O corticoide jurídico

Gerson Brasil*
Há sempre questões a resolver. Nem o descuido, nem a falta de invenção, nem mesmo o esforço para solapar conseguem deixá-las de lado. Pelo contrário, há sempre uma exegese, empenho desmedido na intenção de solucionar o desarrazoado. Às vezes são empregados métodos, arrolados como testemunhas de alguma forma científica (política) ou revolucionária, ou religiosa, os dois últimos se confundem, porque são dotadas de convicção inarredáveis. É como se desse ao bêbado a roda do mundo já sabendo que ele ou qualquer outro obteria o mesmo resultado, já traçado ulteriormente.
Digamos que a tomada de decisão não produziu até agora gaiolas suficientes, onde todas as verdades fossem demonstradas e não penas aceitas como axiomas, sendo o mais conhecido ‘A história do homem ainda não começou’.
O empenho em resolver problemas é uma atividade diligente, a consagrar engenhosidades, bem além das mil e uma Noites empregadas por Sherazade para permanecer com o pescoço fora do cutelo. No entanto, mesmo abarcando a lógica, a ratio, as ciências, o fervor cívico, nem sempre se chega a grandes resultados, na perspectiva de serem comemorados por aqueles que o estão vivenciando e muito menos para quem a história será contada.
A crença às vezes é amiga da trapaça, charlatanice, em outros momentos presta auxílio inestimável à ciência, com ou sem algum indício de prova, porque existem coisas que se tornam correntes, sem exibir ao menos um decalque, mas não são enterradas no esquecimento. “Ouvi dizer” tem o mesmo peso de um relato precedido de fontes históricas, com suas consequências e o desenrolar dos acontecimentos.
Em primeiro de abril de 1964, os brasileiros ouviram dizer que se dessem ouro ao governo faria bem ao Brasil. Famílias desfizeram-se de anéis, pulseiras, correntes de ouro, alianças, deixaram de lado a simbologia do casamento, num forte desacato à igreja, mas acreditaram que estavam salvando o país de uma desgraça.
O fim do mundo, as desgraças, o infortúnio, e a bem-aventurança seguram a mão do bêbado, de tal sorte, que todos se sentem seguros e improváveis, daí a desconfiança e o ímpeto de arrebatar das mãos do bêbado a roda. Mas surpreendentemente surge um problema, derrubar o bêbado não é uma tarefa digna, um lustre social, a enaltecer a ‘corajosa’ ação e as possíveis condecorações ulteriores. Se o heroísmo não faculta a gloria, tampouco a tolice abraça o júbilo.
Sempre se aplica ao mal a ser corrigido a lógica (?), na identificação da febre ou da pneumonia e também do dinheiro roubado. No que concerne à medicina, os medicamentos têm se mostrados eficientes – claro, sem que o paciente leia a bula. No caso do dinheiro não se pode medicá-lo, ou aplicar um corretivo, uma admoestação, colocá-lo de joelho sobre o milho. Seria uma temeridade e logo coroada com a rubrica de crime.
Recorrer a terceiro é uma aposta e como tal, toda aposta é arriscada, embora muita gente aposte – e não é de hoje, e ganhe fortunas. E nunca se sabe como se deu a escolha do número ou como foi elaborado o sonho. E mesmo que isso fosse possível, nem sempre se tem a sorte do homem que era acusado de crimes contra o Estado e sonhou que perdia seus documentos comprobatórios. O sonho é relatado por Artemidoro, em “ Sobre a Interpretação dos Sonhos”, viveu na segunda metade do século II. Filósofo e autor de textos de quiromancias e profecias, Freud, não só o leu, como disse ser ‘o mais completo e meticuloso estudo da interpretação de sonhos praticada no mundo greco-romano’.
Conta Artedimoro, que “no dia seguinte, depois da instrução do processo, ele foi liberado das acusações. Ora, era exatamente isto que o sonho significava: uma vez liberado das acusações ele não precisaria mais de documentos”. Artedimoro não era ingênuo para acreditar que sonho a desaguar em sortilégio poderia contemplar qualquer um. “ Mãos fortes e belas significam sucesso, sobretudo para os artesãos (…); no entanto, para quem receia ter as mãos amarradas, o sonho não deixa de inspirar terror”.
Se a República não é alcançada (e a conturbação sempre se faça presente), – o que daria conta dos problemas, advindos de diversos motivos, talvez, por incúria ou sabedora; poderia se deslocar alguma atenção a Blaise Pascal. Na pausa a Descartes, formulou que “nem a contradição é sinal de falsidade nem a falta de contradição é sinal de verdade”.
Pascal, matemático, físico, teólogo e filósofo francês trabalhava o conhecimento e era declaradamente contra o positivismo de Descartes. É inegável que o conhecimento faz par com a virtude, mas “Funes, o Memorioso” de Borges, sabia muita coisa, menos pensar. Embora a medicina seja proeminente em debelar doenças. Já aquelas advindas da República -, sempre inacabada nos trópicos -, são propensas a remédios popularescos e corticoides jurídicos, desde que os privilégios sejam mantidos.
Selecionar discursos, controlá-los e distribuí-los de modo a evitar perigos e perda de poder, denota que o governo se escora no Estado e ama a República para se proteger, postergar e sempre se inaugurar como novo. As consequências dessa forma de agir não têm garantido sucesso e nem é postulada a introdução de variantes na lógica, principalmente levando-se em consideração a formulação do filósofo inglês, John Locke, do século XVII, para quem a aceitação do governo deveria ser limitada, o imperativo consagrando o respeito à liberdade pessoal e de expressão, e à inviolabilidade da propriedade privada.
Mas fingir a salvação é mais conveniente, não requer pensar, o discurso já está pronto, como também já está pronto o protesto. Todo ano há “O Grito dos Desesperados”. Ninguém os houve, portanto, seria plausível alguma alteração. Fazer fogueiras, por exemplo, mas não como aquelas de São João. Mas convenhamos, o protesto e o fingimento garantem o encaminhamento para que tudo se mexa, sem sair do lugar, como ‘A Volta ao Dia em 80 Mundos’. Mas, no caso, não se trata de uma roda gigante, semelhante à de Londres, e sim de um exercício literário.
Gerson Brasil – Jornalista e escritor.

“Embora a medicina seja proeminente em debelar doenças. Já aquelas advindas da República -, sempre inacabada nos trópicos -, são propensas a remédios popularescos e corticoides jurídicos, desde que os privilégios sejam mantidos.” Esse parágrafo, entre tantos outros também excelentes, destaco como verdadeira pérola. Você é um filósofo! Parabéns!