Invasões de bárbaros comedores de azeite-de-dendê

Nestor Mendes Jr.

Em primeiro lugar, vou logo dizendo que sou contra a violência, fazer arminha e coisa e tal, mas acho toda a forma de protesto válida, desde que não ponha em risco a vida de qualquer pessoa.

Depois desse introito quase pacifista, vou direto ao ponto: a “invasão” do CT Evaristo de Macedo realizada pela Torcida Bamor, no último dia 8 de janeiro.

Pelo que foi registrado pelo próprio DADE do Bahêea – que devia estar cuidando do desempenho dos atletas e, agora sabemos, funciona também como uma espécie de polícia política – não houve depredação do patrimônio e, muito menos, qualquer tipo de violência física.

Tanto que não houve, que o volante Rezende – mais um: o clube parece ser uma escola de motoristas – disse que viu o episódio como “normal”. “Acho que é normal pelo tamanho do Bahia. Pela torcida ser muito apaixonada, acho uma cobrança normal”, declarou Rezende, em entrevista oficial, pondo um ponto final ao “assustado”.

Quem não passou a régua e fez questão de botar gasolina na fogueira foi a própria diretoria do clube.

Primeiro disparou uma nota oficial onde fez questão de caracterizar o ato da Bamor como “invasão”, jogando os holofotes totalmente para o lado negativo, como se houvesse ocorrido uma barbárie ou uma carnificina.

E não houve. No máximo, alguns bárbaros comedores de azeite-de-dendê emputecidos com o seu time desmontado, à deriva e rebaixado para a Segundona. É pouco?

E algum sábio do conselho da Hogwarts School, que hoje domina o Tricolor e o levou ao rebaixamento para a Segunda Divisão, ainda teve a audácia de fazer a atual diretoria registrar, na segunda-feira, 10 de janeiro, queixa na Polícia Civil contra os torcedores. Não foi um impulso de “cabeça quente”, mas um B.O. friamente calculado 48 horas depois do crime.

Como o entorno do atual mandatário Tricolor é formado por áulicos e néscios, desconhece até a história mais comezinha e contemporânea do Esquadrão. Como, em geral, são mesmo iletrados, poderiam mandar o DADE ir ao Google e fazer uma busca das duas mais recentes “invasões” ao CT. Uma em 20 de agosto de 2008; outra, em 12 de março de 2013, ambas ainda no Fazendão.

Nas duas, ainda ocorridas nos “tempos das trevas”, em plena ditadura no clube, os mandatários de plantão não chegaram a esta ousadia, de dar queixa na polícia contra um grupo de torcedores. Em 91 anos de história, cravo dizer: pela primeira vez uma diretoria do Bahia vai à polícia contra a sua torcida.

Porém, ao jogar para a Bamor o papel de algoz e tornar-se vítima, a atual direção deu mais um tiro no pé. Ou também terá que dar queixa na Polícia Civil dos torcedores que foram protestar ontem, 12 de janeiro, na porta da Morada dos Cardeais, no Campo Grande, onde reside o próprio Richelieu baiano, o arquiteto do absolutismo tricolor e professor de Deus.

Joguem suas mãos para o céu e agradeçam pela torcida do Bahêea ser constituída de enxamistas, mas, sobretudo, ser uma legião de sujeitos pacatos e ordeiros.

Não sou da Bamor, não faço parte de nenhuma torcida organizada, mas, neste momento, ela representa 99,9% da massa tricolor insatisfeita com a incompetência de quatro anos da atual gestão, baseada justamente na vitimização, no engodo e no cinismo.

A resposta da diretoria ao questionamento feito pelo ex-presidente Marcelo Sant’ana sobre um diretor-geral oculto do organograma e, pior, da folha do RH é risível, não fosse deveras preocupante sobre como hoje o Bahêea é uma nau sem rumo, com uma caixa-preta ultra-blindada.

O atual mandatário não teve a pachorra de responder ao seu antecessor. Botou o escalão inferior para rebater: “o Bahia não faz anúncios de contratações ou demissões de funcionários que não sejam relacionados ao departamento de futebol”. Com esta singela explicação se entende porque o Bahia gastou R$ 216 milhões em 2021 e conseguiu a proeza de ser rebaixado: os sábios da Hogwarts School de Dias D’ávila não conseguiram compreender, até hoje, que tudo, tudinho, é futebol no Esporte Clube Bahia.

A “invasão” da Bamor pode justamente ser o marco contra a incompetência e representar o começo do fim da má gestão no CT Evaristo de Macedo, como foi, na II Guerra, a Operação Overlord, de 6 de junho de 1944, codinome da Batalha da Normandia, a invasão bem-sucedida dos Aliados na Europa Ocidental, até então ocupada pelos alemães.

Portanto, “invasões” podem também ser benignas e bem-vindas.

“E é de batalhas que se vive a vida”, lembrando Raul, outro inigualável “invasor” e bárbaro comedor de azeite-de-dendê.

Nestor Mendes Jr., Jornalista, é sócio centenário do Esporte Clube Bahia.

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