O clone

(PARTE I)
Meses atrás, reencontrei um amigo que já não via há pelo menos vinte anos. Lembro-me dele mastigando alho durante todo o tempo e, por incrível que possa parecer, tive a sensação de ainda sentir aquele hálito horroroso quando ele me cumprimentou, com o entusiasmo de quem encontra alguém que pensava já não mais existir.
Gilberto cultivava uma atração pelas coisas esotéricas e orientais. Dizia ser Rosa Cruz e estudioso dos fenômenos com Objetos Voadores Não Identificados – OVNIS e seres extraterrenos, com os quais, afirmava inclusive, já mantivera contatos telepáticos. Tocava violão clássico como ninguém e lutava karatê razoavelmente, chegando, apesar de toda sua indisciplina para o esporte, a graduar-se com faixa verde em poucos meses de treino, para espanto do professor. Jurava ter aprendido tudo de forma autodidata, justificando ser o resultado do acúmulo de conhecimentos obtidos em vidas passadas.
Pouco mais velho que eu. Fumava desbragadamente. A sua transpiração era o resultado de uma mistura abominável de nicotina e alho. Era um sujeito legal! Bom papo, diria mesmo que chegava a ter uma prosa atraente, quiçá por ser extraordinariamente transcendental. Foi por indicação dele que li “O Macaco e a Essência” e tomei conhecimento das obras de Gibran, Kafka, Madame Blavatsky, Papus e outras, as quais confesso, que tanto ontem como hoje, ainda pouco compreender.
Tenho gravado na memória o perfeito cenário de uma noite em que, lá pelas tantas, numa conversa muito louca, utilizando-se de toda a sua magnetizante eloquência, Giba me revelou que Paracelso, aliás, Philippus Teophrastus, como gostava ele de frisar, com seus conhecimentos de alquimia e esoterismo, chegou a desenvolver um homúnculo em laboratório. Ser esse, que sobreviveu por pouco tempo. Eu, intrigado com tamanha revelação, mesmo achando ser tal crença fruto de um devaneio ou de alguma viagem alucinógena, questionei o fato de isso nunca ter sido revelado ao mundo. E então, ele, com toda a sua mansa retórica, afirmou: “… o conhecimento ficou reservado ao pequeno grupo de iniciados, vez que a mentalidade do século XVI não comportaria informação de tal magnitude; além disso, não esqueça você do risco que ele e os seus discípulos correriam de serem acusados de hereges pela Inquisição.”.
Meu amigo era fã de uma série de televisão que passava todas as terças-feiras chamada “Os invasores”. Para ele, horário sagrado que não dispensava por nada e que servia depois como motivação para um bom pé de prosa, que se estendia madrugada à dentro. Quando o reencontrei, todas essas lembranças me chegaram às enxurradas e, de imediato, reconheci que ele foi um dos responsáveis pelo lado místico que hoje admito cultivar, moderadamente.
─ Puxa, cara! Há quanto tempo, hein?
─ Pois é, meu “véio”! Pô! Por onde você andava que nunca mais nos encontramos, cara?
─ Ah! Andei por esse mundo afora. Viajei muito, casei três vezes, acabei por criar dois filhos que não eram meus, biologicamente meus, quero dizer. Minha missão, meu carma. Você compreende…
─ Compreendo, compreendo!
─ E você, cara, você não mudou quase nada.
─ Você também não.
─ Qual é! Envelheci bastante. A vida me deu algumas boas surras. Tenho histórias para contar, muitas histórias, mas isso é para outro momento.
A conversa rolou como se o tempo tivesse parado. Gilberto realmente tinha muita história para contar da sua vida. Enquanto ele revelava fragmentos do tempo em que ficamos sem nos ver, entre atenções e desatenções, pensava eu com os meus botões sobre o universo de cada um de nós: Como seria ele construído, quais os caminhos que seguimos e para onde eles nos levam?
Contou-me estar aposentado, ainda andar envolvido com parapsicologia e que acabara de sair de uma relação que chegou ao fim, principalmente, em função da crise financeira que estava atravessando, visto que, a aposentadoria junto com os bicos, às vezes não eram suficientes para pagar sequer as básicas despesas, mensais.
─ Estou cumprindo meu carma. Falou resignado.
─ Que carma que nada Gilberto, é a situação do país que está difícil…
─ Não se engane não, é meu carma sim. O país em que nascemos e vivemos faz parte do nosso carma. Sabia você, que os países também tem os seus carmas? Aliás, vou lhe dizer uma coisa que talvez você não acredite e até ache que estou ficando maluco.
─ O quê, Gilberto? Diga o que você quiser. Pois, a esta altura da nossa amizade, já tenho opinião formada sobre você e não será por um ou outro assunto, por mais incrível que possa parecer, que o meu conceito em relação a você irá mudar.
Foi aí que ele meteu a mão em sua pasta surrada, tirou um monte de escritos numa caligrafia de letras apressadas e irregulares. Um texto, de maneira habilidosa e corrente, foi lido por ele; dizia: “… Irmãos terrícolas, ficais atentos aos acontecimentos que já estão por vir. O que vos afirmo não é uma profecia, é fato. Um país, entre os muitos do vosso planeta, em breve tempo, despontará como grande nação. Está previsto no processo evolutivo do planeta que em breve esse país será o substituto dos que, atualmente, disputam a hegemonia do poder no globo terrestre. Contudo, há em curso uma conspiração fomentada por seres de mundos inferiores que já dispararam um ameaçador projeto de dominação do mundo a partir desse grande país localizado no hemisfério sul. E, para alcançar o seu objetivo, infiltrarão entre os candidatos que pleiteiam chegar ao poder, um indivíduo da sua espécie, aproveitando-se da boa-fé, do nível de alienação da sua gente e do subdesenvolvimento do país.
(CONTINUA)
*Texto escrito em 2002. Primeiro ano do governo de Lula.
Jair Araújo – Membro Correspondente da ALACIB – Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil – Mariana/MG e do INBRASCIMG – Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais – Minas Gerais; Membro efetivo da SBPA – Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas – jairsaraujo48@gmail.com

Como sempre, um texto muito bem escrito por Jair. Basta que o leiam calmamente para que não se percam as entrelinhas. Parabéns.
Essas velhas amizades tem sempre novidades que deixam de serem an- tigas de tornando contemporâneas capazes de reencontrar e renovar bem estar e marcar a vida com
Bom viver
Ter o incentivo de uma grande escritor, me faz ficar agradecido e honrado!
Ter o incentivo de um grande escritor, me faz ficar agradecido e honrado!
Achei um texto muito coerente, pois o nosso planeta passa sim por transformações e o objetivo do nosso planeta é de todos nós que nele habita, é a evolução.
A terra deixará de ser um planeta de provas e expiações, e passará a ser um planeta de regeneração.
Fantástico Jair, parabéns! Existe uma 2a parte? Ou… Caso exista não se esqueça de me enviar.
Com certeza, um maluco beleza rsrs, interessante texto😘👏🏽👏🏽👍🏽🫶
Já conhecia este conto de Jair de alguns anos atrás,a narração o realismo do diálogo é incrível, a linguagem também nos identifica com a situação vivida, o bom humor, os detalhes,que parece até um amigo nosso! Como não lembro do final estou na espectativa da segunda parte!
Excelente texto como sempre, grande Jair. Enredo atemporal e interessante. Fico na espera da segunda parte!
Abração
Texto muito interessante. Fiquei curiosa para saber o final.
Ansiosa pela continuação”.
Aguardando a continuação, ótimo
Interessante! Essa revelação já é esperada pela doutrina espírita!