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Janeiro Branco: cuidado do paciente oncológico com a saúde mental é essencial

O movimento “Janeiro Branco” tem um apelo especial para pacientes oncológicos. Embora os cuidados com a saúde mental sejam fundamentais para todas as pessoas, o suporte psicológico para quem lida com o câncer pode fazer grande diferença na adesão do paciente ao tratamento, nos efeitos colaterais e até no resultado do processo de restauração da saúde. Além de tratar das emoções, pensamentos e comportamentos, com foco na melhoria da qualidade de vida e do bem estar dessas pessoas, a psicologia também pode contribuir efetivamente na superação de estigmas e preconceitos relacionados ao câncer.

Pacientes oncológicos deprimidos tendem a sentir mais os efeitos colaterais do tratamento e demandam um tempo maior para responder positivamente às terapias. Por outro lado, indivíduos que conseguem processar suas emoções (ainda que isso inclua sofrer, chorar e/ou lamentar em alguns momentos) conseguem alcançar mais rapidamente o alívio necessário para lutar pela vida e seguir adiante. “O estado emocional do paciente tem influência direta tanto em fatores de risco do câncer, como o estresse, o tabagismo, o alcoolismo e a obesidade, quanto no sucesso do tratamento após o diagnóstico da doença. Enquanto sentimentos como gratidão e confiança podem acelerar o processo de cura, a angústia e a ansiedade podem retardar avanços”, exemplificou a psicóloga Sabrina Costa Figueira.

Influência das emoções – Segundo a especialista em psico-oncologia, que  também atua como consteladora sistêmica, tanto eventos traumáticos marcantes e emoções não elaboradas quanto eventos familiares ancestrais (dinâmicas inconscientes geracionais) podem favorecer o desenvolvimento do câncer. Além disso, a relação direta entre os sistemas neurológico, endócrino e imunológico é uma das muitas provas de que as emoções influenciam no desenvolvimento de doenças e/ou na prevenção delas. “Para promover a saúde mental do paciente oncológico, o(a) psicólogo(a) precisa considerar o contexto, o estágio, os sintomas e outras características do câncer, assim como os efeitos colaterais do tratamento e o suporte da equipe multidisciplinar, da família e dos amigos. Tudo isso influencia no tipo de abordagem da psicologia que será utilizado em cada caso”, pontuou.

Independente do tipo de terapia escolhido, é preciso considerar e eliminar os estigmas criados culturalmente a partir de crenças negativas que levam tanto o paciente quanto as pessoas ao seu redor a vitimizá-lo. “Por acreditarem que o paciente não dá conta da carga que geralmente é atribuída socialmente a quem enfrenta o câncer, muitas pessoas tomam atitudes disfuncionais como a superproteção, por exemplo. Por outro lado, quando o estigma do câncer é desconstruído, abre-se caminho para que o próprio indivíduo se perceba protagonista e sujeito da própria história. Precisamos desconstruir o estigma de que o câncer é sinônimo de morte, pois isso está longe de ser uma regra. O melhor caminho é reconhecer que o tratamento necessário é intenso, carece de tratamento interdisciplinar e, a depender de como o paciente encara o processo, ele pode ter excelentes resultados. Afinal, quantas pessoas conhecemos que ficaram curadas e vivem bem?”, declarou a psicóloga Sabrina Figueira.

Psicológico abalado – Apesar de manter viva a sua esperança, encarar o câncer e seus desafios não foi fácil para o administrador Walter Cardozo de Matos (65), que jamais imaginou que enfrentaria um tumor de intestino com metástases na bexiga e no fígado até que o resultado de uma tomografia, explicado por um cirurgião oncológico, confirmou a doença. No mesmo momento em que recebeu o diagnóstico, o paciente foi informado de que deveria dar entrada imediata no internamento hospitalar para ser operado no dia seguinte. O estado de choque foi inevitável. Passar por três cirurgias em um curto intervalo de tempo, além da quimioterapia, mexeu muito com o estado psicológico do paciente.

Para piorar, após a segunda cirurgia, Walter saiu do hospital com um soluço que o impedia de falar e com um movimento involuntário das pernas que atrapalhava seu sono. “Diante desse quadro, eu sentia medo do que poderia acontecer comigo na quimioterapia, sobretudo devido aos relatos de uma amiga que lutava contra um câncer de reto; às notícias sobre a morte do ex-prefeito de São Paulo, Bruno Covas; ao maior risco de complicações no caso de uma eventual contaminação por Covid-19; e às ideias que eu tinha sobre os efeitos colaterais do tratamento. Quando perdi a capacidade de andar, então, fiquei emocionalmente ainda mais abalado. Eu chorava muito”, relatou. Justamente nesse momento, o paciente decidiu buscar acompanhamento psicológico.

“Com o suporte psicológico, associado ao resultado positivo do tratamento médico e à força do apoio familiar e de amigos da igreja, comecei a me sentir cada dia  melhor, com influências diretas em minha recuperação. Hoje, embora ainda faça quimioterapia de manutenção e passe por altos e baixos nas emoções (ninguém é de ferro), me sinto mais forte. As leituras sugeridas pela psicóloga me ajudaram  a encarar os desafios do tratamento. Minha fé em Deus, especialmente, tem me mantido firme na esperança de que ficarei completamente curado”, declarou Walter, que foi consagrado diácono da Paróquia Nossa Senhora da Luz pouco antes de receber o diagnóstico de câncer.

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