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Salvador recebe encontro sobre arquivos comunitários, território e memória

Evento reuniu movimento social, academia, pesquisadores e iniciativas de acervo para discutir preservação, território, acesso e protagonismo nas políticas de memória

Os arquivos comunitários ocuparam o centro do debate no último dia 24 de abril, em Salvador, durante o encontro Arquivos Comunitários, Território e Disputas pela Memória, que reuniu representantes de iniciativas autônomas de preservação, pesquisadores, estudantes, gestores e articuladores do campo da memória. Ao longo da programação, o evento consolidou-se como um espaço estratégico de escuta, formulação e articulação política em torno do direito à memória, do reconhecimento dos acervos populares e da construção de narrativas a partir dos próprios territórios.

Com mesa temática pela manhã e fórum aberto à tarde, o encontro promoveu diálogos entre experiências vindas da favela, da universidade, de instituições públicas e de arquivos negros construídos de forma autônoma. Mais do que discutir preservação documental, a programação evidenciou os desafios de sustentabilidade, acesso, reconhecimento institucional e fortalecimento de redes entre iniciativas que atuam na salvaguarda de histórias frequentemente ausentes dos registros oficiais.

Para Elson Rabelo, pesquisador e consultor do Zumví, a força do encontro esteve justamente na capacidade de reunir diferentes campos em torno de uma agenda comum. “É um fórum importante porque articula a academia, o movimento social e um conjunto de instituições que, em diferentes estados, têm lutado pela preservação da memória e pela mudança dessa sociedade injusta e desigual”, afirmou. Elson também ressaltou que o evento se apresenta como um gesto de “soberania, autonomia e autodeterminação dos arquivos comunitários”, ao mostrar que essas iniciativas têm pautas, demandas, história e contribuições concretas para o país que se quer construir.

A dimensão formativa e simbólica da programação também marcou quem participou do encontro. Mestranda em História Social da UNEB, Natália Alcântara destacou a importância do Zumví como referência para pensar ancestralidade, imagem e preservação da memória negra. “O Zumví chega como esse espaço em que a gente não apenas interroga o passado, mas encontra respostas sobre a nossa ancestralidade e sobre a formação do povo brasileiro”, disse. Para ela, o encontro também reforçou a necessidade de aproximar a academia dos acervos populares, sobretudo daqueles voltados à memória negra e à memória de mulheres negras em Salvador, ainda atravessados por exclusões em editais, debates acadêmicos e até mesmo nas definições do que é reconhecido como arquivo e memória no Brasil.

A participação de representantes de iniciativas territoriais também deu o tom do encontro. Integrante do Arquivo da Laje, Vilma Santos falou sobre o peso de ver periferias e subúrbios reconhecidos como lugares de produção de memória. “Para a gente é muito importante porque valoriza o nosso espaço enquanto periferia e subúrbio, com suas histórias, memórias e características negras, que nem sempre são reconhecidas”, afirmou. Vilma também chamou atenção para a importância de fazer a memória circular dentro das próprias comunidades. “Às vezes, as pessoas moram no território e não conhecem a sua história. Por isso, é fundamental que a comunidade esteja junto e compartilhe essa memória”, completou.

Na avaliação de Jean Camoleze, do Instituto Galo da Manhã, o encontro também representou um passo importante na consolidação de uma agenda mais estruturada para os arquivos comunitários e populares no Brasil. “O Fórum foi um começo para estabelecer uma rede, juntar força e poder e melhorar os arquivos comunitários, até mesmo os públicos, não só na estrutura, mas também na troca de experiência, que é fundamental para esse tipo de trabalho”, afirmou. Segundo ele, a participação do Programa Pró-Memórias na realização do encontro reforça o compromisso de fomentar arquivos protagonistas, tanto na gestão de seus acervos quanto em suas ações educativas.

No centro desse debate esteve o Zumví Arquivo Afro Fotográfico, referência incontornável quando se fala em memória visual negra no Brasil. Fundado em Salvador, em 1990, por Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, o arquivo nasceu do compromisso de registrar a vida da população negra por mãos também negras, consolidando-se como espaço de memória, fotografia e militância. Essa trajetória também ganha projeção nacional com a exposição Zumví Arquivo Afro Fotográfico, em cartaz no IMS Paulista, que reúne cerca de 400 fotografias e documentos sobre movimentos sociais, blocos afro, afoxés, religiosidades, mercados populares e cenas do cotidiano da população negra baiana.

Ao final do encontro, ficou evidente que falar de arquivos comunitários é falar de disputa de narrativa, de pertencimento e de futuro. Em um país ainda marcado por apagamentos estruturais, eventos como esse reafirmam que preservar memória não é apenas guardar documentos: é sustentar histórias, fortalecer sujeitos e garantir que determinados legados não continuem à margem.

Sobre o Zumví Arquivo Afro Fotográfico

Fundado em Salvador, em 1990, por Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, o arquivo nasceu do compromisso de registrar a vida da população negra por mãos também negras, em um contexto em que a população negra raramente era fotografada a partir de suas próprias perspectivas. Ao aproximar a experiência do arquivo do debate sobre arquivos comunitários, o Fórum reforça que preservar memória também é disputar sentido, reconhecer protagonismos e garantir que determinadas histórias não permaneçam à margem dos registros oficiais.

Atualmente, essa trajetória ganha novo alcance com a exposição Zumví Arquivo Afro Fotográfico, em cartaz no IMS Paulista, em São Paulo, reunindo cerca de 400 fotografias e documentos que atravessam movimentos sociais, blocos afro, afoxés, territórios quilombolas, feiras populares, festas e cenas do cotidiano da população negra baiana. Em cartaz até 23 de agosto, a mostra reafirma o Zumví como espaço de memória, militância e produção de narrativas próprias, além de ampliar o acesso público a um acervo fundamental para a história visual negra no país.

Crédito das fotos: Fábio Moreira Junior

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