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Conservadores aposentam, a fazenda, o casamento e Che, no Village 

Gerson Brasil 

Sem charme, como nas casas funerárias, a exibir no letreiro a simples e cáustica palavra ‘A Adornativa’, quando o morto já não pode mais se inaugurar, a não ser que recorra a João Cabral de Melo Neto, ou adote o sacré-coeur; a performance dos anos 60 está se despedindo. Guarde na gaveta, como lembrança, a camisa com a foto de Che Guevara, feita por Alberto Diaz “Korda”. Percorreu o mundo e se tornou uma mercadoria de alto valor, como a reprodução do trabalho de Andy Warhol utilizando uma foto de Marilyn Monroe. Era o nascimento do pop nas asas da Revolução Cubana, com Jânio Quadros eleito presidente do Brasil em 3 de outubro de 1960, num arco de alianças conservadores, PTN-PDC-UDN-PR-PL. Mas nem por isso; concedeu a Che Guevara, em plena Guerra Fria, a medalha da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. Inaugurando o terceiro mundismo e a tão badalada neutralidade do Itamaraty, desenhada por Santiago Dantas, e até hoje reverenciada. Guevara à parte, os conservadores estão de volta, sem novidade, mas em outro lugar, não idêntico, como diria Borges na construção dos “ciclos similares”, acrescentando que “a conjectura de que a existência do homem é uma quantidade constante, …que nenhuma afronta, nenhuma calamidade, nenhum ditador nos poderá empobrecer”.

O lendário East Village em New York de atmosfera cultural vanguardista, boêmia e de intuição avassaladora, hoje pelos padrões corretos seria imoral, ou fora de sintonia, está ampliando o ciclo conservador. É o que nos conta Ashley Wong no Wall Street Journal, edição online de 22 de maio. “Em uma noite úmida de quinta-feira no início de maio, sob as luzes vermelhas de um bar no East Village, em Manhattan, cerca de 50 jovens, homens e mulheres, viravam drinques e gritavam em meio à música alta. A cena era familiar — uma sala cheia de jovens em busca de um encontro, ou talvez apenas de um novo amigo. Mas não se tratava de uma reunião qualquer: todos os presentes eram conservadores, ou pelo menos receptivos à ideia de se juntar a um conservador”.

Gente jovem, desligada da questão partidária à procura de espaços a não o constranger, por ter rejeitado o guarda-chuva do politicamente correto, e o engajamento numa luta social. Na descrição de Wong, pessoas de bom nível cultural, a se divertir sem fazer promessa de casamento, ter filhos, e viver de modo saudável na fazenda. “Eu sempre digo que é mais difícil se assumir conservador em New York do que se assumir gay”, disse Raquel Debono”, uma das participantes do encontro.

Longe de querer inventar um novo mundo, se voltam para ter emprego, e procuram estabelecer algum relacionamento romântico fora das ideologias, sem que a política se porte de modo hegemônico na relação. Na tenacidade do politicamente correto, essas pessoas podem ser alocadas como Freek, destoando do engagé francês dos anos 60, um modelo de intelectual voltado para as massas, mas que foi rejeitado em maio de 68 e criticado por Maria-AntoniettaMacciocchi: “Assim, ‘engajado’ torna-se um termo cômodo, na medida em que a ação revolucionária não é plenamente assumida”. Ela estava se referindo aos nacionalismos chinês, cubano e outros, e também  às frentes internacionais proletárias (três, que se dissolveram, com o avanço do capitalismo e a fragmentação interna, devido ao enfrentamento de Mikhail Bakunin a Marx, na crítica ao socialismo autoritário, contrapondo-o a ação libertária, demolidora do capitalismo. Nada de gradualismo).

Hoje a crítica cairia sobre o que se convencionou chamar de identitarismo e cercanias. Freek, ou conservadores, mostra que o espaço social engendra várias eternidades sucessivas, assim como os bares morrem na quarta ou quinta, emergem na sexta ou no sábado, pouco importa se a terra está desolada.

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