O salto 8

*Gerson Brasil
Alta, cabelos louros, presos, num único salto, apoiou-se levemente na barra transversal da porta, venceu os dois degraus rapidamente e subiu no ônibus, na companhia dos saltos de dez centímetros — do espanhol Manolo Blahnik. Sapatos invejados.
Estacionou. Inclinou-se de súbito e se desfez do cigarro, agora encostado entre o batente da calçada e a rua. O corpo acompanhou a manobra com precisão, e alguém decidiu imitá-la: avançou, pediu a repetição do gesto e se possível um rascunho; como agradecimento, estendeu um cigarro e um isqueiro chapado, retangular, de bordas finíssimas, quase uma lâmina.
O motorista observou discretamente e se lembrou do tio paraquedista e das proezas, sempre evocadas em almoços e jantares comemorativos. Lutos, aniversários e nascimentos se acomodavam à mesa com igual solenidade, ao lado de outros episódios guardados na memória da cidade, sem data definida e motivos claros. Morreu ao dar um salto parafuso, levou a vaidade ao limite e o encontrou: não foi possível reclamar e o meio irmão logo tomou o lugar, mas como era bastardo acautelou-se, tinha medo das vaias.
Gorducho, barba desafiadora, o motorista saltou também — não no espaço, mas no tempo: voltou aos 20 anos. Nadava na piscina do clube, abrigada num pavilhão retangular de proporções intimidatórias, distante da cidade. Cortava a água repetidas vezes, sem cansaço; recebia em troca o corpo torneado e os elogios — uns sinceros, outros atravessados (a inveja não morre). Havia ainda olhares de cobiça, amparados numa bacia de recato, protocolar. O maior prêmio vinha da família: respeito e saúde exibidos. Era uma estátua em movimento, vantagem silenciosa na disputa por alguma garota.
Alguns passageiros registraram o desejo de também dar o salto da mulher, mas faltava alguma coisa. Ora, remetiam-se às roupas: “isso ajuda a carregar o peso do corpo. Tenho uma amiga, um pouco vencida, não traz a etiqueta do supermercado; por isso mesmo, não conseguem lhe decorar a carne, mas, no limite da desconfiança, acenam, dirigem-lhe elogios, detêm-se a olhar, na esperança de encontrar o caminho para a parábola de Mateus 25:14–30 e se apoderar da “responsabilidade de usar os dons e recursos dados por Deus de maneira produtiva.”
Alguém intuiu oito meses de ginástica na academia dos fuzileiros navais, excluindo, de imediato, malhas, mensalidades, batom, cílios bem compostos e garrafas de água. A disposição seria suficiente para os músculos darem a resposta correta à inquietante indagação: “nossa, parece ter saído de uma filmagem de desenho animado. Humanus es, mas cabem dúvidas”.
O homem sentado na quarta cadeira da fila dupla gostaria de chegar em casa, tomar banho e deixar para trás aquele incômodo, porque o ônibus estava parado e cada passageiro tinha uma interrogação. “Tenho gigantescas dúvidas se um detetive, bem pago, poderia descobrir ou organizar, numericamente ou por ordem alfabética, as proposições, os desejos e as interpretações loquazes, sem provocar atrito ou admoestação em virtude do acontecido.”
Procurou companhia para o pensamento e encontrou uma passageira entre a raiva e o orgulho de tentar decifrar o que os outros, talvez, num insight descompromissado, e faltando uma casa decimal, estavam arrematando num leilão.
Acreditou, por fé ou má-fé, estar diante de um problema que não lhe cabia; afinal, era quinta-feira, ontem fora ao médico, e desafios não aparecem assim de repente. Alocou a argumentação no poema: requer imaginação, sensibilidade, muitas leituras, às vezes resposta contra a grosseria, como o homem pisar na Lua. W. H. Auden disse que “os heróis de Homero não eram certamente mais audazes, que o nosso Trio, mas tiveram melhor sorte. Heitor foi poupado ao vexame de a sua bravura ser coberta pelas câmaras de televisão.”
Alice ficara encantada e curiosa com o coelho; os passageiros, com a coreografia, cuja magnificência impediu que os saltos pisassem no assoalho do ônibus, fingiram se agachar. Não eram de borracha, mas não houve qualquer ruído. Não entrou nem saiu — as janelas estavam fechadas, guardando 20 graus. A perplexidade em que se encontravam impedia decifrar o gesto, e os sapatos aumentavam ainda mais a angústia.
Atrás do motorista, a revendedora de cosméticos, bem maquiada, trazia na blusa a inscrição: “Seja Feliz, com Medusa — Instituto de beleza e correção facial”. Calculou o peso da acrobata, incluindo o vestido e os sapatos, e não encontrou número desejável; repetiu a ação várias vezes, mas sempre obtinha uma fração. Maldita matemática ou talvez seja insuportável ver alguém, honorável ou não, num vestido monocromático, sem precisar de ajustes, nos tornar desengonçados e insuficientes. Dói.
O tempo estava parado; contraditoriamente, a inquietação se expandia. O que fazer? Não havia Bíblia para consultar, nem o Vade-mécum. A senhora sentada na primeira cadeira, no lado oposto ao do motorista, tentou recordar a passagem em que Deus ensina a Moisés a abrir o Mar Vermelho, mas ponderou: “fui longe demais. Temo acreditar que beijei, inofensivamente, Aldroado Martins Carramucho. Estou a caminho da velhice, mas não sou tola.”
— Senhorita! Vai saltar no ponto da doceria?
— Não! Vou beber uísque sem gelo no Bar Blue and Red. Acabei de assassinar Pedro Correia; a polícia deve estar procurando o homem que o matou. Não se preocupe: guardei a faca na bolsa. Caso haja recaída, não ignoro o trabalho e não desejo mal a quem mato. O uísque substitui o arrependimento e a remissão. Custa caro, por isso mesmo, não pode haver abusos. Mas isso não me torna pagã ou feiticeira, ou alguém despido de fé, me disponho até ter tolerância e dúvidas. Não se preocupe, sei me proteger e o destino viaja comigo, me acompanha, mas não estou amarrada, falsos sonhos se encarregam de despistá-lo. Acredito em deus e em todas as mentiras, afinal, não se trata de protocolo régio. E se, de repente, chover amanhã…
