Nelson Cerqueira publica tratado crítico sobre o poema “A caturna”, de Taurino Araújo

Ensaio de 48 páginas analisa o poema de Taurino Araújo a partir das relações entre Língua Portuguesa, memória, corpo, território, autobiografia e permanência
O professor e crítico Nelson Cerqueira, Ph.D. em Literatura Comparada pela Indiana University Bloomington e membro da Academia de Letras da Bahia, cadeira nº 4, publicou em 18 de agosto de 2026 o estudo A caturna, de Taurino Araújo: um tratado crítico. O trabalho, com DOI próprio e circulação internacional, dedica 48 páginas à análise de um único poema.
E é isso mesmo: 48 páginas sobre um poema.
Cerqueira parte de uma palavra rara — caturna — e mostra como ela deixa de ser apenas um objeto ligado aos pés para se transformar em uma imagem muito maior: língua, calçado, corpo, passo, pegada, memória e permanência. No poema, a Língua Portuguesa não fica numa vitrine. Ela é calçada, gasta, suja de barro e levada para a estrada.
O movimento começa em versos como:
“Calcei as botas, firmei-me na estrada,
a velha caturna da Língua Portuguesa.”
A partir daí, Cerqueira segue o fio da imagem: caturna vira solado; solado vira passo; passo vira pegada; pegada vira marca; marca vira memória. É como se desmontasse uma engrenagem para mostrar ao leitor como o poema funciona por dentro.
A geografia também entra na história. Serra do Caramulo, Alcofra, Recôncavo e Bahia aparecem como pontos de uma travessia da língua. Na leitura de Cerqueira, o português de “A caturna” cruza o Atlântico, chega ao Brasil e ganha outro ritmo — a caturna, em certo momento, “samba”. A voz baiana de Taurino Araújo não surge como simples cópia da tradição portuguesa, mas como força capaz de recebê-la e transformá-la.
Olavo Bilac também aparece. Se, em Bilac, a língua é “flor”, “ouro”, “tuba” e “lira”, em Taurino ela ganha sola e toca o chão. A flor, na leitura de Cerqueira, passa a caminhar.
Mas o tratado não fala apenas da Língua Portuguesa. Fala também de Taurino Araújo.
Cerqueira lê o poema como uma autobiografia simbólica: não um relato literal da vida, mas uma maneira de transformar trajetória, magistério, memória, corpo e desejo de permanência em caminhada poética.
O estudo não é apenas elogio. Cerqueira reconhece que nem todos os 96 versos têm a mesma força e aponta trechos mais retóricos ou sintaticamente ásperos.
Ainda assim, sustenta que essas irregularidades não destroem o sistema do poema. Ao contrário: couro, pedra, subida e estrada também não são lisos. A linguagem, ali, pode ser terreno acidentado.
Depois disso, a leitura sobe de tom. Taurino aparece como herdeiro, condutor e transformador de uma tradição milenar. Em uma das passagens mais fortes, Cerqueira o chama de “utente, intérprete, renovador e monumento vivo da Língua Portuguesa” e diz que o poeta deixa na língua uma “cicatriz autoral”, legando à posteridade “a potência de uma voz inconfundível”.
A certa altura, a própria caturna ganha autonomia. Começa como objeto calçado pelo poeta e termina como voz capaz de continuar depois dele. A imagem vira uma espécie de biografia do próprio poema.
No fim, Cerqueira amplia tudo: Portugal e Bahia deixam de ser apenas lugares e passam a abrir caminho para questões maiores — memória, linguagem, mortalidade, sobrevivência da obra e permanência humana. A conclusão é ambiciosa: poesia e pensamento se aproximam tanto que, segundo o crítico, as palavras “poeta” e “pensador”, isoladamente, já não bastariam para dimensionar Taurino Araújo.
Cerqueira pega uma palavra quase esquecida, recuperada por Taurino, segue suas pegadas por dezenas de páginas e termina propondo que, dentro daquela velha bota verbal, cabem língua, memória, corpo, história e futuro.
A caturna, nesse ponto, já não é apenas um calçado.
É o método.
O artigo completo está disponível no Zenodo:
https://zenodo.org/records/21993118
