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Adoráveis rapazes

Caravaggio: Os Trapaceiros – 1571–1610, museu Kimbell Art Museum, Texas, EUA

Gerson Brasil*

O crânio rolou sobre si mesmo alguns centímetros, devido ao leve impulso provocado pelo bico do tênis de um dos quatro rapazes. Saudáveis, mas não se sabe até onde — como acontece com os retratos pintados e também com quem anda pela Avenida São João Baptista. Mas é preciso cuidado ao atravessar: se, de repente, acontece uma cãibra ou uma torção no tornozelo, a determinação pode redundar em logro e ocorrer um acidente — uma trombada com um carro, com uma motocicleta apressada ou a distração de quem pedala e lê uma mensagem no celular.

O susto acompanhou a curiosidade, e logo o crânio foi observado à altura de olhos enigmáticos — não pelo objeto descoberto; não se tratava de uma relíquia, nem da presença tardia de alguém importante. Inexistia inscrição ou bilhete para orientar os arqueólogos amadores naquele grande terreno plano, com grossa cortina de árvores a uns 300 metros de distância. Houve a disposição, ao menos em tese, de chamar imediatamente a polícia, mas não prosperou.

“Já temos aborrecimentos em demasia; amanhã é a prova de Química, e a Tabela Periódica não troca de camisa, não toma banho nem estabelece amizade. É entender o mosaico de números e siglas ou ser levado, involuntariamente — quase um sequestro —, a conviver com Solange Arroio, sem nenhuma cortesia e com certa displicência atroz. “Você está construindo uma sólida carreira nas provas e, em breve, quem sabe, a proeza de vê-la encerrada. O catálogo é robusto, inclui o filho de um diplomata.”

Não se tratava de prestar depoimento ou de ser colocado no banco dos suspeitos. Terríveis seriam as hipóteses a serem levantadas e obrigatoriamente compartilhadas. Um descuido, uma mudança no modo verbal, corria o risco de gerar observações infundadas e desconfianças inafiançáveis. Estava — ou estaria — com lama entre os dentes? E por que lama, e não terra? Havia vestígios de rodas de carro ou de pegadas — de gente ou de animais —, enfim, qualquer coisa a perfilar o início de uma investigação com pistas?

Nada mais irritante a atrapalhar o mundo: testemunho sem convicção, sem a astúcia do detalhe. Havia algum pedaço de pano, já desfalecido, mas ainda presente? Uma baga de cigarro? O crânio estava ao ermo ou depositado sobre uma folha, ou parcialmente enterrado, descuidadamente?

Qualquer que seja o relato, a observação sempre falha — e isto, sim, provocará transtorno e lançará dúvidas sobre o presente, o passado e o futuro. Os rapazes mostravam-se pouco dispostos a incluir no currículo o achado, a descoberta — sem espírito científico —, embora de toda importância para a rua, a cidade, o noticiário policial e a curiosidade de quem viesse a reconhecê-los.

Na Rua Motarroios, onde moravam, às vezes a bola se mancomunava com a física e batia na cerca de madeira — um choque assustador; incomodava, mas eram os adoráveis rapazes.

Era um lugar ermo, descoberto, próximo à rodovia B-52. Um descampado, de mato ralo, sem lixo, sem surpresa; parecia estar ali preenchendo o espaço porque se encontrava ocioso, e qualquer jornada empreendida terminava sempre em nada edificante. Não havia toponímia que o realizasse, e o interesse, porventura, encontrava-se guardado em alguma gaveta de uma das casas bem distantes. Terminantemente, não era um local acolhedor para assombrações, presságios ou encantador como as paisagens dos impressionistas. Lá estava o grande vão.

Assassinar alguém ali ou enterrar o cadáver seria custoso e um esforço parvo. Assassinatos ocorrem nas ruas, nas casas, nos bares e nas esquinas. Há muito cessou o roubo a bancos. Era insuportável serem chamados a relatar o encontro com o crânio — alvo, sem buracos ou rachaduras, com algumas folhas coladas no osso frontal; tinha dentes, bastantes —, como se a avaliação superficial pudesse ancorar a ciência forense.

Pesava, desgastava e até um certo ódio arriscava intimidade. “Agora, parte do tempo seria empregada em elaborarmos narrativas, no simples e honroso campo da especulação, para cumprir a importância de alguém que sequer sabe por onde andou o crânio. Tê-lo-ia presenciado um crime? (O assassino não gostou?), a descoberto da ânsia de um beijo? (como registram os cânticos). “Beije-me ele com os beijos de sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho”? Volúpia ensurdecedora, quase uma carne trêmula, na perspectiva de ludibriar carinhosamente o espírito.”

A tia Madalena Oriega tinha uma grave doença no coração e morreu em virtude de o pescoço ter estalado, na pressa de observar quem estava acompanhando Silvia Moura. Exímia nos sapatos e nos namorados, Incluyendo al amante ocasional. Os médicos não chegaram a um uníssono. As duas versões da morte eram empregadas rotineiramente, sem que houvesse uma introdução ou a exibição peremptória do acontecido.

“Fête, plus jamais.”

Silvia, de posse do Mediterrâneo, havia nascido em Florença; nem chegou a saudar os presentes na reunião e expressou desapontamento com aquela morte repentina e incômoda. O pescoço jamais se mexeu; rivalizava com as alças das xícaras, todas bem perfiladas na mesa. Houve dificuldade na hora do enterro. A contrariedade maior devia-se ao esforço empregado por todos de ficar em pé, perpendicular à ex-tia, projetando um pequeno ângulo, impondo sacrifício ao corpo, no exercício de uma observação cuidadosa capaz de confirmar a morte. Acreditava-se.

“Parece manequim, mal desenhado; é impressionante, sem vestígio de sangue.” Daí a dúvida: se ali se encontrava um cadáver ou era tão somente repouso. “Essas reuniões são graciosas, mas não afastam a odiada obrigação — sem rival, nem mesmo ver Leonor Campos tomar banho, com a janela aberta, e impedir os olhares de adoráveis rapazes.”

Algumas pessoas não souberam o que fazer: tossiram. O bolo de laranja se encolheu, educadamente; perdera o reino, agora ostentado pelos médicos, sem saber se examinavam a ex-tia Madalena, se cobriam as tosses com água com açúcar e pastilhas ou se receitavam xarope.

“Adoráveis rapazes”, na voz de Moema Almeida, cobria de inveja muitas outras vozes femininas, que conheciam apenas pela imaginação os futuros médicos, advogados e embusteiros — bem-sucedidos?, dada a qualidade da voz.

“E agora, o que vamos fazer? Seria injusto impor ao crânio uma versão qualquer, apenas para ajudar a polícia a preencher formulários e alimentar a esperança de uma grande descoberta. A história é a mãe da verdade — do que é contado —; não se deixa iludir pela perplexidade; em certos momentos, talvez. Por gostar de matemática, ou por prazer de estabelecer um vínculo proveniente do estatuto de uma geladeira. E se ela se esqueceu da grandiosidade?”

Adoráveis rapazes, sempre incumbidos de simpatizar com a verdade, sempre esperada.

*Gerson Brasil – Jornalista e escritor

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