O anjo torto da poesia na música de Caetano Veloso

Marcio Salgado*

O anjo da poesia não podia ser como os outros, tinha que ser torto, como escreveu no “Poema de Sete Faces” Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): “Quando nasci, um anjo torto/desses que que vivem na sombra/disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.”

Ele tem inspirado outros anjos literários e agora ressurgiu na composição “Anjos Tronchos”, de Caetano Veloso, que trata da influência da internet e das mídias sociais no mundo contemporâneo, transformando – para o bem ou para o mal – a vida das pessoas. Os versos do compositor dizem: “Uns anjos tronchos do Vale do Silício/Desses que vivem no escuro em plena luz/Disseram vai ser virtuoso no vício/Das telas azuis mais que azuis.”

Em ambos os poemas, não é um anjo qualquer que contempla os seus autores, mas “desses que vivem na sombra”, ou “desses que vivem no escuro…” O de Drummond traz uma capa de subjetividade, já o de Caetano,de realidade virtual.

O primeiro é moderno, mostra uma posição crítica diante do mundo: o termo gauche(do francês, esquerdo) sugere essa escolha do poeta no enfrentamento da vida, e uma certa ironia que vai acompanhá-lo, discretamente, como uma marca literária. O segundo abordou uma questão atual, da pós-modernidade, onde as redes sociais publicizam todosos desejos e os dramas humanos.

O compositor anotou o seguinte em uma rede social: “Embora eu não conheça muito a questão da tecnologia e das suas consequências, eu fiz uma canção que parece mexer em questões muito maiores do que seu autor é capaz de dominar.”

Embora o domínio dessas questões seja difícil, Caetano intuiu as mudanças, os prazeres e as agruras desses novos tempos: “Agora a minha história é um denso algoritmo.” Isso provoca mudanças psíquicas, não é de estranhar que o compositor conclua: “Neurônios meus ganharam novo outro ritmo.”Toda essa poética musical, à primeira audição, estranha, vem arranjada em mais estranheza que se distende e captura o ouvinte no decorrer da música.

Na composição “Ciclâmen do Líbano”, uma das mais belas do álbum, outros anjos retornam em versos que remetem,sutilmente,a Vênus, deusa do amor, dos desejos carnais e da fertilidade. “Que as almas se chamem/E os corpos se amem.” Ao final da canção, os versos musicais: “Que os anjos reclamem/E os céus proclamem” rimamcom “Ciclâmen do Líbano”, verso repetido, que ganha densidade com o arranjo orquestral de Jacques Morelenbaum ao fundo. A música cujo título refere-se à flor vermelha, remete ainda aos sons do Oriente Médio.

No fado “Você-Você”, cantado por Caetano com sotaque lusitano – ou não seria um fado! – tem a participação da cantora Carminho, que pertence à nova geração de fadistas portugueses, e já é conhecida do público brasileiro em participações em shows ou discos do próprio compositor baiano, de Chico Buarquee outros artistas.

O primeiro verso do fado de Caetano “Depois que nós nos perdemos” introduz a história que vai ser contada à meia luz, sem o grande apelo emotivo que caracteriza o fado, gênero musical expressivo que fala dos amores perdidos, das saudades que tocam no fundo da alma portuguesa, da vida do povo e outros temas afins. Neste fado, o bandolim de Hamilton de Holanda substitui a guitarra portuguesa.

A faixa “Cobre” começa com a evocação dos cânticos em louvor: “Vibra o bronze de Santana”. Em seguida funde-se com uma toada inspirada na cor da pele da amada no mar ao sol. “Ó mulher de tez nobre, toma tudo e me tem/Sobre o teu bronze-cobre…”É uma canção romântica que expressa uma sensualidade contida.

Na músicade múltiplos sons “Meu Coco”, o compositor fala da miscigenação do país: “Somos mulatos, híbridos e mamelucos/E muito mais cafuzos…” Trata-se de uma visão de Brasil que ele defende há muito tempo, inclusive na música “Sugar Cane Fields Forever”, de “Araçá Azul” (1973), inspirada em poema de Sousândrade (1833-1902),definiu-se como “Mulato democrático do litoral.”

No texto de próprio punho que acompanha o lançamento do álbum “Meu Coco” (Sony Music, 2021), Caetano Veloso fala sobre o seu processo criativo e, em particular, de algumas canções. “Muitas vezes sinto que já fiz canções demais. Falta de rigor? Mas acontece que desde a infância amo as canções populares inclusive por sua fácil proliferação.” O trabalho traz 12 composições inéditas, e, segundo o músico, cada uma delas “tem vida própria e intensa.”

Os arranjos são dos maestros Jacques Morelenbaum, Thiago Amud e Letieres Leite. A produção musical é do próprio Caetano com o compositor einstrumentista Lucas Nunes. Participam ainda os músicos Moreno Veloso, Marcio Victor, Vinicius Cantuária, dentre outros; além das cantoras Carminho e Dora Morelenbaum.

* Marcio Salgado é jornalista e escritor, autor do romance “O filósofo do deserto”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *