Rinaldo Trindade, advogado trabalhista
A multitrajetória de Taurino Araújo, candidato da Bahia à Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Zuenir Ventura, suscita uma pergunta maior que qualquer candidatura: que perfil pode tornar uma Academia cada vez mais viva?
Advogado trabalhista, estou habituado a pensar em termos de decisão, viabilidade e conjuntura. Por isso, penso que uma candidatura não deve ser examinada apenas pelo valor abstrato de seus atributos, mas pela relação entre esses atributos, o momento e a instituição a que se destinam. Ônus e bônus. Há um custo em toda decisão.
É sob essa perspectiva que observo Taurino Araújo não apenas perguntando o tanto que ele realizou para chegar até aqui, mas o que seu perfil pode realizar concretamente dentro da Academia Brasileira de Letras neste momento de sua história.
É consabido que uma Academia reconhece obras, mas não premia somente passados. Ao escolher um novo imortal, incorpora um acadêmico ao seu presente e ao seu futuro. Em decorrência, duas perguntas, me parecem igualmente legítimas e pragmáticas: o que esse intelectual efetivamente realizou para chegar até aqui? E o que ainda poderá realizar, também efetivamente, depois de ser imortalizado?
No caso de Taurino, a primeira resposta deve começar justamente onde a extraordinária multiplicidade de sua biografia poderia ocultar o essencial. Antes de todas as portas, está o poeta lavrador de mais de 3.000 páginas contendo entre elas alguns dos mais belos poemas da Língua Portuguesa. Antes do polímata, o poeta. É assim que Taurino Araújo chega à Academia como homem de letras e tudo o mais amplia e sedimenta essa condição.
Aos 57 anos, Taurino Araújo apresenta uma produção poética de mais de 3 mil páginas, atravessando diferentes registros: a lírica, a poesia civil, a experimentação formal, o poema narrativo, a meditação existencial e a palavra pública. A Caturna; Guadalupe Madre; A caçambilha; É tarde, mas não é tarde; Poema absurdo, todos eles pertencem ao mesmo autor sem reproduzir simplesmente a mesma dicção: é como se estivéssemos diante de poemas imprescindíveis.
Não estamos, assim, diante de poesia acrescentada como ornamento literário a uma carreira jurídica. Estamos diante de uma obra autônoma, continuada, extremamente relevante, e ainda em movimento na qual as definições de poeta e pensador utilizadas separadamente não bastam para definir o Poeta Civilizacional. Nesse sentido, talvez nenhuma demonstração seja mais expressiva do que a realizada por Nelson Cerqueira.
Em seu tratado crítico sobre A Caturna, ele acompanha um poema de apenas 96 versos até encontrar nele um sistema em que língua se converte em calçado, corpo, passo, pegada, território, memória e permanência. Ao final, considera insuficientes, tomadas separadamente, até mesmo as designações de “poeta” e “pensador” para dimensionar Taurino e identifica em sua relação com o idioma uma “cicatriz autoral”. A Caturna, de Taurino Araújo: um tratado crítico.
Logo, essa talvez seja a primeira pergunta verdadeiramente acadêmica a fazer sobre Taurino. Não quantos livros publicou nem quantas atividades exerce, mas: o que ele está fazendo e transformando com a Língua Portuguesa?
Em A Caturna, uma palavra rara deixa de ser curiosidade vocabular e passa a organizar uma travessia. Portugal, Serra do Caramulo, Recôncavo e Bahia tornam-se estações de uma língua que viaja, incorpora experiência e retorna modificada. O poeta recebe um patrimônio linguístico secular e procura devolver-lhe sua própria marca. É nesse sentido que a expressão de Nelson — “cicatriz autoral” — possui tanta força. A grande questão literária deixa de ser a quantidade da produção e passa a ser a existência de uma voz reconhecível.
Castro Alves: herdar sem repetir
Também é preciso compreender o lugar de Castro Alves na poesia de Taurino Araújo. É tarde, mas não é tarde enfrenta uma das heranças mais difíceis para qualquer poeta baiano: o condoreirismo, sua verticalidade, sua dimensão civil e sua confiança na potência pública da palavra.
Taurino, porém, não procura escrever como Castro Alves. O problema literário é muito mais interessante: o que ainda pode significar Castro Alves depois de Castro Alves?
Ao fazer isso, o impulso ascensional permanece, mas é submetido a outra engenharia verbal. O voo pode converter-se em degrau; a altitude, em construção; a proclamação romântica, em interrogação contemporânea. Permanecem liberdade, escravidão, memória, Atlântico, Bahia e responsabilidade pública da palavra. Taurino não imita o condor: reinventa a verticalidade.
Essa é mais uma operação coerente com uma frase que reaparecerá neste artigo: herdar não é repetir; transformar não é romper, conforme evidencia o ensaio crítico produzido por Edson Reis Santana.
Guadalupe Madre: quando a poesia produz teoria
Em Guadalupe Madre, a investigação muda novamente. A semioticista canado-brasileira Lícia Soares de Souza dedicou à obra o estudo de 42 páginas Female Protagonism in Guadalupe Madre, by Taurino Araújo: A Hypothesis of Transdiscursive Coherence.
Partindo do protagonismo feminino, o trabalho estabelece relações entre contextos culturais e literários distintos e propõe a hipótese da coerência transdiscursiva. Esse dado é relevante porque demonstra uma literatura que continua produzindo interpretação. Obra e fortuna crítica desenvolvem-se simultaneamente.
Aliás, é dentro desse conjunto que deve ser entendida uma das avaliações mais ousadas formuladas a respeito de Taurino, quando Lícia o situa entre “os pensadores mais originais que o Brasil já produziu”.
Quando o poeta se torna sistema de pensamento
É nesse ponto que surge Hermenêutica da Desigualdade. Se a poesia impede reduzir Taurino ao jurista, a Hermenêutica da Desigualdade impede reduzir o jurista ao advogado.
Nesse sentido, o eixo da teoria consiste em deslocar a desigualdade de uma categoria meramente socioeconômica para o próprio campo interpretativo: desigualdades reais, sociais, temporais, tecnológicas e simbólicas interferem na maneira pela qual sujeitos, instituições e linguagens produzem sentido. A recepção da obra registra incursões da teoria em 19 áreas do conhecimento.
Por causa disso, Pedro Lino de Carvalho Júnior formulou uma caracterização particularmente ambiciosa: “uma epistemologia genuinamente brasileira, afora o conceito de verdade absoluta”, surgida 95 anos depois da Semana de Arte Moderna.
O interesse dessa aproximação com 1922 não está em fabricar equivalências históricas. Está na hipótese de um pensamento que nasce desde o Brasil, procura elaborar categorias próprias e, simultaneamente, reivindica capacidade de circulação universal.
Talvez esteja aí uma das singularidades que a crítica percebe em Taurino: poesia e pensamento não funcionam como departamentos estanques. Há pensamento produzindo imagem e imaginação poética interferindo na elaboração conceitual. A palavra não é somente veículo do conceito; participa de sua construção.
Por isso, quando Lícia fala em originalidade do pensador e Nelson considera insuficientes as categorias isoladas de poeta e pensador, os dois críticos, partindo de objetos diferentes, aproximam-se de uma mesma questão: a dificuldade de separar criação estética e elaboração intelectual nessa obra.
Washington Trindade viu antes
Há um documento especialmente interessante porque antecede em quinze anos a atual candidatura.
Em 2011, o professor emérito da Universidade Federal da Bahia Washington Luiz da Trindade, mestre de Taurino, escreveu Metáfrase ao Comendador Taurino Araújo. Inspirando-se numa passagem de Chateaubriand sobre Napoleão, escreveu que a “munificência divina” havia insuflado em Taurino “o sopro mais forte que a argila humana de Jequié poderia receber”. Metáfrase ao Comendador Taurino Araújo — texto de Washington Luiz da Trindade
A Metáfrase interessa hoje menos pela grandiloquência própria de uma homenagem do que por sua anterioridade. Em 2011, não havia candidatura à Cadeira 32. O documento registra que a percepção de uma personalidade intelectual incomum precede em muitos anos a conjuntura atual.
O êxito socioliterário
Em 2022, Rommel Robatto empregou outro instrumental. Retomou a tipologia de A. L. Machado Neto, em A Bahia Intelectual (1900–1930), para examinar Taurino segundo critérios como comportamento social e político, sensibilidade social, capacidade de agregação, grau de especialização intelectual e êxito socioliterário. Taurino Araújo: baiano de vanguarda, teoria universal — Rommel Robatto
A expressão merece atenção. Literatura não existe apenas no instante solitário da escrita. Existe também na recepção, na circulação, na crítica, na formação de interlocutores e na capacidade de participar da vida cultural.
Êxito socioliterário, entretanto, não é concurso de popularidade. É categoria de existência social da obra. Essa distinção será importante quando chegarmos à opinião pública.
Guilherme Carvalho: a tradição que continua
Mais recentemente, Guilherme José de Carvalho Neto, escrevendo no portal oficial do Tribunal de Justiça da Bahia sobre a memória de Paulo Furtado, retomou expressamente a aplicação da tipologia de Machado Neto feita por Rommel a Taurino, destacando capacidade de agregação social, êxito socioliterário e especialização intelectual. Tribunal de Justiça da Bahia Dois meses sem Paulo Furtado — Guilherme José de Carvalho Neto, TJBA
O texto situa a discussão numa tradição baiana mais extensa. Guilherme escreve que Paulo Furtado recebeu e honrou uma linhagem que passa por Josaphat Marinho e Severino Vieira, reunindo Direito, poesia, arte, memória, obra, presença social e capacidade de agregação, e conclui que essa tradição precisa continuar. Tribunal de Justiça da Bahia.
Linhagem intelectual não é herança ou apadrinhamento.
O que existe é uma concepção ampliada do jurista. Josaphat Marinho representa-a de maneira extraordinária; Paulo Furtado, em outra geração, também. Nessa tradição, o Direito não encerra o intelectual dentro da técnica: comunica-se com cultura, pensamento, instituições e vida pública.
Nessa linhagem intelectual, Taurino Araújo não precisa abandonar o Direito para chegar à literatura, nem deixar a literatura à porta quando entra no Direito. Essa linhagem intelectual alcança também Joaquim Monteiro Caminhoá e o fenômeno Prado Valladares.
O Mercado das Sete Portas
Mário Nelson Carvalho encontrou uma imagem especialmente feliz para essa multitrajetória em Taurino Araújo: O Mercado das Sete Portas — Sete caminhos de uma eloquente vocação genuinamente brasileira.
Poeta, jurista, advogado, pensador, jornalista, crítico literário, artista visual, professor, ensaísta, organizador, curador, gestor e mentor: podem-se reconhecer treze frentes de atuação. Enumerá-las, porém, não explica Taurino Araújo. Apenas demonstra porque a enumeração é insuficiente.
Mário Nelson, entretanto, encontra outra solução. Organiza a trajetória em seis grandes portas — poesia, pensamento, Direito e vida pública, crítica, construção cultural e arte — que desembocam numa sétima: a convergência. A sétima porta não acrescentaria outra profissão. Conteria as anteriores.
A poesia pensa. O pensamento interroga o Direito. O Direito encontra a vida pública. A crítica devolve pensamento à criação. A construção cultural transforma pensamento em encontro. A arte materializa procedimentos que reaparecem nas demais linguagens.
Mário Nelson formula então a pergunta decisiva: por qual porta Taurino deveria entrar numa Academia? Sua resposta: pelas Sete Portas.
Do Canoatan ao fenômeno Prado Valladares
Muito jovem, Taurino Araújo já transitava, no Grupo de Arte Canoatan, em Ubatã, entre criação, organização cultural e cerimonial.
O cerimonial merece ser levado a sério. Ensina a receber, representar, articular pessoas, compreender ambientes, organizar acontecimentos e conferir forma pública à vida institucional.
Do Canoatan ao presente mudaram a escala, os meios e os interlocutores. Permaneceu uma mesma disposição: criar, agregar, organizar, representar e realizar.
É nesse ponto que outra chave apresentada por Mário Nelson ganha significado: o fenômeno Prado Valladares. A referência interessa menos como paralelismo biográfico do que como identificação de um tipo de atuação cultural cuja importância não se encerra na produção individual, porque se prolonga na capacidade de organizar, representar, articular e realizar.
É por isso que considero adequada uma expressão aparentemente administrativa para descrever uma dimensão de Taurino Araújo:
Um executivo das letras e das artes.
Taurino Araújo é executivo no sentido original de quem executa. Não apenas imagina: realiza. Não apenas agrega nomes: constrói interlocuções. Não apenas concebe: cria condições para que algo aconteça.
Signos em Transe oferece demonstração concreta dessa capacidade ao reunir 62 autores, sete países e cinco idiomas numa construção cultural coletiva. O próprio registro bibliográfico da obra confirma essa dimensão internacional e multilíngue.
Aqui, agregação deixa de ser adjetivo. Vira resultado.
O artista e o embaixador cultural
Há ainda uma combinação raríssima na multitrajetória de Taurino Araújo: a arte visual convivendo, na mesma biografia, com a poesia, o Direito, o pensamento e o magistério. Destarte, surpreendentemente, o Getty Research Institute, por meio de sua Union List of Artist Names — ULAN — registra Taurino como “Brazilian assemblage artist, poet, jurist, and professor”, nascido em Jequié em 1968, tudo ao mesmo tempo.
Logo, em Taurino Araújo, criação, cerimonial, organização cultural, docência, jornalismo, Direito e artes visuais acabam convergindo surpreendentemente com resultado extremamente positivo.
À dimensão executiva, ou seja, essa aptidão para a interlocução, acrescenta-se aquilo que eu chamaria de perfil de embaixador cultural: a capacidade de atravessar ambientes, aproximar campos, estabelecer pontes e representar projetos e instituições para além de seus círculos habituais.
A memória da Cadeira 32
E eis que a própria história da cadeira produz uma ressonância também muito interessante.
De modo semelhante a Taurino Araújo, seu patrono, Manuel de Araújo Porto-Alegre, reuniu poesia, pintura, jornalismo, teatro, magistério e diplomacia. Entre seus ocupantes esteve Ariano Suassuna, outra personalidade cuja criação atravessou literatura, teatro, pensamento e universo visual e a invenção de palavras.
Por isso, a comunicação entre literatura, pensamento, arte e atuação pública não é estranha à memória da Cadeira 32 e Zuenir Ventura acrescentou a essa história sua própria singularidade jornalística com a qual Taurino Araújo (1968-) o ano que não terminou… tanto se identifica.
Viabilidade e conjuntura
Volto então ao advogado trabalhista que sou. Decisão acertada, viabilidade e conjuntura importam. Mérito pretérito e oportunidade presente não são categorias excludentes. Uma Academia pode reconhecer aquilo que alguém realizou e simultaneamente considerar aquilo que essa pessoa ainda poderá realizar depois de eleita. Daí o diferencial de Taurino Araújo.
No vigor dos 57 anos, Taurino Araújo apresenta uma obra em movimento. A Caturna acaba de produzir extensa elaboração crítica. Guadalupe Madre recebe investigação internacional. É tarde, mas não é tarde abre uma frente de diálogo contemporâneo com Castro Alves. A Hermenêutica da Desigualdade continua sendo recebida e aplicada para além do campo jurídico.
Ele não apresenta apenas obra realizada. Apresenta capacidade de futuro.
E escolheu um verbo particularmente revelador para explicar sua candidatura: chega das “margens interioranas de Jequié e Ubatã” para “trabalhar pelas letras do Brasil”.
Academia é também convivialidade
Do ponto de vista prático, conquanto proveniente de um observador externo, uma Academia é memória, mas não apenas isso.
É presença, frequência, interlocução, projetos, transmissão entre gerações e convivialidade. É o prazer intelectual do encontro entre pessoas diferentes em torno da literatura e da cultura, tendo a sociedade — a própria Civilização Brasileira — como partícipe e a Opinião Pública como intérprete.
O perfil acadêmico ideal, portanto, não precisa ser somente o de alguém capaz de eventualmente ocupar, silenciosamente, uma cadeira. Deve ser o de alguém disposto a trabalhar nela.
A Opinião Pública não vota, mas lê, interpreta
Há, finalmente, uma dimensão da conjuntura contemporânea que merece atenção.
As eleições acadêmicas são internas, mas o ambiente em torno delas mudou.
Obras estão acessíveis na rede mundial de computadores em tempo. Estudos circulam. Entrevistas são reproduzidas. Documentos podem ser consultados. Trajetórias são comparadas. O público dispõe hoje de instrumentos que anteriormente pertenciam quase exclusivamente aos círculos especializados.
É aqui que o êxito socioliterário empregado por Rommel Robatto a partir de Machado Neto adquire inesperada atualidade. A eleição pertence aos acadêmicos. Mas o significado cultural da eleição não pertence exclusivamente a quem vota.
A Opinião Pública não vota na ABL, mas lê a eleição, a compreende e a interpreta. E essa leitura funciona em duas direções: a Academia interpreta os candidatos; a sociedade interpreta a Academia.
Isso não diminui a independência dos imortais. Apenas evidencia a dimensão pública de uma instituição cuja história pertence à cultura brasileira.
Taurino Araújo tem o perfil
Chego, enfim, à segunda metade do título. O que mais me chama atenção depois de percorrer essa trajetória é que as leituras não nasceram ao mesmo tempo, não foram produzidas pelas mesmas pessoas e não dizem a mesma coisa.
Washington Trindade percebeu precocemente uma trajetória fora do comum. Nelson Cerqueira encontrou no poeta uma cicatriz autoral na Língua Portuguesa. Lícia Soares de Souza encontrou a coerência transdiscursiva e formulou um dos juízos mais altos sobre sua originalidade intelectual. A recepção da Hermenêutica da Desigualdade encontrou a pretensão de uma epistemologia genuinamente brasileira. Rommel Robatto identificou capacidade de agregação e êxito socioliterário. Guilherme Carvalho recuperou uma tradição jurídico-humanística baiana em que Direito, poesia, arte, memória, obra e presença podem coexistir. Mário Nelson Carvalho encontrou as Sete Portas, a convergência e o fenômeno Prado Valladares.
São olhares diferentes. E justamente por isso sua convergência interessa. Nenhum deles, sozinho, contém o gigantesco Taurino Araújo. Todos encontram alguma dificuldade em aprisioná-lo numa classificação única.
Criador pela obra, pensador pela elaboração, executivo pela realização e embaixador pela vocação agregadora. E antes de todos esses predicados: poeta.
Uma cadeira acadêmica pode reconhecer aquilo que alguém fez sem transformar-se em ponto final honorífico de sua biografia. Pode celebrar o passado e simultaneamente perguntar pelo futuro.
Por isso, a questão não se resume a saber quem possui obra para chegar à Academia.
É também perguntar quem possui obra, presença, independência intelectual, capacidade de agregação e disposição para trabalhar por ela depois de chegar.
A Academia Brasileira de Letras guarda uma parcela extraordinária da memória cultural do Brasil. Mas uma Academia não se torna imortal simplesmente porque elege imortais. São os imortais, pela criação, pela presença, pela convivialidade e pelo trabalho, que a tornam cada vez mais viva.
No começo deste artigo perguntei que perfil pode contribuir para isso. Agora posso voltar à metáfora de Mário Nelson. Há seis portas, seis possibilidades que autorizam a imortalização de apenas um sujeito, Taurino Araújo. A sétima é a convergência.
E a convergência reúne o poeta, o pensador, o homem do Direito e da vida pública, o crítico, o construtor cultural e o artista numa mesma vocação.
Como advogado acostumado a examinar obra, viabilidade e conjuntura, é daí que retiro minha conclusão:
Eleja um e leve seis: Taurino Araújo tem o perfil.
