Salvador

PALESTRA E LANÇAMENTOS MARCAM NOITE LITERÁRIA NA ACADEMIA

Em 23 de abril, a Academia de Letras da Bahia, com o apoio da Universidade do Estado da Bahia, receberá o editor e poeta canadense Rodney Saint-Eloi, às 18h, para proferir a palestra: A arte e a importância da diversidade cultural. O evento antecede ao lançamento dos livros de Taurino Araújo e outros 61 autores.

Signos em transe tem curadoria, organização e apresentação de Taurino Araújo.

A tradução do francês é Licia Soares de Souza, que também fará o lançamento de Como se faz um deserto nessa mesma data.

UM CASE DE SUCESSO: A EDITORA MAIS DECOLONIAL DO MUNDO EM MEMÓRIAS DE TINTA.

Rodney Saint-Éloi é um poeta nascido no Haiti que chegou em Montréal (Canada) em 2001. Sua pluma já havia retratado imagens de ditaduras que assolam seu país. Em 2003, criou a Editora Mémoire d’Encrier (Memória de Tinta) que sempre teve como objetivo a visibilidade das fraturas coloniais que impediram os povos subjugados de viverem plenamente seus universos socioculturais.
Permitir a escrita dos ameríndios do Québec, em francês e em língua nativa, autorizar as expressões artísticas dos imigrantes latinos, africanos, palestinos e outros, representa simplesmente se contrapor às heranças da colonialidade que, de todas as formas, contribuíram para a devastação do planeta. Mémoire d’Encrier foi criando as condições para diluir as fronteiras nacionais, contrapondo-se à lógica do dito progresso Ocidental fundamentado no acúmulo de capital. Imediatamente ganhou os leitores de todo o mundo francófono (Europa, África, Caribe) e vem se expandindo em territórios variados de línguas maternas distintas.
Romances, poesia, ensaios, escritas singulares que abram janelas para o mundo com diálogos entre culturas, entre países que enfrentem conflitos suscetíveis de ocultar as histórias locais e a espoliação territorial que vitimaram os Povos Originários, estas são as obras que interessam Mémoire d’Encrier, gerando um longo e constante aprendizado para combater o caráter racista, colonialista e patriarcal de muitas sociedades através do mundo.
Em Memória d’Encrier, descobrimos muitos escritores de diversas origens em uma busca de “alteridades imbuídas de futuros e de solidariedades”. Ela liga os continentes. Promove um saber-viver dialógico que é o seu verdadeiro combate. Publicou escritoras ameríndias, como Josephine Bacon e Naomi Fontaine, e guadalupina como Maryse Condé que estão chegando devagarinho nos programas de pós-graduação das universidades brasileiras. Sugerimos inclusive o livro recentemente publicado on-line de uma pesquisadora franco-brasileira, membro da Academia de Letras da Bahia, Rita Olivieri-Godet, que faz um estudo comparativo : O corpo vivo do mundo em obras de escritoras indígenas (Brasil/Québec) edições Makunaima, 2025, : https://www.edicoesmakunaima.com.br/2025/01/22/o-corpo-vivo-do-mundo-em-obras-de-escritoras-indigenas-brasilquebec/
A imagem dinâmica desta editora, como já imaginamos, é a de permitir que povos subjugados, que sofreram violências em territórios coloniais nos quatro cantos do mundo, se reúnam no Québec, na Europa, na África, nas Américas, e tentem debater formas comuns de superar os traumas vividos, durante séculos, cada um mergulhando em seus saberes ancestrais particulares para retransformar o mundo devastado pelos colonizadores.
Rodney Saint-Éloi publicou antologias e narrativas. Ressaltamos Os racistas nunca viram o mar ( Les racistes n’ont jamais vu la mer, 2021) que ele compôs juntamente com sua coeditora Yara El-Ghadban, de origem palestina. Trata-se de uma troca epistolar relativa a várias manifestações do racismo estrutural. A discriminação começa nas travessias marítimas durante as quais povos dominadores escravizam seres humanos subalternos. Ela continua, nos dias atuais, nas fugas de migrantes que afundam no mar por causa de embarcações precárias.
Os autores tecem considerações, em seguida, sobre os sofrimentos que instituições e autoridades continuam impondo aos seres que chegam de longe, sem saber o que eles sofreram em seus percursos. Eles concluem que o Québec tornar-se-á em um futuro próximo uma terra mais aberta capaz de construir uma história de plena inclusão.

Após a palestra, teremos o lançamento de dois livros que se inscrevem no mesmo pensamento das produções de Mémoire d’Encrier, isto é, contestar as forças devastadoras da colonização e redesenhar projetos civilização:

1- SOUZA, Licia Soares de, Como se faz um deserto. Semiosferas do Bioma Caatinga, Itabuna, Editora Mondrongo, 2025, 180 páginas.
A partir da análise de Euclides da Cunha, na parte A Terra, sobre as queimadas dos colonizadores que teriam produzido o semiárido, com secas devastadoras, a autora revela como o sertanejo tem sobrevivido na “terra ignota”, além de ter sido confrontado com um dos conflitos mais ferozes da História do Brasil, erroneamente chamado de “Guerra de Canudos”. São analisadas também partes significativas de obras de Santtana, Vargas Llosa, Loures, Veiga, Chiavenato, Martins, Fonseca, Gutierrez.


2- ARAÚJO, Taurino e outros 61 autores. Signos em transe. Uma fortuna crítica da Semiótica de Licia Soares de Souza. Rio de Janeiro, ZL Books editora, 2025, 518 páginas. (Apoiado pelo CNPQ e UNEB).
Este livro se inscreve no gênero de livros considerados como Miscelâneas (Mélanges em francês) oferecidas a um professor que se aposenta. É considerado igualmente como Festschrifit, livro de festa em inglês e alemão. Este é um livro que reúne textos de pesquisadores e escritores renomados, uma Polianteia, que se concentra sobretudo na formação de equipes que desenvolveram pensamentos e reflexões sobre temáticas determinadas.
O primeiro bloco reagrupa os pesquisadores de Minas, São Paulo e Québec que trabalham sobre a semiótica de Charles Sanders Peirce, no qual escrevem Taurino Araújo, Winfried Nöth, Ronaldo Auad, Roberto Chiarichi, Jean Fisette, Luíz Eudes, Sylvano Santini, Ricardo Justo e A. L. Calmon Teixeira.

O segundo bloco enfatiza o ensino do francês, mas sobretudo as reflexões sobre uma Literatura Comparada (Brasil/Québec/ América Latina), com bases nas produções da esfera americana que acolhe produções dos ameríndios e dos afrodescendentes (alguns francófonos). Participam deste bloco pesquisadoras 1A do CNPQ, como Zila Bernd e Euridice Figueiredo, alguns eméritos de universidades estrangeiras como Rita Olivieri-Godet, Leonor Abreu, Brigitte Thiérion, Bernard Andrès, entre outros.
A poesia brasileira e francófona estão igualmente presentes em seus blocos específicos com textos de Fátima Berenice, Antonia Coutinho, Emiliano José e Luiz Eudes; Suenio Campos e Ruy Aguiar contam a história do curso de Relações Públicas da UNEB, em suas interdisciplinaridades.
Por fim, o bloco “Euclides da Cunha” aborda evidentemente quase 30 anos de pesquisas sobre o ciclo literário canudiano com textos de Berthold Zilly, Juan Ignácio, Lidiane Pinheiro e canadenses (Bertrand Gervais e Rachel Bouvet) que se engajaram na história de Canudos e tiveram até a coragem de explorar as trincheiras da chamada guerra sob aquele sol escaldante que testemunha, mesmo assim, tanta luta pelo viver.
PARTICIPAM DA OBRA:
1. ADRIANO SAMPAIO — p. 450
2. A. L. CALMON TEIXEIRA— p. 99
3. ALANA FREITAS EL FAHL— p. 459
4. BERNADETTE PORTO — p. 329
5. BERNARD ANDRÈS — p. 120
6. BERTHOLD ZILLY — p. 351
7. BERTRAND GERVAIS — p. 379
8. BRIGITTE THIÉRION — p. 163
9. CACAU NOVAES — p. 245
10. CÁSSIO ARAGÃO — p. 438
11. CATHERINE MAVRIKAKIS — p. 214
12. CLAIRE VARIN — p. 116
13. CLAUDIO NOVAES — p. 132
14. CYRO DE MATTOS— quarta capa
15. DANIEL GUÉNETTE — p. 253
16. DANILO HERRERA— p. 456
17. DENISE DIAS— p. 321
18. ELEONOR CORREIA— p. 345
19. ELISABETH AMORIM— p. 393
20. EMILIANO JOSÉ— p. 305
21. EURÍDICE FIGUEIREDO— p. 144
22. FABRICE GALVEZ— p. 109
23. FERNAND HARVEY— p. 171
24. HUMBERTO DE OLIVEIRA— p. 332
25. ISAAC BAZIÈ— p. 218
26. JEAN FISETTE— p. 64
27. JEAN-FRANÇOIS CÔTÉ— p. 204
28. JEAN MORISSET— p. 290
29. JEAN-PIERRE PELLETIER— p. 259
30. JOSÉ PRUDENCIO SILVA— p. 405
31. JUAN IGNACIO AZPEITIA— p. 372
32. LEONOR ABREU— p. 146
33. LIDIANE PINHEIRO— p. 359
34. LOUISE DUPRÉ— p. 249
35. LUCILA MOREIRA— p. 237
36. LUCIANO TOSTA— p. 299
37. LUIZ EUDES— p. 74
38. MARIA ANTÔNIA COUTINHO — p. 268
39. MARIA DE FÁTIMA BERENICE— p. 277
40. MAURIZIO GATTI— p. 135
41. MAYSA MIRANDA— p. 314
42. NAIARA NEGREIROS— p. 469
43. NELSON KILPP— p. 446
44. NÚBIA HANCIAU— p. 124
45. PATRICK IMBERT— p. 185
46. PEDRO BARBOZA— p. 385
47. RACHEL BOUVET— p. 367
48. RICARDO JUSTO— p. 89
49. ROBERTO CHIARICHI— p. 59
50. RITA OLIVIERI-GODET— p. 154
51. RONALDO AUAD— p. 49
52. RUBELISE CUNHA— p. 154
53. RUY AGUIAR DIAS— p. 422
54. SÉRGIO CERQUEDA— p. 227
55. SÉRGIO LEVEMFOUS— p. 222
56. SÔNIA MOTA— p. 446
57. SUÊNIO DE LUCENA— p. 304
58. SYLVANO SANTINI— p. 84
59. TAMAR BARBAKADZE— p. 218
60. TAURINO ARAÚJO — pp. 3 e 421
61. WINFRIED NÖTH— p. 32
62. ZILÁ BERND— p. 138
MINIBIO:
LIVRO 1- LICIA SOARES DE SOUZA é professora emérita da UNEB, e professora associada da Universidade do Québec em Montreal. É a laureada 2025 da Ordem dos Francófonos das Américas, comenda atribuída pelo Governo do Québec aos profissionais que se dedicam ao ensino da língua e da cultura quebequense. Foi agraciada em 2018 com a medalha de Oficial do Rio Branco pela divulgação da cultura brasileira no exterior.
LIVRO 2- TAURINO ARAÚJO E OUTROS 61 AUTORES. Condecorado pelo Estado da Bahia com a Comenda de Cidadão Benemérito da Liberdade e da Justiça Social João Mangabeira – CBJM, a maior honraria do Estado. Autor de Hermenêutica da desigualdade: uma introdução às ciências jurídicas e também sociais (Del Rey, 2019), jurista, advogado (UESC) e pensador brasileiro, Taurino Araújo é poeta, crítico literário, Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais. A sua Magnum Opus é considerada uma Epistemologia genuinamente brasileira, afora o conceito de verdade absoluta, 95 anos depois da Semana de Arte Moderna (1922).

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