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Taurino Araújo ganha novo estudo internacional sobre sua obra e reforça candidatura à Academia Brasileira de Letras

Pesquisa da semioticista canado-brasileira Lícia Soares de Souza analisa o protagonismo feminino na poesia do escritor baiano. Candidato à Cadeira 32 da ABL, que ficou vaga após a morte de Zuenir Ventura, Taurino também apresenta tributo a Castro Alves e destaca quase cinco décadas de dedicação à literatura.

A candidatura do escritor, poeta e jurista baiano Taurino Araújo à Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras (ABL), vaga desde a morte do jornalista e escritor Zuenir Ventura, em 22 de setembro de 2026, ganhou um novo capítulo com a publicação de um estudo internacional dedicado à sua produção literária. A pesquisa, assinada pela semioticista canado-brasileira Lícia Soares de Souza, examina o protagonismo feminino na obra do autor e amplia o debate crítico sobre sua contribuição à literatura brasileira.

Taurino está entre os 17 candidatos oficialmente inscritos na disputa pela cadeira que pertenceu a Zuenir Ventura, morto aos 95 anos, em decorrência de uma pneumonia. Segundo a Academia Brasileira de Letras, as inscrições foram encerradas em 8 de outubro, e a eleição para escolher o novo ocupante está marcada para 12 de novembro de 2026.

Intitulado “Female Protagonism in Guadalupe Madre, by Taurino Araújo: A Hypothesis of Transdiscursive Coherence” (Protagonismo feminino em Guadalupe Madre, de Taurino Araújo: uma hipótese de coerência transdiscursiva), o trabalho tem 42 páginas e foi disponibilizado na plataforma científica Zenodo.

Partindo da obra Guadalupe Madre, a pesquisadora investiga a representação feminina em uma produção poética que, segundo o material de divulgação da candidatura, ultrapassa “3 mil páginas de poesia”. O estudo, com tradução de Edson Reis Santana, estabelece conexões culturais e literárias entre a Bahia, Portugal, o México e outras regiões das Américas.

A publicação é apresentada como mais um elemento de reconhecimento da trajetória intelectual de Taurino Araújo, que busca integrar uma das instituições literárias mais tradicionais do país.

“Chego das margens interioranas de Jequié e Ubatã, nos ombros de minha obra grandiosa, para trabalhar pelas letras do Brasil”, afirma o escritor.

Candidatura à Cadeira 32 reúne literatura, tradição e atuação pública

A Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras possui uma trajetória marcada por escritores, jornalistas, dramaturgos e intelectuais ligados à vida cultural brasileira. A vaga foi aberta após o falecimento de Zuenir Ventura, que ocupava o posto desde 2015, quando tomou posse como sucessor de Ariano Suassuna.

Seu patrono é Manuel de Araújo Porto-Alegre, e o fundador foi Carlos de Laet. Ao longo da história, a cadeira foi ocupada por Ramiz Galvão, Viriato Correia, Joracy Camargo, Genolino Amado, Ariano Suassuna e Zuenir Ventura.

É nessa tradição que Taurino Araújo procura situar sua candidatura, associando sua experiência jurídica, a atuação como orador e a produção poética contemporânea.

O escritor resume simbolicamente essa aproximação com uma frase: “Depois de Ariano, é Taurino.”

A referência a Ariano Suassuna, um dos principais nomes da literatura e da dramaturgia brasileiras, expressa a identificação do candidato com uma linhagem de autores que utilizaram a palavra como instrumento de criação artística, reflexão social e valorização da cultura nacional.

O material que apresenta a candidatura também recupera uma reflexão atribuída ao falecido acadêmico Zuenir Ventura: “suceder não é substituir”.

Nessa perspectiva, a proposta de Taurino não seria reproduzir a trajetória de seus antecessores, mas estabelecer um diálogo com a tradição literária da cadeira, incorporando questões culturais e sociais contemporâneas.

Com a vaga oficialmente aberta e sua candidatura inscrita, Taurino Araújo participa do processo sucessório ao lado de outros 16 concorrentes. A escolha do novo integrante da Academia Brasileira de Letras será feita pelos acadêmicos, conforme os procedimentos eleitorais da instituição.

Críticos classificam escritor como ‘monumento vivo da Língua Portuguesa’

A produção literária de Taurino Araújo também tem sido objeto de avaliações de críticos e intelectuais.

Entre eles estão Nelson Cerqueira e Mário Nelson Carvalho, citados no material da candidatura como responsáveis por caracterizar o escritor como um “monumento vivo da Língua Portuguesa”.

A expressão é utilizada para destacar a dimensão de sua produção e a relação de seus textos com a preservação da memória, da identidade cultural e das possibilidades expressivas do idioma.

Entre os títulos mencionados estão A Caturna, A caçambilha, Guadalupe Madre e É tarde, mas não é tarde.

As obras são apresentadas como parte de um projeto literário que procura estabelecer relações entre a linguagem poética, a experiência humana e a memória coletiva.

O estudo de Lícia Soares de Souza acrescenta a essa discussão a análise do protagonismo feminino, propondo uma leitura que atravessa diferentes textos e contextos culturais da produção do autor.

Homenagem a Castro Alves aproxima poesia contemporânea do condoreirismo

Outro aspecto destacado na trajetória literária de Taurino Araújo é sua aproximação com a obra de Castro Alves, poeta baiano conhecido como o “Poeta dos Escravos” e um dos principais representantes do condoreirismo brasileiro.

Essa relação aparece em É tarde, mas não é tarde, poema em homenagem a Castro Alves, no qual Taurino revisita temas como liberdade, amor, desigualdade, justiça, escravidão, morte e permanência da palavra poética.

O texto é organizado em 12 partes: Deus, Universo, Amor, Liberdade, O Navio, A Bahia, A Morte, O Milagre, 14 de Março, Tarde, O Nome e Castro Alves.

A composição utiliza versos curtos e imagens simbólicas para reinterpretar questões presentes na obra do poeta do século XIX.

Uma das características ressaltadas na apresentação crítica é a transformação da imagem tradicional do voo do condor em uma espécie de “metáfora da escada”. Em lugar da elevação expressa por versos longos e grandiosos, Taurino constrói uma progressão poética por meio de versos breves, que avançam gradualmente entre o cotidiano e as questões universais.

No poema, a liberdade aparece não apenas como tema histórico, mas também como uma questão ligada à própria linguagem e à capacidade da literatura de preservar a memória da opressão.

A obra recupera, por exemplo, imagens dos navios negreiros, das correntes utilizadas contra pessoas escravizadas e do Atlântico como espaço marcado pela violência da escravidão.

Ao revisitar essas imagens, o escritor estabelece uma relação entre a tradição abolicionista de Castro Alves e os debates contemporâneos sobre memória histórica, justiça e liberdade.

Relação com Castro Alves remonta a 1992

A homenagem também recupera um episódio da trajetória intelectual de Taurino Araújo ocorrido em 14 de março de 1992, em Ilhéus, no sul da Bahia.

Na narrativa apresentada pelo poema, o escritor recorda uma manifestação em defesa da preservação da memória de Castro Alves, associada à Academia e à Casa de Jorge Amado.

“Devemos preservar a memória do povo brasileiro através do ícone Castro Alves”, registra o texto poético ao reconstruir aquele momento.

A composição também faz referências a acontecimentos posteriores, incluindo discussões literárias em Salvador, em 2019, e homenagens ao escritor em Itabuna.

São mencionados nomes como Evandro Guerra, Joaci, Nelson Cerqueira e Evelina, em passagens que relacionam a recepção crítica da poesia de Castro Alves à trajetória de Taurino Araújo.

A Bahia aparece como um dos principais espaços simbólicos do poema, especialmente por meio das referências a Salvador, Ilhéus, Itabuna, ao sertão e à Baía de Todos-os-Santos.

Esses lugares ajudam a construir uma narrativa que aproxima a história regional de temas mais amplos da literatura brasileira.

Escritor destaca 49 anos de dedicação às letras

Ao comentar suas expectativas em relação à Academia Brasileira de Letras, Taurino Araújo ressalta o tempo dedicado à produção intelectual.

“Eu chego das margens interioranas de Jequié e Ubatã nos ombros de minha obra grandiosa para trabalhar pelas letras do Brasil. Oxalá que isso aconteça agora ainda na quadra dos meus 57 anos, 49 deles dedicados quase exclusivamente a esse assunto”, declara.

A fala evidencia a importância que o escritor atribui às suas origens no interior da Bahia e ao percurso desenvolvido ao longo de décadas.

A candidatura é apresentada como uma oportunidade de ampliar sua participação nas discussões sobre a literatura nacional, a valorização da língua portuguesa e a preservação do patrimônio cultural brasileiro.

Além do reconhecimento acadêmico, o autor defende a continuidade da palavra literária como uma forma de transmissão de experiências e conhecimentos entre gerações.

Essa preocupação aparece no encerramento de É tarde, mas não é tarde, quando o diálogo poético com Castro Alves transforma a passagem do tempo em uma reflexão sobre a persistência da criação artística.

O poema termina com uma mensagem de perseverança: “Pois jamais é tarde.”

Novos estudos devem ampliar análise da produção literária

A publicação da pesquisa de Lícia Soares de Souza não deve ser o último trabalho dedicado à produção recente de Taurino Araújo.

Segundo o material de apresentação da candidatura, o poema É tarde, mas não é tarde também deverá ser objeto de um novo estudo crítico. Ainda não foram informados detalhes sobre os responsáveis pela pesquisa ou a previsão de publicação.

Enquanto isso, o estudo sobre Guadalupe Madre amplia a circulação acadêmica da obra do escritor e acrescenta novas perspectivas à discussão sobre sua produção poética.

A combinação entre o protagonismo feminino, a releitura de Castro Alves, a valorização da memória cultural e a aproximação com a tradição da Cadeira 32 compõe o conjunto de argumentos apresentados em defesa de sua candidatura.

Para Taurino Araújo, o objetivo é levar à Academia Brasileira de Letras uma trajetória construída a partir do interior baiano, da experiência com a palavra pública e de quase cinco décadas de dedicação à literatura brasileira.

A decisão sobre quem ocupará a cadeira deixada por Zuenir Ventura está prevista para 12 de novembro. Até lá, Taurino segue na disputa por uma vaga entre os chamados imortais da literatura brasileira.

Foto: Divulgação

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