Opinião

NO CENTRO DAS DECISÕES DIRETO DE BRASÍLIA

Matérias do jornalista Walter Brito com Estênio Campelo e o cineasta  Cacá Soares sobre a imortalização de Taurino Araújo na Academia Brasileira de Letras.

Por Estênio Campelo
BRASÍLIA. DIRETO DA REDAÇÃO. Jornalista Walter Brito 8.11.26 — SÃO PAULO NAS ENTRELINHAS

Na foto, os advogados, escritores e poetas: Estênio Campelo e Taurino Araújo, ambos nordestinos: Estênio advogado cearense estabelecido em Brasília -DF e Taurino advogado baiano estabelecido no Rio de Janeiro-RJ. “Entre os escritores que disputam a vaga está um nome que não se impõe pelo barulho, mas pela obra: Taurino Araújo”. Assim, Estênio Campelo inicia o texto de sua autoria abaixo

A Academia Brasileira de Letras se prepara para uma de suas eleições mais simbólicas dos últimos anos. No dia 12 de novembro, os imortais vão escolher o sucessor de Zuenir Ventura na Cadeira 32. Entre os escritores que disputam a vaga está um nome que não se impõe pelo barulho, mas pela obra: Taurino Araújo.
Baiano, nascido em Jequié, em 25 de dezembro de 1968, poeta, jurista, pensador, crítico literário e artista visual, Taurino construiu, em quase cinco décadas, uma trajetória raríssima de se repetir. É essa unidade que faz dele um candidato com qualificação profissional e literária para a Cadeira 32.
Uma unidade que acaba de receber uma interpretação particularmente expressiva no estudo de Mário Nelson Carvalho, Taurino Araújo — O Mercado das Sete Portas: sete caminhos de uma eloquente vocação genuinamente brasileira.
Ao examinar a trajetória do extraordinário escritor baiano, Mário Nelson não encontra uma sucessão desordenada de profissões, títulos ou atividades. Encontra sete caminhos que conduzem ao mesmo centro: poesia, pensamento, Direito e democracia, crítica, construção cultural, arte e convergência.
O estudo oferece, assim, uma explicação para aquilo que o currículo, sozinho, não consegue demonstrar. Taurino não abandona uma atividade quando passa a outra. Amplia os meios pelos quais procura compreender e transformar a realidade.
A Cadeira 32 não é uma cadeira qualquer.
Tem como patrono Manuel de Araújo Porto-Alegre, poeta, pintor, arquiteto, professor, jornalista e diplomata. Um homem de muitas linguagens, cuja participação na cultura brasileira ultrapassou as fronteiras de uma única especialidade.
Foi ocupada por Ariano Suassuna e, mais recentemente, por Zuenir Ventura. Ou seja, é uma cadeira cuja história acolheu mais do que um único ofício. Acolheu diferentes e amplíssimas visões de Brasil.
Ariano Suassuna fez da literatura, do teatro e da cultura popular instrumentos de interpretação da nacionalidade. Zuenir Ventura, com sua experiência jornalística e literária, investigou o país das ruas, das transformações políticas, das desigualdades e das contradições urbanas.

Ao lado da Enseada da Guanabara, o executivo das letras Taurino Araújo, promete muito trabalho a favor da Academia Brasileira de Letras-ABL

São trajetórias distintas, mas que se encontram na preocupação com a identidade brasileira.
Taurino tem essa visão grandiosa da Civilização Brasileira
Sua produção poética ultrapassa, segundo o próprio autor, três mil páginas, com destaque para A caturna e outros poemas: 40 anos de poesia brasileira.
No poema A caturna, uma antiga palavra da Língua Portuguesa ganha novas possibilidades de significação. A palavra torna-se caminho, corpo, memória, território, travessia e permanência.

O baiano Ruy Barbosa e o carioca Machado de Assis (foto), amigos inseparáveis, ao lado de 38 escritores, fundaram a Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, em 1897. O Ruy Barbosa tornou-se conhecido como Águia de Haia, enquanto Machado de Assis passou para a história como o maior escritor da literatura brasileira. Alcançado pela reportagem, Taurino disse: “Ruy Barbosa: expressão sem fronteiras da grandeza e da eloquência brasileira.”

Nelson Cerqueira dedicou ao poema um tratado crítico de 48 páginas, distribuídas em 39 seções e duas grandes partes, examinando uma composição de 96 versos. Posteriormente, o estudo foi traduzido para o inglês por Edson Reis Santana.
A leitura de Cerqueira não se limita à apreciação estética. O crítico investiga a maneira pela qual Taurino recebe uma palavra antiga e amplia seu campo de significação. A operação poética não está na invenção do vocábulo, mas na capacidade de fazê-lo produzir novas relações de sentido.
Mário Nelson Carvalho reconhece nesse procedimento uma das características mais persistentes da trajetória do escritor: receber aquilo que já existe, preservar sua identidade e transformá-lo por meio de novas aproximações.
É uma maneira de compreender a poesia que também ajuda a compreender o jurista, o crítico, o professor e o artista visual.
Autor de Hermenêutica da desigualdade: uma introdução às ciências jurídicas e também sociais, publicado pela Del Rey em 2019, Taurino Araújo desenvolveu uma reflexão sobre a desigualdade como categoria fundamental para a interpretação do Direito e da realidade social alçada pela crítica ao nível de uma Epistemologia genuinamente brasileira, 95 depois da Semana de Arte Moderna.
Em Ubatã, Taurino Araújo participou de atividades culturais e da vida pública. Presidiu o Grupo de Arte Canoatan, cuja experiência reunia teatro, música, poesia, festivais, formação de jovens e participação comunitária.
Em 1986, aos dezessete anos, durante a campanha de Waldir Pires ao Governo da Bahia, pronunciou em praça pública um discurso intitulado “O Brasil nasceu na Bahia”.
Vinte e cinco anos depois, ao participar da homenagem que concedeu a Taurino a Medalha Thomé de Souza, Waldir Pires ainda se recordava daquele adolescente e de sua disposição para lutar por seu povo, sua geração e a humanidade.
O episódio, recuperado por Mário Nelson, ajuda a compreender a duração dessa trajetória. Antes do advogado, do doutor, do crítico literário e do artista visual, já existia um jovem que utilizava a palavra como instrumento de participação na vida brasileira.
Em 1989, Taurino Araújo assumiu a Secretaria de Administração de Ubatã. Posteriormente, participou do movimento estudantil ligado à FESPI e da luta pela estadualização da instituição que daria origem à Universidade Estadual de Santa Cruz.
A experiência administrativa, a participação universitária, o exercício da advocacia e a reflexão jurídica aparecem, assim, como diferentes manifestações de uma mesma preocupação com a vida coletiva.

Na foto, a saudosa Prêmio Nobel da Paz, Wangari Muta Mattai, em mãos, o original do livro: “Memórias de uma Família Negra Brasileira”, presente do autor e amigo, o jornalista Walter Brito. A ambientalista queniana escreveu diversos livros, entre os quais “Inabalável: Memórias”, lançado no Brasil em 2007 pela Nova Fronteira. Questionado pela reportagem referente ao projeto do amigo Taurino Araújo, o jornalista que foi dirigente da Fundação Cultural Palmares disse: “Taurino, além de ser um executivo das letras e da cultura, sua boa energia promete muito trabalho a favor da ABL”.

É também de sua autoria o livro Se você quer subir, não aperte descer, obra publicada pelo Instituto Memória em 2023, originada de estudos desenvolvidos na PUC-RS sobre motivação, liderança e autorrealização.
A interpretação das estruturas sociais encontra, nessa obra, a investigação do próprio sujeito. Taurino é ainda organizador e curador de Signos em Transe: uma fortuna crítica sobre a semiótica de Lícia Soares de Souza, coletânea que reuniu 62 autores de sete países e cinco idiomas.
A obra representa uma dimensão importante de sua trajetória: a capacidade de reunir pesquisadores, aproximar instituições, organizar contribuições intelectuais e fazer circular a produção cultural brasileira.
Mário Nelson identifica nesse empreendimento uma característica que atravessa toda a vida do escritor: a construção cultural como capacidade de agregar diferenças sem eliminá-las.
Mas a experiência de reunir 62 autores, de sete países e cinco idiomas, diz algo ainda mais importante para a Academia: Taurino Araújo sabe mesmo transformar iniciativas individuais em empreendimentos coletivos. Essa capacidade de mobilização, escuta, articulação e realização é precisamente o que sua liderança pode oferecer à ABL. Uma Academia não vive apenas do prestígio de seus integrantes; fortalece-se também quando seus acadêmicos criam pontes entre escritores, pesquisadores, leitores, instituições e gerações.
Sua atuação na cultura, na universidade, na administração pública e na organização de projetos intelectuais permite enxergar uma contribuição concreta: ajudar a ampliar a presença da Academia no debate nacional, estimular a circulação das obras e aproximar as Letras brasileiras dos múltiplos Brasis que elas representam. Não se trata de prometer uma transformação automática, mas de reconhecer uma experiência demonstrada de iniciativa e coordenação.
A mesma operação reaparece nas artes visuais. Na série Assemblage no Parque da Cidade, iniciada em 2017, Taurino Araújo utiliza folhas, galhos, flores secas e outros elementos encontrados na natureza para produzir composições artísticas.
Em AGREGAÇÃO, obra apresentada na exposição A Última Porta: Arquiteturas do Acolhimento, realizada no Tribunal de Justiça da Bahia em agosto de 2026, essa prática encontra uma expressão particularmente significativa.
O artista reúne elementos dispersos e produz uma nova composição sem apagar a identidade das matérias utilizadas.
O crítico Celso Cunha Neto, da Associação Brasileira de Críticos de Arte, também examinou essa relação entre a produção visual e o pensamento de Taurino no artigo A poética do chão: a beleza do que sobra encontra força e continuidade nas obras do artista visual Taurino Araújo, publicado em A TARDE. Não por acaso, seu lema de campanha dialoga com a própria história da cadeira: “Depois de Ariano, é Taurino”.
Nesse sentido, em outro estudo dedicado à palavra pública de Taurino, Celso Cunha Neto interpreta a frase “Eu tenho régua em casa” como imagem de discernimento e autonomia intelectual. Ao examinar o humor, a imaginação e a conversação do poeta, aproxima-o da figura do causeur, o grande conversador que reúne erudição, espontaneidade, memória, espírito crítico e capacidade de transformar o diálogo em acontecimento intelectual. A comparação com Afrânio Peixoto, intelectual baiano de múltiplos ofícios, reforça a presença dessa tradição de cultura e interlocução.
Essa arte de conversar não é qualidade secundária numa instituição fundada no convívio entre escritores. O diálogo, a escuta, a capacidade de construir consensos sem suprimir diferenças e a habilidade de representar publicamente as Letras são dimensões essenciais da vida acadêmica. Na leitura que o artigo de Celso permite desenvolver, a inteligência verbal de Taurino pode tornar-se também instrumento de liderança cultural.
Não se trata de slogan. Trata-se de continuidade.
Essa dimensão também pode ser observada na circulação acadêmica e bibliográfica de obras e estudos relacionados a Taurino, inclusive em plataformas internacionais e no registro de Hermenêutica da Desigualdade no catálogo da Biblioteca do Escritório das Nações Unidas em Genebra.
Também por isso, a autodefinição de Taurino como “executivo das artes” adquire sentido particular.
O escritor não se apresenta apenas como alguém interessado em receber uma distinção. Apresenta-se como alguém disposto a trabalhar. Na entrevista concedida ao portal Notícia Livre, em novembro de 2026, resumiu essa disposição numa frase: “Sou um executivo das artes. Quero a Cadeira 32 para trabalhar pelas Letras do Brasil”,
É aí que a expressão “executivo das artes” deixa de ser uma tirada de efeito e se converte em proposta institucional. Taurino pode contribuir com uma liderança que combine criação e execução: conceber projetos, reunir talentos, estabelecer interlocuções e acompanhar resultados. A ABL não precisa apenas de escritores consagrados; beneficia-se também de acadêmicos dispostos a trabalhar por sua vitalidade, seu alcance público e sua interlocução com a sociedade brasileira.
Imortalizada, a liderança de Taurino Araújo será especialmente valiosa por não depender de uma única especialidade. O poeta dialoga com o jurista, o professor com o crítico, o artista com o organizador cultural. A convergência descrita por Mário Nelson Carvalho encontra, aqui, uma consequência prática: fazer da multiplicidade intelectual uma capacidade de ação coletiva.
A eleição de 12 de novembro caberá aos imortais, que escolherão o próximo ocupante da Cadeira 32.
Mas a candidatura de Taurino Araújo já coloca em discussão uma questão relevante: o papel que uma Academia de Letras pode desempenhar na aproximação entre a tradição literária, a produção intelectual contemporânea e a diversidade cultural brasileira.
Ele se propõe a defender as Letras do Brasil porque as vive não como ornamento, mas como missão.
Por isso, a pergunta não é apenas o que a ABL pode representar para Taurino Araújo, mas também o que Taurino Araújo pode acrescentar à ABL. Sua obra oferece uma candidatura; sua experiência de liderança oferece uma perspectiva de trabalho. E uma instituição que preserva a memória literária brasileira também ganha quando encontra quem saiba criar oportunidades para essa memória permanecer cada vez mais viva, exuberante e duradoura com a imortalização de Taurino Araújo na Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras.
A Bahia torce. O Brasil literário observa. E a Academia tem agora a oportunidade de eleger não apenas um ocupante para a Cadeira 32, mas um defensor de sua razão de existir. Depois de Ariano, é Taurino Araújo. E com certeza vamos ter de novo um nordestino na Cadeira 32 da ABL

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