Sobre a política na república de tamborete

Alguns amigos que fazem parte do meu micro universo de leitores, vez por outra, pedem para que eu escreva algo sobre a situação da política brasileira. Confesso que me sinto desanimado em atendê-los; em razão da enxurrada de textos e comentários que tratam do assunto, publicados nos diversos tipos de mídias.
Artigos que abordam o tema sob as mais diversas óticas e maneiras. Desde os arrojados e intentos escritos com seriedade e profundos conhecimento de causa, até aqueles debochados, anárquicos e chulos feitos em tons de cáusticas anedotas. Todos me conduzem a considerar que, diante de tantas críticas, nada mais restaria dizer. Tudo seria mera repetição.
Aliás, tudo e muito mais já vem sendo dito desde o tempo em que a república foi, à força, implantada de maneira vil e traiçoeira. De lá para cá, nada, absolutamente, nada mudou e, se alguma mudança houve, foi em sentido contrário ao da boa e bem faceja teoria da evolução.
Apesar de achar que a esperança é como a linha do horizonte para um náufrago no meio do infindável oceano, algo inalcançável; luto para incorporar os dizeres de Ariano Suassuna: “O otimista é um tolo, o pessimista é um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.”.
Mas, sem querer contrariar a máxima do parágrafo anterior, de repente e por ímpeto, lembrei-me do admirável Lima Barreto, autor que em minha adolescência tive a felicidade de conhecer através de livros como “Triste fim de Policarpo Quaresma”, “O homem que sabia javanês” e, mais recentemente, nas “Recordações do escrivão Isaías Caminha”.
Sendo assim, para não decepcionar os meus queridos leitores, peço permissão para a partir das palavras do grande e quase esquecido Lima Barreto, fazer também as minhas palavras e declarar o meu desabafo; uma vez que jamais teria inspiração e competência para escrever sobre a política dessa nossa republiqueta de tamborete da maneira que fez ele na preciosa crônica “A política republicana”, publicada em 19/10/1918; a qual apresento a seguir, preservando a ortografia da época.
“A política republicana”
Por Lima Barreto
Não gosto, nem trato de política. Não há assunto que mais me repugne do que aquilo que se chama habitualmente política. Eu a encaro, como todo o povo a vê, isto é, um ajuntamento de piratas mais ou menos diplomados que exploram a desgraça e a miséria dos humildes. Nunca quereria tratar de semelhante assunto, mas a minha obrigação de escritor leva-me a dizer alguma coisa a respeito, a fim de que não pareça que há medo em dar, sobre a questão,
qualquer opinião.
No Império, apesar de tudo, ela tinha alguma grandeza e beleza. As fórmulas eram mais ou menos respeitadas; os homens tinham elevação moral e mesmo, em alguns, havia desinteresse. Não é mentira isto, tanto assim, que muitos que passaram pelas maiores posições morreram pobríssimos e a sua descendência só tem de fortuna o nome que recebeu.
O que havia neles, não era a ambição de dinheiro. Era, certamente, a de glória e de nome; e, por isso mesmo, pouco se incomodariam com os proventos da “indústria política” A República, porém, trazendo tona dos poderes públicos, a bôrra do Brasil, transformou completamente os nossos costumes administrativos e todos os “arrivistas” se fizeram políticos para enriquecer.
Já na Revolução Francesa a coisa foi a mesma. Fouché, que era um pobretão, sem ofício nem benefício, atravessando todas as vicissitudes da Grande Crise, acabou morrendo milionário. Como ele, muitos outros que não cito aqui para não ser fastidioso.
Até este ponto eu perdôo toda a espécie de revolucionários e derrubadores de regimes; mas o que não acho razoável é que eles queiram modelar todas as almas na forma das suas próprias.
A República no Brasil é o regime da corrução. Todas as opiniões devem, por esta ou aquela paga, ser estabelecidas pelos poderosos do dia. Ninguém admite que se divirja deles e, para que não haja divergências, há a “verba secreta”, os reservados deste ou daquele Ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência.
A vida, infelizmente, deve ser uma luta; e quem não sabe lutar, não é homem.
A gente do Brasil, entretanto, pensa que a existência nossa deve ser a submissão aos Acácios e Pachecos, para obter ajudas de custo e sinecuras. Vem disto a nossa esterilidade mental, a nossa falta de originalidade intelectual, a pobreza da nossa paisagem moral e a desgraça que se nota no geral da nossa população.
Ninguém quer discutir; ninguém quer agitar idéias; ninguém quer dar a emoção íntima que tem da vida e das coisas. Todos querem “comer”.
“Comem” os juristas, “comem” os filósofos, “comem” os médicos, “comem” os advogados, “comem” os poetas, “comem” os romancistas, “comem” os engenheiros, “comem” os jornalistas: o Brasil é uma vasta “comilança”.
Esse aspecto da nossa terra para quem analisa o seu estado atual, com toda a independência de espírito, nasceu-lhe depois da República. Foi o novo regime que lhe deu tão nojenta feição para os seus homens públicos de todos os matizes.
Parecia que o Império reprimia tanta sordidez nas nossas almas.
Ele tinha a virtude da modéstia e implantou em nós essa mesma virtude; mas, proclamada que foi a República, ali, no Campo de Santana, por três batalhões, o Brasil perdeu a vergonha e os seus filhos ficaram capachos, para sugar os cofres públicos, desta ou daquela forma.
Não se admite mais independência de pensamento ou de espírito. Quando não se consegue, por dinheiro, abafa-se.
É a política da corrução, quando não é a do arrocho.
Viva a República!
A.B.C., 19-10-1918.
Jair Araújo – escritor / Membro Correspondente da ALACIB – Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil, Mariana – MG e do INBRASCIMG – Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais – Minas Gerais; Membro efetivo da SBPA – Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas.

Tão atual esse texto, após século!
Parabéns por suas sensatas ponderações. Sempre lúcidas e coerente! Orgulho!
Cara escritora, Nilze Monteiro!
Feliz pela publicação do seu comentário. È sempre bom ter a opinião de pessoas do seu quilate. Agradeço imensamente
Abraço fraterno.
Oi Jair, se o não conhecesse poderia afirmar que você é modesto, mas não. Você é uma biblioteca ambulante que só nos faz aprimorar nossos conhecimentos. Seus textos, com uma redação primorosa, clara e objetiva nos faz viajar e nos mostra como somos ignorantes e o quanto precisamos ser cuidadosos em nossas opiniões. Seus textos nos colocam com a cabeça deste tamanho. Ouvindo você aguça a nossa vontade de ser igual. Você é invejável. Forte abraço “Enciclopédia Ambulante”LEVI
Caro Evaldo, Isso mesmo, atualíssimo. Até parece mentira. Abraço fraterno e grato por comentar.
Prezado Levi!
Agradecido pelo bondoso comentário, fruto da amizade. Difícil acreditar que há mais de um século a nossa política continua com os mesmos vícios, pior, de forma bem mais aprimorada. A nossa gente carece de educação de boa qualidade. Há tempo que as instituições de ensino transformaram-se em centros de doutrinações politicopartidarias. O povo sequer tem memória. Ignora a nossa história. Digo, a verdadeira história.
Tudo é mantido, propositalmente, da mesma forma para a manutenção do poder, com base num sistema em que as oligarquias econômicas e políticas se locupletem com os vícios da corrupção. De tempos em tempos, mudam apenas as embalagens, os rótulos, a essência continua a mesma. O povo é parvo, meu caro.
Abraço fraterno.
Eu mesmo não conhecia este texto fantástico e tão atual de Lima Barreto! Jair além de nos presentear com esta perola, usou o mesmo como trampolim para saltar bem alto, trazer para nossa realidade de hoje, e enterrar a bola na sexta!
Paulo, querido amigo! Agradecido pelo seu comentário. Veja que, politicamente, a nossa rpubliqueta de tamborete continua no passado. Trascorrido pouco mais de um século o cenário evoluiu para pior e os atores parecem ser os aqueles mesmos seres desprezíveis, hoje reencarnados.
Abraço fraterno!
Paulo, querido amigo! Agradecido pelo seu comentário. Veja que, politicamente, a nossa rpubliqueta de tamborete continua no passado. Trascorrido pouco mais de um século o cenário evoluiu para pior e os atores parecem ser os aqueles mesmos seres desprezíveis, hoje reencarnados.
Abraço fraterno!