Celso Cunha Neto, da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA)
Quando a Academia Brasileira de Letras abre uma vaga, raramente se pergunta o que a cadeira pede. A inversão, entretanto, ajuda a compreender a candidatura de Taurino Araújo à sucessão de Zuenir Ventura.
O patrono da Cadeira 32 é Manuel de Araújo Porto-Alegre: poeta, pintor, professor, jornalista, diplomata e teatrólogo. Entre os ocupantes, Ariano Suassuna.
Artista visual, nascido em Jequié, Taurino Araújo construiu menino a partir do Grupo de Arte Canoatan, em Ubatã, uma multitrajetória que encontra singular e internacional ressonância nessa linhagem, levando-o a ser apontado como “um dos pensadores mais originais que o Brasil já produziu”.
É poeta de quatro décadas, dos sonetos aos haicais, de A Caturna e Guadalupe Madre. Jurista, pensador e doutor em Ciências Jurídicas e Sociais, é autor de Hermenêutica da desigualdade, considerada pela crítica uma epistemologia genuinamente brasileira, afora o conceito de verdade absoluta, 95 anos depois da Semana de Arte Moderna, com emprego em pelo menos 19 áreas do conhecimento.
É também crítico, organizador e curador de Signos em transe, fortuna crítica sobre Lícia Soares de Souza, com 62 autores de sete países, de Winfried Nöth e Berthold Zilly a Cyro de Mattos, Suênio Lucena, Zilá Bernd e Eurídice Figueiredo, em cinco línguas.
O que ele não é? — pilheriam. Professor, artista multitalentoso, mentor de pessoas e organizações, sócio efetivo da Associação Bahiana de Imprensa. Porto Alegre também integra sua formação.
Na PUC-RS, cursou MBA em Gestão de Pessoas e figura, ao lado de Carlos Nejar, entre seus ex-alunos notáveis. Dessa vertente nasceu o livro Se você quer subir, não aperte descer, lançado em Curitiba, em 2023, 2ª edição — case de sucesso autobiográfico.
Apelidado de O Samurai da Voz no Japão, em 2005, faz muito com quase nada: em sua arte, resíduos ganham expressividade (est)ética; em sua trajetória, os ofícios se atravessam. O Direito conduz à hermenêutica; a gestão, à mentoria; a crítica, à leitura; a docência, à transmissão; a arte, à forma; a poesia, à síntese. Em 2013, recebeu a Comenda João Mangabeira (CBJM), maior honraria do Estado.
Na verdade, o que importa é saber que Brasil cada obra consegue fazer tão bem: “tinha no bolso apenas uma ficha telefônica e muita vontade de falar. Falei”, resume Taurino Araújo.
A eleição está marcada para 12 de novembro. Até lá, permanece a pergunta: que voz e forma de pensar o Brasil deve prevalecer na conversa nacional? Resposta? A de Taurino Araújo, que, desde as margens de Ubatã, não pede licença para ser o centro desse Brasil Grande.
Da ficha telefônica à Academia, prevalecem o poder e a beleza da vontade de falar — e de fazer ouvir o Brasil que, sem a imortalização dele, quase nunca chegaria ao centro das decisões.
