, por ignorância, má-fé, ou dado a insuficiência do conhecimento. Há a vacina made USA, cuja confiança assombra o mundo; aquela moldada no orgulho da pátria inglesa, aqueloutra onde se depositam todas as desconfianças e aquela do laboratório, da mística milenar e da sabedoria instantânea.
Condenar ou santificar essa ou aquela vacina só serve à pressuposição; antes de testadas em campo, o que carrega tempo, não se pode inferir eficácia, efeito colateral, muito menos preço. Trata-se apenas de uma produção, como os remédios e a farinha. O vírus do sarampo foi identificado em 1953 e só em 1963 a vacina foi aprovada.
Parece que vamos assistir, talvez muito rapidamente, não a uma descoberta científica, mas sim a uma revelação divina, tal a angústia e o abandono da quarentena em massa, numa atitude de negação da realidade, sem que a mesma vá embora. São mais de 110 mil mortes e dois absurdos, incorporados ao cotidiano. Mas é bom lembrar que é o desejo, inconsciente, de querer cometer atrocidades, que se tolera o absurdo. Mas é legítimo o assassinato, sem que lhe oponha uma ética e uma moral, fora de valores teológicos e abstratos?
A vacina elidiu o debate sobre a hidroxicloroquina, sem que a ciência conseguisse tomar conta do coronavírus. Não se sabe se a Covid baterá estaca ou se fará par com Golbery do Couto e Silva: Je m’en vais. Acredita-se em muitas coisas, mas Anne Hardy, professora honorária da London School of Hygiene and Tropical Medicine, escreveu no Suplemento Literário do Times que “embora vários novos vírus tenham surgido após a Segunda Guerra Mundial sem gerar pandemias imediatas, podemos perguntar por que Covid-19 provou ser diferente. Onde estamos na história das epidemias? Ela ensaiou uma resposta com base na destruição ambiental, na superpopulação e nas mudanças dos hábitos de vida.
Mas não é fácil dar uma resposta – principalmente se levarmos em consideração que o homo economicus está alojado na população -, que precisa ser controlada, regulamentada e produzida sob a lógica do capital e do controle do Estado, na maximização de resultados monetários.
A ciência não foi derrotada. A tabela periódica que embala a indústria farmacêutica, cujo faturamento ultrapassará R$ 1,5 trilhão até 2023, continua valendo para a União Internacional de Química Pura e Aplicada. Mas a crença no conhecimento, no campo onde é produzido o homo economicus, é bem diferente, digamos, da química. Normalmente somos confiantes nas crenças que processamos, sustentadas por verdades estabelecidas mediante racionalidades, mas nos é insuportável o aleatório. Ele não se encaixa na lógica da produção, o maldizemos, assim como fez Rimbaud com a beleza; sentei-a no colo e a detestei.
As verdades nunca são verdadeiras, só assumem seu lugar por meio da crença e da confiança, mas ocorre que as superstições têm tanto valor quanto a crença. Em condições normais, a tarefa de produzir a crença é um pouco facilitada; numa pandemia há o enfraquecimento e as superstições, que também são deste mundo, se ressaem.
Não será nenhum espanto se a vacina venha se juntar à batida de limão; para reforçar a eficácia; salve o finado Diolino. Afinal, se crê em muitos absurdos, com muita verdade e racionalidade. No Youtube, a balada jazzista de Marina, Doce Veneno. “Não me beije que eu tenho veneno/ É meu preço, não faço por menos /Mas depois te amarei”.
