Pesquisa avalia influência do estilo de vida dos médicos no aconselhamento de pacientes sobre mudança de hábitos

Especialistas que praticam atividades físicas, se alimentam bem e não fumam tendem a ser mais proativos em motivar práticas que eles próprios seguem

Adotar um estilo de vida saudável é desafiador, mas os médicos podem desempenhar um papel relevante ao encorajar seus pacientes a mudar hábitos. É exatamente isso o que mostra o estudo inédito “Influência do estilo de vida do médico na prescrição de estilo de vida saudável para pacientes com câncer de mama”. Entre os resultados da pesquisa, que foram apresentados virtualmente no Simpósio de Câncer de Mama San Antonio (EUA) entre 8 e 11 de dezembro, destaca-se o fato de que médicos praticantes de atividades físicas tendem a prescrever mudanças de hábitos para seus pacientes. Por outro lado, especialistas que não fazem o seu “dever de casa” reduzem seu poder de influência positiva, sobretudo porque naturalmente não priorizam o estilo de vida, enfatizando ou limitando-se a falar sobre tratamentos medicamentosos, cirúrgicos, quimioterápicos e/ou radioterápicos durante as consultas.

É natural que médicos que se alimentam bem, não fumam, praticam atividades físicas e adotam outros hábitos saudáveis prescrevam com mais frequência e/ou entusiasmo a mudança de estilo de vida para seus pacientes, tanto para prevenção de doenças e comorbidades de patologias pré-existentes como para garantir a eficácia e o sucesso do tratamento a longo prazo. De acordo com a oncologista Renata Cangussu, uma das autoras do estudo, os resultados da pesquisa reforçam a força do exemplo. “É difícil um fumante convencer outra pessoa a parar de fumar ou um profissional com excesso de obesidade convencer alguém a praticar atividades físicas, por exemplo. O paciente que ouve o conselho de quem não faz o que diz, provavelmente, fará questionamentos mentais do tipo: Se o médico, que é médico, não faz o que é certo, por que eu deveria fazer o que ele diz? Se ele não consegue, será que eu consigo?”, destacou. “Como médica, preciso de autoridade para dizer à minhas pacientes que elas precisam se alimentar melhor. Como mulher, preciso ser saudável para viver bem e cumprir todos os meus papéis na sociedade”, completou.

Metodologia e resultados – A pesquisa online que embasou o estudo foi realizada junto a cirurgiões mamários e oncologistas clínicos e radiooncologistas , todos membros da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e do Grupo Cooperativo Latino-Americano de Oncologia (LACOG). Duas das autoras, as oncologistas Renata Cangussu e Samira Mascarenhas, são médicas baianas integrantes do “Grupo Mulheres na Oncologia”. O questionário elaborado por elas e mais cinco autores, respondido por 267 especialistas, teve como principal objetivo avaliar a correlação entre o estilo de vida do médico e a prescrição de mudança de hábitos para pacientes com Câncer de Mama.

Em relação ao estilo de vida, 228 médicos (85,4%) disseram seguir as recomendações de alimentação saudável na maior parte do tempo e 236 (88,4%) praticavam atividade física. Um total de 143 (46,1%) não consumia bebidas alcoólicas ou bebia menos de uma vez por mês. Apenas 8 (3%) fumavam. Sobrepeso e obesidade foram encontrados em 93 (34,9%) dos entrevistados. No geral, 84,3% dos médicos aconselharam seus pacientes sobre a importância da modificação do estilo de vida. “Os médicos que praticavam exercícios físicos com mais frequência aconselhavam seus pacientes sobre um estilo de vida saudável. Para aqueles que não se exercitavam regularmente, foi identificado um risco relativo de não aconselhar mudanças de hábitos capazes de modificar positivamente a sobrevida de pacientes com câncer de mama”, destacou Renata Cangussu.

Em relação ao controle da obesidade, o estudo descobriu que hábitos alimentares saudáveis dos médicos se correlacionaram com maior chance de controlar pacientes com sobrepeso e obesos.  Outro achado do estudo foi que médicos com prática clínica exclusiva ou majoritariamente no sistema público de saúde apresentaram risco aumentado de não encaminhar pacientes com sobrepeso e obesidade a um nutricionista ou endocrinologista. Isso pode ser explicado por uma sobrecarga, tanto do tempo do médico quanto *da falta de serviços especializados *do sistema público de saúde. Estudos anteriores mostraram que apenas 28% dos pacientes recebem algum conselho sobre atividade física e 40% deles recebem alguma ajuda no planejamento de uma rotina de exercícios. “O estudo torna clara a necessidade dos profissionais de saúde melhorarem seus comportamentos de estilo de vida para que possam potencialmente se sentir mais preparados e equipados para aconselhar seus pacientes”, frisou a oncologista Samira Mascarenhas.

O câncer de mama é o mais frequente tumor diagnosticado em mulheres em todo o mundo. Além dos avanços nas terapias farmacológicas que melhoraram a sobrevida global nas últimas décadas, a adoção de um estilo de vida saudável também tem um impacto positivo na qualidade de vida das pacientes acometidas por esta doença. Segundo um ensaio clínico randomizado da Women’s Health Initiative, pacientes com Câncer de Mama que reduziram a ingestão de gordura e aumentaram a ingestão de frutas, vegetais e grãos apresentam melhoras significativas. Este mesmo estudo revelou que a prática regular de atividade física não só ajuda a manter o peso adequado, como também reduz muito a mortalidade dos pacientes.

Incentivo – Para a paciente da oncologista Renata Cangussu, Ludmila Chetto (44), os bons conselhos da médica fizeram toda a diferença: “Antes de ser diagnosticada com câncer de mama, eu fazia meus checkups anuais, mas comia muita besteira, exagerava na cerveja no final de semana, não praticava atividade física ou, no máximo, começava na segunda-feira, mas na terça já inventava uma dor no dedo mindinho para não continuar. Por tudo isso, acabei engordando muito (…). Felizmente, depois de uma grande luta contra o câncer, estou  muito orgulhosa de mim por ter conseguido transformar a doença em algo positivo, já que através dos conselhos e recomendações da minha oncologista, mudei completamente meu estilo de vida. Por incentivo dela, procurei uma nutricionista, comecei a correr e a fazer musculação, perdi 17 quilos, minha autoestima está nas alturas. Estou curada”, celebrou.

Ludmila contou, ainda, que muito mais do que dar ordens do que ela deveria fazer, a médica deu o exemplo. “A médica não só cobra minha mudança de hábito de modo muito positivo, mas faz por ela mesma o que me orienta a fazer. Prova disso é que ela é linda, tem um corpo saudável e serve de espelho para mim. Os conselhos que recebi da doutora Renata demonstram amor à profissão e aos pacientes. Seguir os conselhos dela foi a melhor escolha que fiz”, frisou a mãe de Vitor (10) e Mateus (8).

Sobre o grupo – “Mulheres na Oncologia” é formado por médicas que atuam juntas na luta contra o câncer em Salvador. Entre os objetivos do grupo, destacam-se  ampliar o acesso das pessoas a serviços de saúde de qualidade, combater as diferenças de oportunidades no trabalho de médicas decorrentes do gênero e colaborar para o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional. “Sou casada, mãe de uma menina e minha batalha para equilibrar todas as áreas da vida é diária. Por vivermos isso na pele, fazemos questão de ajudar as pacientes que, como nós, assumem múltiplos papéis com dedicação e resultados positivos”, declarou a rádio-oncologista integrante do grupo, Elisângela Carvalho. “Somos mulheres, profissionais e mães e cumprimos todos os nossos papéis com dedicação e responsabilidade. Também por isso, incentivamos outras mulheres a não desistirem de seus sonhos, mesmo quando o nosso gênero pareça uma barreira”, completou a oncologista Renata Cangussu. A oncologista clínica Samira Mascarenhas completa o trio de “Mulheres na Oncologia”.

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