A ilustração; em deus confiamos

Gerson Brasil, jornalista e escritor

Para Virginia

Claudia resolveu contar a Armanda Lopez  realidade que havia estado com Luiz Henrique Dias. Até hoje quando pergunto a ter utilizado a palavra realidade, ela se dispersa, fecha o primeiro botão da blusa e rumina algo entre explicação, comentário, noticiário esportivo e diálogos de fotonovela, “desculpe Nelsinho, a mamãe hoje amanheceu nervosa”. A compreensão, quieta, educadamente, embora receosa da dúvida, segue em frente e ciosa rivaliza com a mesma magia encontrada nos alquimistas. Compreender tem o mesmo sabor de misturar elementos diferentes na obtenção de consagrar a imaginação, que absurdamente não cessa. É compreensível que certas coisas só possam ser ditas fora das paredes dotadas de ouvidos e reverberações que alcançam o campo e a urbanidade.

“Conheci Dias com o casaco, a torná-lo atraente e ambicioso como todos os homens a desfilar pelas ruas elegantes, seja em Florença, Barcelona e outros lugares que não conhecemos, mas sabemos de sua existência porque cremos naquilo que pensamos, pouco importa se há alguma prova, ou escritos naqueles livros do século XIX, em forma de romance, descrições e relatos confessionais. Numa tarde, sem o começo e o fim do dia, contei a Armanda que Dias havia me ilustrado. Estava perplexa, curiosa e com certo êxtase, a provocar incômodo e graciosidade, ‘gracias a los acontecimientos que la vida nos tiene reservados, sin ceremonia, consistencia, pudor ni ira’.

Lembrei que estava vestindo pijama, comprado não me recordo quando, porém sem muita distância em razão do lugar que ocupava no guarda-roupa. Sei que foi em Florença, porque estava acompanhada de meu nino a passear pela Via Tornabuoni e fomos achados pela loja de Roberto Cavalli. Aproveitei e comprei uns pijamas mui hermosos e acreditei que as cores combinavam com o assoalho da casa e as luzes que me ajudavam a ler pela manhã o Fasti Consular para a Ilustração do Código Justiniano e Theodosian. Uma ilustração de fragmentos de jurisconsultos clássicos, que viria a consolidar o direito romano, inspiração para a posteridade.

Embora desconfie da memória, não porque ela falha e mente para encobrir coisas que guardamos, e se tornariam indevidas, nos comentários alheios, alguns maledicentes, mas não desonrosos ou descabidos e sim emoldurados por aquilo que os antigos chamavam de interpretação extravagante.

Eulália, avó severa e cuidadosa, dizia às vezes, malcriada, dichotes para o Senhor Alfredo Perrone dos Santos, quando garbosamente se arrumava e dava ciência a toda casa que iria se ilustrar com Dalva. Morava num sobrado próximo a esquina freqüentada por rapazes, em busca de serem ouvidos por alguma moça, sempre  acompanhada por outras, de passos apertados e sempre retilíneos.

‘A sem-vergonhice tornou-se um patrimônio dessa casa, na qual o moral é uma homenagem a pamonhas; desculpe-me Maria, senhora de fogo e forno, que alimenta essa família, desmiolada’.

– Para quem não conhece Dalva, ela foi ilustrada no magistério e, com a capacidade ofertada por deus, colheu os ensinamentos ilustres da vida.

Será que a ilustração proporcionada por Dias ultrapassou não só a minha compreensão, como também dos alquimistas? Sei que os dicionários se tornaram inócuos diante das modificações do cotidiano, que nem os sentidos dão conta. Outro dia li um conto e o editor gravou no final do texto: ilustração. Era uma reprodução fotográfica de um dos quadros de Renoir, da sequência, “As Banhistas”.

Nunca tinha sido ilustrada, mas Dias conclui sem que eu pudesse recorrer à situação de abuso que se verifica quando um sujeito viola uma norma jurídica e, posteriormente dela se regala. Instrumento bastante usado sem que se pague Royalty aos romanos.

Embora a Ilustração do Código Justiniano e Theodosian se configure um bom caminho; modo caprichoso de anelar as relações humanas na composição de liga de paixão e vidro, com elementos diferentes, alguns disfarçados de iguais, engenhosidade a receber vaias e aplausos. A recusa é sempre violenta, mas deixarei o ‘Código’ de lado, sem intimidar o momento  de retorno, e seguirei os ensinamentos de Arentino, nos seus sonetos luxuriosos, para melhor me conciliar com a ilustração. ‘Eu não me afastaria, Senhora, de tão doce algaravia. Mesmo que o rei da França mo exigia’. A ilustração pulou do ‘Código’ para os livros e para o pijama, sem cantorias e sussurros. A confiança em Dias está depositada, as pernas tesas e firmes me levam a qualquer lugar; afinal, In God We Trust (Em Deus Confiamos). Como também no dólar (risos).

Moça lendo uma carta à janela de Johannes Vermeer.  Pinacoteca dos Mestres Antigos, de Dresden, Alemanha

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