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CRÍTICA LITERÁRIA — SOBRE O SONETO ROMANO DE FLORISVALDO MATTOS, O DECANO DOS BARDOS BAIANOS

Taurino Araújo
Gostei mais do “Soneto Romano” (p. 180), saborosa leitura de Catorze janelas abertas: sonetos reunidos, com inéditos (1953-2023), P55 Edição, 2025. É uma obra sofisticada que mistura tradição clássica, modernidade e introspecção. Por meio de referências ricas e imagens poéticas, o autor reflete sobre a condição do poeta no mundo moderno, suas limitações e sua busca por beleza e transcendência. É uma peça que evoca tanto o esplendor do passado quanto as incertezas do presente, reafirmando a poesia como um espaço de diálogo atemporal.
O “Soneto Romano” de Florisvaldo Mattos é uma peça de grande riqueza literária, com múltiplas camadas de significado e referências intertextuais. Aqui está uma análise detalhada:
1. Estrutura e Forma
O poema é um soneto clássico, composto por dois quartetos e dois tercetos, totalizando 14 versos. Ele segue a métrica decassilábica e adota rimas organizadas, contribuindo para sua fluidez e musicalidade. A escolha do formato clássico evoca uma tradição literária que dialoga com autores e mitos antigos.
2. Temática
O soneto reflete sobre:
A posição do poeta em relação aos grandes nomes do passado: O eu lírico se compara a figuras mitológicas (Orfeu) e literárias (Camões, Calíope, Propércio), reconhecendo a sua distância em relação à grandiosidade desses modelos.
A busca pela criação poética: há uma tensão entre a impossibilidade de alcançar os feitos desses grandes nomes e a aceitação de sua própria condição enquanto poeta.
Referências mitológicas e clássicas: o poema é repleto de alusões que conferem densidade cultural e dialogam com tradições literárias universais.
3. Primeira estrofe: mitos e limitações
“Não sou Orfeu, não sei deter os rios,
Nem toco flauta no portão do Inferno,
Para tirar do Amor grilhões sombrios
E postá-lo na margem em que aderno”.

Alusão a Orfeu: o eu lírico menciona o mítico músico grego, cuja música era capaz de encantar a natureza e até negociar com os deuses do submundo para recuperar sua amada Eurídice. Aqui, o poeta admite não possuir o mesmo poder transformador.
Reconhecimento das limitações: ele não pode “deter os rios” ou libertar o Amor de suas amarras. Essa confissão sublinha sua humanidade e distância das figuras mitológicas.
Ambiente melancólico: a imagem de “adornar na margem” sugere fragilidade e uma sensação de precariedade.
4. Segunda Estrofe: Tradição Literária e Sina Pessoal
“Não sou Camões; Calíope não me ensina
Os caminhos do mar. Vou para o bosque.
Sei que irão perguntar-me adiante quousque
Tandem há de durar a minha sina”.

Comparação com Camões: O poeta português, associado às epopeias marítimas, é invocado como outro modelo inalcançável. O eu lírico não explora os mares, mas prefere o “bosque”, um espaço introspectivo e simbólico.
Diálogo com a tradição clássica: Calíope, musa da epopeia, é mencionada como ausente. Essa ausência reforça a ideia de que o poeta segue um caminho menos heroico, mais pessoal.
“Quousque tandem”: a frase latina (“até quando?”) remete a Cícero e carrega um tom de questionamento, sugerindo cansaço ou incerteza diante de seu destino.
5. Primeiro terceto: Ezra Pound e a busca por orientação
“Socorre-me, Pound. Leve o barco e o remo,
Guarde-os perto do campo de azaleia.
Se mais seguros, lá, mais bem guardados”.

Ezra Pound: um poeta moderno, conhecido por sua busca por tradições literárias antigas e pela renovação da poesia, é evocado como uma figura que pode oferecer orientação ao eu lírico.
Imagens de repouso e segurança: o “barco e o remo” são símbolos de travessia e criação poética, mas aqui, o eu lírico sugere deixá-los guardados, em uma espécie de pausa ou resguardo próximo ao “campo de azaleia”.
Simbologia das azaleias: essas flores podem remeter à beleza efêmera e à fragilidade, em contraste com os grandes feitos das figuras evocadas anteriormente.
6. Segundo terceto: Propércio, Polifemo e Galateia
“Oh, Propércio, avise aí a Polifemo,
E me deixe no Etna com Galateia
Montada em seus cavalos orvalhados”.

Propércio: o poeta latino, mestre da elegia amorosa, é chamado para interceder com Polifemo, o ciclope apaixonado pela ninfa Galateia.
Polifemo e Galateia: a história de amor não correspondido entre o ciclope e a ninfa sublinha o desejo do eu lírico por beleza e harmonia, mesmo em meio ao caos (Etna, o vulcão).
Cavalos orvalhados: uma imagem onírica que mistura sensualidade e delicadeza, mostrando que o poeta encontra refúgio em um plano imaginativo e sublime.
7. Leituras interpretativas
Humildade do poeta moderno: o eu lírico reconhece sua posição modesta diante dos grandes nomes do passado, mas, ao mesmo tempo, reafirma sua individualidade e busca por significado na criação poética.
Diálogo com a tradição: Florisvaldo Mattos constrói um soneto que é ao mesmo tempo uma homenagem e uma desconstrução da grandiosidade clássica, oferecendo uma visão mais pessoal e humanizada da criação artística.
Tensão entre Modernidade e Clássico: a menção a Ezra Pound insere uma ponte entre a modernidade e o mundo clássico, mostrando que o poeta contemporâneo busca inspiração em ambas as esferas. Maravilhoso, Flori.
Taurino Araújo, Ph.D.

Florisvaldo Mattos – foto arquivo

Biografia de Florisvaldo Mattos no site Academia de Letras da Bahia
Eleito em 28 de dezembro de 1994, tomou posse em 26 de novembro de 1995, no salão nobre da atual sede, sendo saudado por João Carlos Teixeira Gomes.
Florisvaldo Mattos nasceu na zona rural de Uruçuca (então Água Preta, distrito de Ilhéus), no sul do Estado da Bahia, em 1932, e assim, por circunstâncias legais, cidadão ilheense. Realizou seus estudos primários nesta cidade e os secundários Itabuna e Ilhéus, respectivamente nos ginásios da Divina Providência e Municipal, completando-os em Salvador no Colégio Estadual da Bahia. Aprovado no vestibular para a Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, obteve diploma no grau de Bacharel em Direito, em 1958.

Neste mesmo ano, iniciou-se na atividade do jornalismo impresso, como profissional, ao integrar a equipe fundadora do Jornal da Bahia, no qual desempenhou, em dois períodos, as funções de repórter, redator e chefe-de-reportagem; atuou no jornal Diário de Notícias, da cadeia dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, no qual exerceu as funções de repórter, colunista e posteriormente editor-chefe, participando inclusive, com Glauber Rocha e Paulo Gil Soares, da edição de seu suplemento literário, o SDN, que teve então importância dentro do processo cultural baiano. Por essa época, entre 1961 e 1968, assumiu o posto de correspondente do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, sendo elevado a partir daí ao cargo de chefe de sua sucursal na Bahia, exercido até o ano de 1982. Em 1990, a convite do jornalista Jorge Calmon, ingressou no jornal A Tarde, assumindo o posto de editor de seu suplemento Cultural, premiado em 1995 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), no quesito de divulgação cultural, exercendo-o até 2003, quando passou à condição de editor de Opinião e, em seguida, ao cargo de editor-chefe, exercido até fevereiro de 2011, quando se afastou do jornalismo. A partir de 1962, concomitante à atividade de jornalismo, ingressou no magistério superior, no curso de Jornalismo, matriz da futura Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, na qual cursou Mestrado em Ciências Sociais, concluído em 1972, aposentando-se em 1994. Entre 1987 e 1989, exerceu o cargo de presidente da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Em depoimento, prestado em setembro de 1981, faz um retrato da Geração Mapa que, da segunda metade da década de 1950 e até meados da de 60, agitou a vida cultural da Bahia, atuando com destaque nas áreas de literatura, cinema, teatro, artes plásticas e jornalismo. “Uma geração a que pertenço com muita honra. Glauber Rocha foi o nosso maior nome. Nossa proposta básica era romper com a inércia cultural de antão, alimentada pelo pensamento conservador vigente, enfim com barreiras que ainda se erguiam para aceitação dos princípios da arte moderna”, afirmava então. Foi também colaborador das revistas Ângulos, editada pela Faculdade de Direito, Mapa e Revista da Bahia, uma publicação do Estado da Bahia, entre outras.
Foi eleito membro da Academia de Letras da Bahia em 1994, empossado na Cadeira nº 31, em 1995, na vaga do poeta Carvalho Filho. Como poeta e escritor, começou a publicar em jornais e revistas, estaduais e nacionais, participando inclusive de antologias poéticas nacionais, já nos anos 1950, e em livros a partir de 1965. Tem publicado também poesia em antologias internacionais, especialmente de Portugal, Espanha, França e Alemanha. Tem pronunciado palestras sobre temas abrangentes de poesia, literatura, jornalismo e cultura, em reuniões e conclaves promovidos por entidades diversas, entre as quais colégios e faculdades.

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