Roubou a cabeça do marido

*Gerson Brasil
Tolices e fantasias, histórias e superstições, equívocos…
O roubo é uma desonra para quem o comete, uma pequena nódoa, mesmo usufruindo piedade a serviço da pretensa sabedoria, que não se deixa tragar cigarro, com convicção e a esperteza de detetives afortunados. Na dobra, uma vilania, sem precisar de testemunhas ou de recorrer a poemas infantis, “vil como a carne sem alma”. Mas há temporadas a dispensar comiserações, talvez por excesso de zelo na governança do mundo ou mesmo do cotidiano; quem sabe não caibam na necessidade, ou o dia estava cansativo, as horas se tornaram descabidas e, ao abrir a porta ao lado, detestáveis.
Vergonhoso outono, poucas folhas nas ruas e nos parques, sem protestos ou organizações empenhadas em desvendar o enigma — um crime à margem da lei. Ruthe Cruz de Almeida se apropriou da cabeça do marido, entalada na cerca de madeira de uma das casas da Rua Jaboatão, menos barulhenta do que a imponente William J. S., seis pistas, passeio largo, mas com pouca gente. Projetada para imensos edifícios, quase sempre espelhados, sisudos, infensos a visitas, e carros na velocidade de quem rebobina um filme; pouco se vê da placa, e os vidros escuros não deixam saber a pressa de quem está dirigindo.
Houve receio antes de manchar o saco de linho. “Algumas crianças, estacionadas a poucos metros da cerca, pareciam agitadas. Estariam planejando fazer algo? Chamar a polícia? Ou se divertir numa festa de Halloween? Só precisavam da vela; a abóbora, embora branca, estava adrede e não tinha cartaz ou qualquer indicação de pertença. Viria pegar mais tarde, quando o vapor escuro descesse sobre a rua?
Eram três, magros; um fumava — não sei se bebia —, os outros dois estavam ansiosos. A presa estava a poucos metros. Só havia o provável empecilho de 1,76 metro, 78 quilos nervosos, dispostos a serem predador fora de conciliação e a eloquente vontade de vencer. Era vencer e vencer. Se alguém propusesse bingo, concurso, cartela da sorte, colocar em discussão, vender o objeto e reparar o telhado da igreja, ou entender que se tratava de um monumento ainda não concluído, seria barrado in totum. Pouco importa se a ordem dos fatores não altera o produto; afinal, era uma fração do corpo de Garcia Oblongo Dias”.
Na história contada a Alberto da Luz Almeida, não ficou claro se Ruthe havia esbofeteado os garotos, aplicado cotoveladas ou mordido a mão de um deles — talvez o mais novo, de boina e cara apinhada de sardas. Foi o que relatou o médico, encarregado de dar formalidade à cabeça de Garcia. Havia também uma versão romantizada, talvez por solidariedade, contemplando uma apresentação: “Bonjour, les gars, ça ne mord pas.” Uma atitude serena e convincente de que iria se apropriar do troféu, pedindo paciência: o Halloween ficaria desfalcado.
Oficialmente, nada foi relatado, até porque Ruthe não deu publicidade ao fato. Comentários clandestinos empurraram a história para o terreno da fantasia e da superstição, e houve quem afirmasse que a cabeça não era de Garcia. ‘Quando se morre, todas as pessoas ficam iguais: olhos cerrados, perdem a cor, e torna-se muito fácil confundir cabelos, barbas e até cicatrizes. Era do lado direito ou esquerdo? Há histórias de famílias que velaram o morto e, na hora do enterro, perceberam que não tinham comprado aquele caixão, que havia algo diferente — nunca tinha usado aliança. Quando tentaram reparar o erro, não encontraram o morto: já teria sido enterrado. ’
Ruthe não tinha histórico de violência, não frequentava academia nem praticava esportes. Era dada à sonolência, a passeios curtos; caminhava e fazia alguns exercícios nos braços para poder usar vestidos sem mangas. A vizinhança se queixava da ausência de sorriso, uma retribuição sempre negada a uma empatia distraída. O médico lhe conferia boa saúde, sem receitar medicamentos, e confidenciou que a idade da paciente o deixava confuso.
Não foi possível localizar os garotos. Longa a rua, de moradores envelhecidos e bem distantes de fazer relatos sobre um acontecimento que não lhes pertencia e que, por acaso, fora depositado à revelia — quem sabe por maldade, para manchar o local, torná-lo macabro. Ou a inveja de quem não mora no Jaboatão tomou enorme proporção, despejando narrativas a aguçar a curiosidade de roteiristas desempregados.
Ruthe retirou a cabeça do saco, e a dúvida acolheu a geladeira e o vaso. Não houve disputa nem comentários elogiosos; afinal, Roger Garcia não se interessava pela organização da casa. Às vezes se voltava para os garfos — odiava os de três dentes. “Poderiam ser dados como presentes às crianças; são pequenos, mal se pode manuseá-los. Quem sabe os meninos encontrassem um uso mais promissor, uma audácia que logo viria a ser incompreendida, bem como o resultado. ”
A cabeça permanecia imóvel; afinal, sem corpo não há serventia. Mas não se poderia abolir uma visão profética. Ruthe não estava disposta a ceder a cabeça como companhia; tinha repugnância. No dia anterior fora ao salão de beleza. “Tenho coisas a fazer e ainda nem coloquei a roupa na máquina. Há pratos a serem lavados, livros a serem lidos, e não sei como pular a febre; tem me perseguido constantemente.
E se fosse exposta minha desgraça, infortúnio ou um vazio acolhedor, qual publicidade seria impressa: a de um adulto ou a de uma criança? Ambas? Ainda não sei onde colocar a perda. O assassino não tem nome; portanto, não há pressa em manusear a cabeça. Seria inútil procurar vestígios. Sou um monstro? Não acolho o temor a deus, nem à comunidade, nem à polícia, ou, porventura, a uma denúncia servil e amorosa? ”
A cabeça, na mesa, estava voltada para a janela do lado direito da casa. Não havia sangue. Olhava para as cortinas, o piano, um mapa-múndi vazio de elogios e confidências e, o pior, não era reconhecido como objeto científico nem de utilidade doméstica, como os pratos, as colheres e um certo reino de pequenos objetos — talvez para espantar o medo, os deixavam permanecer sobre os móveis, empilhados pelos cantos, alguns encostados ao mapa-múndi, na ânsia de compor uma escultura, ou sair na foto.
O rosto de Garcia emitia pequenos sinais de luz, imprimindo ao ambiente ausências de interrogações e de suposições suspeitas de abrigarem mentiras. Ruthe pensou em cozinhar e lembrou-se de quando era servida com arroz de forno, entranhado com pedaços de frango, queijo e creme de leite, enquanto Garcia, sentado com um pé na cadeira, à beira do forno, lia pausadamente O Falcão Maltês, de Dashiell Hammett, e os assassinatos sujos — às vezes bem ordinários, luxúria e desconfianças — que imprimiam na polícia devaneios e meios arrogantes de elucidá-los.
“Não guardava ímpeto de detetive e não possuía arma, mas não foi o suficiente: deceparam-lhe a cabeça. Não sei exatamente quando aconteceu, nem percebi barulho estranho nas redondezas da casa. Não fumava, destituído de inimizades, mas de persistência atroz ao escrever páginas e páginas a lápis, em grossos cadernos, para depois apagá-las. Tentei ler um escrito, colocando uma página contra a luz; percebiam-se rabiscos, mas não sabia por qual idioma começar. Nunca falara sobre os escritos, guardados num armário fechado, ao lado da estante”.
Não era propriamente uma casa: tinha telhado, paredes, móveis, uma biblioteca e até uma toalha de mesa. “Quem sabe o ladrão se empolgasse com o objeto e nos deixasse em paz, vivos. Não havia joias nem passatempos, e a televisão às vezes se interessava pelo ambiente, mas sempre dormia.
Soube pela vizinha, com quem não tenho proximidade ou relação, talvez devido à utilização grandiloquente das cores primárias, uma insistência aborrecedora e a geometria exacerbada — quem sabe uma birra com Euclides. Desaforadamente me disse que o volume é uma ilusão. Pensei em refutá-la, mas o conselho veio de súbito: ‘Forget’.
Foi cortês, educada e gentil. Estendeu-me, em silêncio, um pedaço de papel onde estava escrito: cortaram a cabeça de Garcia. Olhou-me no silêncio, despediu-se acenando com a cabeça e desapareceu.
Mirei a rua: o insuportável Dr. Arrabal, a insistência de Rosângela em parecer bonita, o xingamento entre os taxistas, meninos querendo apanhar o sexo, sem se decidir se subiam na árvore, pulavam o muro ou esperavam chegar o aniversário. Seria um bom presente, suponho — ou é melhor comer de véspera?
Como a paisagem estava calada, entrei em casa e liguei a televisão para ver o noticiário de crimes, roubos, fraudes, eleições, estelionato, charlatanice e descobertas científicas in progress, assentadas no penúltimo interesse — seja porque o conhecimento é vasto, os polímatas desapareceram e o tempo consome sexo e deus em larga escala, sem que ainda não tenham sido encontrados substitutos que os condensem no frame exato. Não havia qualquer menção à cabeça de Garcia. Parecia não ter havido crimes naquele dia — ou não foram suficientes. Fiquei irritada. Conjecturas são uma maldição. ”
*Gerson Brasil – jornalista e escritor
