POR QUE, DEPOIS DE TANTOS ANOS DE LUTA, A DISCRIMINAÇÃO RACIAL AINDA PERMANECE NO BRASIL?

Os mestres educadores Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira estavam certíssimos quando fizeram seus alertas sobre a educação brasileira.
Como afirmou Darcy Ribeiro:
“A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto.”
E Anísio Teixeira ensinou:
“Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a da escola pública.”
Diante dessas reflexões, uma pergunta permanece:
Por que, depois de tantos anos de luta, a discriminação racial ainda permanece no Brasil?
Sem uma reforma do ensino, com a participação efetiva dos professores no processo educacional, não haverá esperança de construir uma educação de qualidade capaz de promover mudanças comportamentais nas futuras gerações.
Sem investimentos e sem dar à educação de qualidade a devida prioridade, as futuras gerações continuarão enfrentando sérios problemas sociais, entre eles a violência, a insegurança e a desigualdade.
É por essa razão que defendo a criação do S do Serviço Social do Esporte e Cultura/ SESPOC, proposta publicada no Notícia Livre em 27 de outubro de 2022.
Educação, cultura, arte e esporte são investimentos, e não despesas.
Motivar os jovens a desenvolverem interesse pela educação, pelo esporte, pela arte e pela cultura significa criar caminhos para a descoberta de novos talentos e lideranças, contribuindo também para afastá-los das ilicitudes.
HISTÓRIA, RESISTÊNCIA E EXEMPLO
Sou filho de um cidadão negro, Eurico Senna, que participou, ao lado de João Cândido, conhecido como o “Almirante Negro”, entre outros, da Revolta da Chibata, em 1910.
Sou também irmão de Gilberto Senna, ex-combatente da Marinha que participou da Segunda Guerra Mundial, e de Carlos Senna, mestre de Capoeira e aluno de Mestre Bimba.
Em 1953, Carlos Senna participou, ao lado de Mestre Bimba, de uma apresentação no Palácio da Aclamação para o então Presidente da República, Getúlio Vargas.
Mestres Senna e Itapoan também participaram do translado dos restos mortais de Mestre Bimba, de Goiânia para Salvador, com o apoio da Prefeitura de Salvador.
Em 1955, Carlos Senna fundou o Centro de Pesquisa, Estudo e Instrução de Capoeira Senavox.
Também introduziu o uso do abadá, traje inspirado nas roupas utilizadas por carroceiros, estivadores e trapicheiros, além de criar uma saudação específica na Capoeira, na qual o capoeirista coloca a palma da mão direita sobre o peito, na altura do coração, pronuncia a palavra “SALVE” e faz um gesto suave de cumprimento ao companheiro de jogo.
Um feito marcante de Carlos Senna foi a introdução dos cursos de Capoeira no Clube Baiano de Tênis e na Associação Atlética da Bahia.
Carlos Senna também solicitou ao então governador Antônio Carlos Magalhães apoio para o reconhecimento da Capoeira como arte. Essa iniciativa foi encaminhada ao então ministro da Educação e Cultura, Eduardo Mattos Portella, por meio do Ofício nº 126/80, de 9 de setembro de 1980.
São histórias de luta, resistência e conquistas como essas, que representam educação e inclusão social, que precisam ser transmitidas às novas gerações.
É necessário que nossos jovens compreendam a importância da consciência, da dignidade, da organização e da conquista dos espaços que pertencem a todos, conforme determina a Constituição Federal.
Afinal, o artigo 5º da Constituição Federal estabelece:
“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza.”
EDUCAÇÃO E COMPORTAMENTO
Quando ouço discursos de cidadãos negros, inclusive de integrantes de movimentos sociais, que, na minha visão, acabam contribuindo para a manutenção do próprio sistema que criticam, confesso que sinto tristeza diante da permanência da discriminação racial, do preconceito e da injúria racial no Brasil e no mundo, em pleno século XXI.
Quando você troca o voto por um favor pessoal, pode acabar elegendo um candidato sem compromisso verdadeiro com as necessidades da população.
E, ao escolher mal, pode contribuir para eleger representantes que prejudicam milhões de brasileiros, inclusive sua própria família.
Desde criança, aprendemos que quem cria e transforma qualquer coisa é o ser humano.
E quem quer respeito também precisa aprender a respeitar.
O ser humano educado constrói e transforma a sociedade.
É na educação dos filhos que também se revelam as virtudes dos pais. A educação vem do exemplo e das atitudes.
A formação começa em casa, mas precisa ser fortalecida pela escola, pela família e pela sociedade.
Ocorre que a inversão de valores vem conquistando espaço em parte das famílias e da sociedade moderna.
Precisamos nos preocupar com aquilo que desejamos deixar para os filhos dos nossos filhos se não estabelecermos limites, disciplina, responsabilidade, ética e consciência cidadã.
CONSCIÊNCIA E AUTONOMIA POLÍTICA
Por isso, defendo que o cidadão negro precisa conquistar maior autonomia política, participando ativamente das eleições e apoiando candidatos comprometidos com a educação de qualidade, a valorização da cultura negra, a igualdade de oportunidades e a construção de políticas públicas capazes de promover emprego, renda e dignidade.
Essa participação deve ocorrer com organização, união, consciência e independência, sem submissão a favores, interesses pessoais ou manipulações políticas que prejudiquem a própria população.
Precisamos conhecer nossas riquezas culturais e valorizar a história de grandes referências de cidadãos que contribuíram — e continuam contribuindo — para o crescimento do Brasil, como o professor e geógrafo Milton Santos; o professor Abdias do Nascimento; o médico psiquiatra Juliano Moreira; a baiana Maria Odília Teixeira, formada pela Faculdade de Medicina da Bahia, em 1909, e uma das pioneiras negras da medicina brasileira; o tributarista e professor Edvaldo Britto; o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa; Pelé, Boxeador, Waldemar Santana, Gilberto Gil, Mestre Didi, entre tantos outros.
Melhor comprovação de resistência do que a ousadia e a coragem dos presidentes que criaram blocos como Filhos do Mar, em 1943; o afoxé Filhos de Gandhy, em 1949; Mercadores de Bagdá, em 1950; e o Ilê Aiyê, primeiro bloco afro do Brasil, fundado em 1º de novembro de 1974, no bairro do Curuzu, na Liberdade?
O bloco nasceu com o propósito de valorizar a população negra e combater o racismo nos festejos carnavalescos, que, basicamente, eram dominados pela elite.
As referências estão indo embora.
E fica a pergunta:
Como está a renovação dessas referências diante do nível educacional do Brasil?
É preciso transformar essas histórias e referências em inspiração para as novas gerações.
REPRESENTAÇÃO POLÍTICA É FUNDAMENTAL
Há anos defendo a necessidade de ampliar a representação negra nos espaços de poder e, inclusive, discuti a criação de um partido político voltado à defesa dos interesses da população negra: o PNB – Partido da Negritude do Brasil.
Em fevereiro de 2020, o portal Notícia Livre publicou o artigo “Alderico Sena defende a criação do PNB – Partido da Negritude do Brasil”, no qual apresentei essa proposta e destaquei a importância da participação política da população negra.
O debate continua atual.
Recentemente, em dezembro de 2025, o Partido Afrobrasilidade divulgou sua luta pelo registro definitivo da legenda e defendeu a ampliação da participação política da população negra, argumentando que a democracia somente se concretiza plenamente quando grupos historicamente excluídos possuem condições reais de organização e representação.
Independentemente de posições partidárias, uma questão precisa ser discutida pela sociedade:
Como garantir que a população negra tenha participação efetiva nos espaços onde são tomadas as decisões que influenciam a vida de todos?
É no Poder Legislativo, principalmente, que se discutem e aprovam leis, orçamentos e políticas públicas. Mas a participação também precisa estar presente nos demais espaços institucionais de poder e decisão.
Não basta reclamar da falta de representação e da exclusão social.
É necessário participar.
A população negra precisa discutir suas prioridades, formar lideranças, preparar seus jovens, incentivar a educação política e compreender que o voto é um instrumento de transformação social.
A representação política não deve significar apenas ter pessoas negras ocupando cargos.
É necessário que essas pessoas tenham compromisso com a democracia, com a igualdade perante a lei, com a educação, com a cultura, com a geração de oportunidades e com o combate a todas as formas de discriminação e violência.
ORGANIZAÇÃO, UNIÃO E PARTICIPAÇÃO
Infelizmente, o analfabetismo político ainda predomina em parte da sociedade.
A conhecida frase atribuída a Bertolt Brecht — “O pior analfabeto é o analfabeto político” — continua provocando reflexão.
A democracia não se fortalece apenas no dia da eleição.
Ela se constrói todos os dias, por meio da participação consciente da sociedade.
Por isso, deixo uma mensagem à Negritude:
Nada mudará se nós não mudarmos.
É preciso organização, união e participação.
A liberdade, o respeito e a igualdade não são favores.
São direitos.
A transformação começa pela educação, passa pelo comportamento e pela consciência política, e também se concretiza pela decisão responsável diante da urna.
Por isso, deixo esta mensagem:
Depois de tantos anos de luta, o que nós estamos fazendo hoje para que as próximas gerações encontrem um Brasil mais justo, mais educado e verdadeiramente igualitário?
O Brasil precisa de um novo rumo. Esse caminho começa pela consciência política e pelo voto responsável. Dê valor ao seu voto e a você, eleitor.
NEGRITUDE: Querer é poder, seja a mudança nas eleições, seja por sua importância, porque é na área do governo que se decidem os destinos do país e as condições de vida da população.
Pense nisso e compartilhe entre amigos e familiares!
Alderico Sena – Especialista em Gestão de Pessoas e Ex-Diretor da SECNEB – Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil – @aldericosena
