Patrícia Piper participa do SIAPARTO 2026, aborda a ansiedade perinatal e defende a identificação precoce do sofrimento psíquico durante a gestação e o pós-parto
A romantização da maternidade e a dificuldade de reconhecer o sofrimento emocional das mulheres durante a gestação e o pós-parto estarão entre os temas debatidos pela médica Patrícia Piper, fundadora da Campanha Maio Furta-cor, durante sua participação no Simpósio Internacional de Assistência ao Parto – SIAPARTO 2026, em Salvador. Com mais de 15 anos de atuação na área de psiquiatria perinatal, a especialista estará na capital baiana entre 29 de outubro e 3 de novembro para palestrar sobre ansiedade perinatal e ministrar uma capacitação voltada à identificação precoce de problemas de saúde mental durante o pré-natal.
Para Patrícia, a expectativa social de que a maternidade seja uma experiência de felicidade e realização pode dificultar o reconhecimento de sentimentos que não correspondem a esse ideal.
“A maternidade ainda é muito romantizada. Acreditamos que a mulher, ao se tornar mãe, está plena, feliz e realizada. Quando partimos desse pressuposto ao conversar com as mães, deixamos de perguntar e de ouvir o que ela está sentindo de fato”, afirma.
Segundo a especialista, sentimentos ambivalentes, medos e inseguranças também fazem parte da experiência materna e precisam encontrar espaço de escuta e acolhimento. A identificação precoce de sinais de sofrimento psíquico é fundamental para que as intervenções ocorram no momento adequado, especialmente em uma fase marcada por intensas transformações emocionais e familiares.
“O puerpério é o período em que a mãe e o bebê estão desenvolvendo vínculos, aprendendo a se comunicar e estabelecendo uma nova dinâmica entre as relações. Quando tudo isso é atravessado pelo adoecimento mental, toda a dimensão é afetada”, explica.
Cuidado com a mãe precisa ir além da saúde física
Além da palestra sobre ansiedade perinatal, Patrícia ministrará, ao lado de Ana Brandino, o minicurso “Capacitação prática para triagem pré-natal em saúde mental”, no dia 30 de outubro, das 8h às 12h, na Faculdade Unime Anhanguera, localizada no terceiro piso do Shopping Paralela, em Salvador.
A atividade, com quatro horas de duração, é exclusiva para participantes inscritos no congresso e busca contribuir para a formação de profissionais no reconhecimento de vulnerabilidades emocionais durante a gestação.
Patrícia chama atenção para uma lacuna na assistência materna: a concentração dos cuidados no desenvolvimento do bebê e nas condições físicas da gestante, enquanto aspectos emocionais e psicológicos podem receber menos atenção.
“Os profissionais de saúde ainda estão muito voltados aos cuidados com o bebê e com o corpo físico da mãe, esquecendo que um bebê também nasce no psiquismo materno. Essa mulher também é sujeito de desejos, ambivalências, medos e dores que não anulam o amor pelo bebê”, destaca.
Para a médica, a capacitação dos profissionais deve ir além da aplicação de instrumentos de rastreamento. É necessário desenvolver uma escuta qualificada, capaz de reconhecer as particularidades de cada mulher e o contexto em que ela vivencia a maternidade.
“O pré-natal é uma oportunidade privilegiada para construir vínculos de confiança, identificar vulnerabilidades, reconhecer sinais precoces de sofrimento psíquico e oferecer intervenções antes que esse sofrimento se agrave”, ressalta.
Saúde mental materna como parte essencial da assistência
Fundadora da Campanha Maio Furta-cor e diretora da Associação Maio Furta-cor, Patrícia Piper atua na promoção da saúde mental materna e na defesa da construção de políticas públicas voltadas às mães e famílias brasileiras.
Sua trajetória profissional reúne atividades de ensino, pesquisa e formação nas áreas de saúde mental perinatal, trauma, neurociências, maternidade, direitos reprodutivos e violências de gênero.
A participação no SIAPARTO 2026 reforça a discussão sobre a necessidade de incorporar a saúde mental ao acompanhamento das mulheres desde a gestação, reconhecendo que a chegada de um bebê também representa um período de profundas mudanças para quem se torna mãe.
“Cuidar da saúde mental materna não é apenas prevenir doenças. É reconhecer que, enquanto um bebê nasce, uma mulher também atravessa uma profunda transformação — e que ela merece ser cuidada, não apenas porque é mãe, mas porque é uma pessoa”, conclui Patrícia.
