O clone

(FINAL)
Observe também os homens da cúpula presidencial e veja se eles não estão cada vez mais impetuosos. Eles não são clones. Entretanto, foram abduzidos por sombrios líderes políticos intergalácticos com a missão de viverem em torno dele, orientando-o e mantendo o absoluto controle da situação.
O papo rolou um pouco mais, e eu, estarrecido diante das denúncias, mudo, delirante em meus pensamentos, de chofre, manifestei-me: ─ Para, para, Gilberto, isso é muita piração, cara, é pura ficção. Estou com pressa, tenho de ir embora. Até mais! Um dia desses a gente se vê por aí. Tchau!
Deixei Gilberto, meio sem jeito no meio da rua sem que desse tempo para concluir o assunto.
Dali em diante, os argumentos do meu amigo “maluco beleza” não me saíram do juízo.
“Vox Populi, Vox Dei”, “o povo é sábio”, embora às vezes ache que nem tanto. Mas o fato é que um dia, assistindo um desses jornais sensacionalistas que passam em quase todos os canais de televisão, tive a oportunidade de ver cunhada em faixas numa manifestação no Rio Grande do Sul, a seguinte expressão: “Fora Mister Silva, volte Lula”. Então, o argumento do clone me veio à tona como um raio. Daí pensei: …a consciência coletiva deve ter captado o problema, mesmo sem ter conhecimento da origem e da gravidade dos fatos.
Passei a observar mais detalhadamente a postura do presidente e dos seus colaboradores mais diretos e fui montando os fatos como as peças de um quebra cabeça. Parece loucura, mas tenho a sensação de que menosprezei a história do meu amigo. Sem pretender me tornar um candidato a “maluco beleza” igual ao Giba, vou me arriscar a manifestar algumas das minhas conjecturas, a partir das informações que obtive com o Giba.
É verdade que grandes mudanças começaram a ficar visíveis no indivíduo submetido ao processo da clonagem. De repente, o Lula ficou vaidoso, passou a vestir roupas de grã-fino, aos poucos afastou-se das massas, tomou gosto por ambientes, bebidas e pratos mais sofisticados…
Apesar de algumas das personalidades que orbitam o clone, como afirma a mensagem recebida por Giba, tratar-se de seres abduzidos comecei a vê-los com características alienígenas. Veja o Pallocci, por exemplo. A sua fisionomia é típica de um alienígena recém-desperto de um processo de hibernação criogênica.
O Dirceu, sem dúvida, deve ser um “magnae mentis tenebris” do planeta denominado “Obscurus Cerebra”. Nota-se pela dimensão da sua formação craniana, que possui um poder de planejamento macabro e manipulação descomunal, e, por isso, tornou-se o líder escolhido para ficar orbitando em torno do clone, a fim de que ele possa permanecer sob vigilância, mantido sob absoluto controle mental. Talvez para disfarçar essas evidentes características o mentor tenha optado por uma cirurgia plástica em Cuba.
O Mantega, muito provavelmente, é a quarta entidade extraterrestre na linha de poder, com ar meticuloso e andrógeno. O mais recentemente abduzido é o Ciro, cujo processo de abdução foi tão violento que sofreu um conflito de identidade, passando a optar pela barba, para ver se alcançaria mais depressa o poder que tanto almeja.
Ainda tem o nanico do Gushiken, enigmático e astuto, certamente um ser oriundo dos confins da região oriental do reino de Gollum e o Berzoini, criatura traiçoeira e repugnante, ressuscitada do purgatório de algum planeta existente além do buraco negro do universo.
Estou quase me convencendo de que o homem operário, sindicalista e cidadão nordestino, apreciador de uma boa pinga, que migrou para o sul, realmente, era outro e não o que se encontrava a ocupar a Presidência da República. Aquele era valente, sincero, de fala firme, cabra macho que nunca vi chorar em público, homem para qualquer invernada, que enfrentava polícia na ponta da baioneta, sem duas falas e sem estrelismos.
Liguei para Gilberto e falei: ─ Giba, o clone é chorão, parece manteiga derretida, anda dizendo que é da paz e do amor e mente mais do que pescador de ribeirão. Tais mudanças são defeitos do processo da clonagem?
Ele respondeu: ─ Não cara, são virtudes. A mitomania é vista como qualidade aos olhos dos alienígenas. Portanto, o gosto extremado pelas mentiras é um ponto positivo para o alcance dos seus intentos de dominação. Tenho a teoria de que pessoas com o Duda Mendonça, Chávez e o Tony Blair, que não são clones, mas na verdade humanos corrompidos, contribuíram com fatores psicogenéticos dessa natureza para o processo de clonagem do Lula. Tudo com o objetivo de evitar crises de governabilidade junto aos representantes do povo, considerando o fato de que esses, estão mais preocupados em atender aos próprios interesses do que o do povo. Como você deve saber, é mais fácil acreditar na mentira do que na verdade.
Quanto ao fato de ser chorão, é o resultado de uma imensa pesquisa fornecida pela inteligência do Partido Comunista Chinês, que foi acrescentado, especificamente, no clone do Lula, como artifício para promover comoção nacional, visto que os latinos são muito emotivos e sensíveis às lágrimas. O povo tende a se compadecer por quem chora.
Encerrei a conversa dizendo: ─ É, cara, acho que você tem razão. Peço desculpas por ter chamado você de pirado. Coitado do Lula, agora tenho pena dele, cara. Na verdade, ele é a grande vítima. Puxa vida, clonaram o pobre, e eu aqui fazendo mau juízo do infeliz.
Fui dormir preocupado, e meu pensamento divagou pelos anos sessenta quando, em frente a um televisor, em preto e branco, assistia àquele filme americano que iniciava com a locução do seguinte texto:
“… David Vincent,
Seres de um planeta que está para ser extinto.
“Seu destino: a Terra.
Sua intenção: fazer dele o seu mundo.
David Vincent os viu.
Para ele, tudo começou numa noite
que passava por uma estrada deserta,
procurando um atalho que nunca chegou…”
Tal e qual o Brasil do nosso sonho.
*Texto escrito em 2002. Primeiro ano do governo de Lula.
Membro Correspondente da ALACIB – Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil – Mariana/MG e do INBRASCIMG – Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais – Minas Gerais; Membro efetivo da SBPA – Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas – jairsaraujo48@gmail.com

Na verdade, o ‘mister Silva’ nunca existiu, por isso ninca poderia voltar. O que existe é um caco velho de político que não tem mais nenhuma condição de governar, sequer física. Mas se segura no rabo do poder como se dele dependesse os seus últimos dias de história. E não teve capacidade de deixar nenhum clone. Ainda bem!
Na verdade, o ‘mister Silva’ nunca existiu, por isso nunca poderia voltar. O que existe é um caco velho de político que não tem mais nenhuma condição de governar, sequer física. Mas se segura no rabo do poder como se dele dependesse os seus últimos dias de história. E não teve capacidade de deixar nenhum clone. Ainda bem!
O que gostei neste final foi a lembrança dos ministros de Lula abordados de forma hilária, gostei muito!
Conto fantástico em tds os sentidos Jair! Parabéns! O sentimento de q vivemos em uma “réplica” (um simulacro da realidade), ou q vivemos, cada um na sua própria subjetividade, e q nunca chegaremos a nos comunicar de fato, ou ter uma compreensão efetiva da realidade universal – seja lá o q isso for – é, hj, algo muito concreto. Acho q a percepção da irrealidade cotidiana nunca foi tão presente, esmagadoramente presente. (E, não importa o qto tentemos, não conseguimos achar as pontas do cordão p desembaraçar a maranha ou desatar os “nós”). Seu conto, com simplicidade, bom humor e naturalidade, nos coloca diante dessa situação… estupefaciente! (ops!). É incrível q tenha sido escrito em 2002. Mas o mais incrível mesmo é q ele parece ser o simples e absoluto retrato da R E A L I D A D E. (PS: estou começando a achar q Lula nunca saiu da cadeia…).
Querido amigo/irmão
Muito agradecido e feliz por seu generoso, incentivador e, para mim, significativo comentário. Pois, tenho você na conta de uma das cabeças mais inteligentes, cultas e brilhantes da nossa baianidade.
Abraço afetuoso e fraterno.